Fritz Lang, o implacável

No cinema

11.07.14

Tudo bem, per­de­mos a Copa, mas o ciné­fi­lo bra­si­lei­ro (pelo menos o pau­lis­ta­no, o bra­si­li­en­se e o cari­o­ca) tem moti­vo para sol­tar fogos e bater tam­bor. Está come­çan­do hoje, 11 de julho, no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo, uma retros­pec­ti­va com­ple­ta da obra de Fritz Lang (1890–1976), que exi­bi­rá até 24 de agos­to os 41 fil­mes que o dire­tor rea­li­zou na Alemanha e nos Estados Unidos. A mes­ma mos­tra ocor­re­rá tam­bém no Cine Brasília (a par­tir de 24 de julho) e no CCBB do Rio (13 de agos­to).

Não que os fil­mes de Lang, em si, sejam ale­gres ou fes­ti­vos. Muito pelo con­trá­rio. O que uni­fi­ca essa fil­mo­gra­fia tão vari­a­da, que vai da saga mito­ló­gi­ca à fic­ção cien­tí­fi­ca, do poli­ci­al ao faro­es­te, da aven­tu­ra exó­ti­ca ao dra­ma moral, é uma visão som­bria do mun­do, fun­da­da na con­vic­ção de que o mal está em toda par­te. Ou, nas pala­vras do crí­ti­co ame­ri­ca­no Andrew Sarris, “uma visão sotur­na do uni­ver­so em que o ser huma­no luta com seu des­ti­no pes­so­al e, ine­vi­ta­vel­men­te, per­de”.

Destino e vin­gan­ça

Desde sua pri­mei­ra obra-pri­ma incon­tes­tá­vel, A mor­te can­sa­da (1921) – o fil­me que fez Luis Buñuel deci­dir fazer cine­ma –, a noção de des­ti­no como for­ça ine­xo­rá­vel con­tra a qual o homem se deba­te em vão é a engre­na­gem do cine­ma de Lang. Intimamente arti­cu­la­do à noção de des­ti­no, emer­ge o sen­ti­men­to de vin­gan­ça que move boa par­te dos per­so­na­gens. Dito de outra manei­ra: é como se a vin­gan­ça fos­se o que res­ta ao indi­ví­duo para repa­rar os danos e injus­ti­ças cau­sa­dos pelo des­ti­no, encar­na­do em vilões, gru­pos, ins­ti­tui­ções. Mas, ao con­trá­rio da vin­gan­ça catár­ti­ca dos faro­es­tes espa­gue­te ou dos caça-níqueis do tipo Desejo de matar, em Lang ela rara­men­te é apa­zi­gua­do­ra e, em todo caso, sem­pre che­ga tar­de demais.

Cena de A morte cansada (1921)

Onipresença do mal, vin­gan­ça tar­dia ou inú­til. Em alguns casos pre­va­le­ce o pri­mei­ro ter­mo da equa­ção: A mor­te can­sa­da, todos os fil­mes do Dr. Mabuse, Metrópolis etc. Em outros, a ênfa­se recai sobre a vin­gan­ça: Os Nibelungos, Fúria, Os car­ras­cos tam­bém mor­rem, O dia­bo fei­to mulher, Os cor­rup­tos.

Simpatia pelos mal­di­tos

Outra cons­tan­te no melhor cine­ma de Lang é a recu­sa do mani­queís­mo. Para ele, con­for­me escre­veu em seu dici­o­ná­rio pes­so­al, só havia duas espé­ci­es de indi­ví­du­os: os maus e os mui­to maus. Não há moci­nhos ou heróis ima­cu­la­dos em seus fil­mes, e fre­quen­te­men­te sua sim­pa­tia vai para os mal­di­tos, os abo­mi­na­dos, os mons­tros, os excluí­dos da con­vi­vên­cia huma­na. Seja qual for o cri­me come­ti­do, Lang sem­pre está con­tra a cor­ja lin­cha­do­ra. Se há duas cenas capa­zes de sin­te­ti­zar esplen­di­da­men­te essa moral são estas duas, uma de M (1931) e a outra de Fúria (1936):

M (1931)

Fúria (1936)

O fato de o vie­nen­se Lang ter inter­rom­pi­do brus­ca­men­te sua esplen­do­ro­sa car­rei­ra ale­mã por con­ta da ascen­são do nazis­mo – o que o levou a come­çar toda uma nova vida na América – cer­ta­men­te acen­tu­ou sua amar­ga visão de mun­do e deu outra con­sis­tên­cia a suas obses­sões.

Durante mui­to tem­po os crí­ti­cos de for­ma­ção euro­peia ava­li­a­ram como “menor” a fil­mo­gra­fia ame­ri­ca­na do dire­tor. É evi­den­te que, na Alemanha, Lang tinha um con­tro­le mai­or de seus mei­os de pro­du­ção, ten­do che­ga­do apa­ren­te­men­te ao ápi­ce com os dois lon­gas que rea­li­zou antes de fugir: M, o vam­pi­ro de Düsseldorf (1931) e O tes­ta­men­to do Dr. Mabuse (1932), ambos pas­sí­veis de ser vis­tos como pre­fi­gu­ra­ções do nazis­mo.

Na América, sem domi­nar ini­ci­al­men­te o idi­o­ma e ten­do que se mover den­tro de uma indús­tria mais com­ple­xa e cheia de impo­si­ções, sua fil­mo­gra­fia foi mais irre­gu­lar, alter­nan­do obras-pri­mas abso­lu­tas como Fúria, Os cor­rup­tos e Almas per­ver­sas, com fil­mes menos bem-suce­di­dos, como O segre­do da por­ta fecha­da e O dia­bo fei­to mulher. Claro que sem­pre há um com­po­nen­te sub­je­ti­vo des­sas ava­li­a­ções, e outros crí­ti­cos farão o juí­zo opos­to.

Narrativa impla­cá­vel

O impor­tan­te é que, tan­to nos fil­mes ale­mães como nos ame­ri­ca­nos, a ine­xo­ra­bi­li­da­de do des­ti­no se tra­duz numa lin­gua­gem nar­ra­ti­va igual­men­te impla­cá­vel, em que cada pla­no soli­ci­ta e deter­mi­na o seguin­te, cada diá­lo­go pro­vo­ca uma répli­ca ine­vi­tá­vel, em que não há, em suma, espa­ço para o aca­so, o jei­ti­nho, o impro­vi­so. Poucos dire­to­res na his­tó­ria do cine­ma tive­ram uma cons­ci­ên­cia tão pre­ci­sa do lugar exa­to onde colo­car a câme­ra e como dese­nhar com a luz e a som­bra o dra­ma de cada cena – uma arte adqui­ri­da e aper­fei­ço­a­da em Berlim, na era de ouro do expres­si­o­nis­mo ale­mão.

Lang vol­tou à Alemanha no final dos anos 50 e lá rea­li­zou seus últi­mos fil­mes, mas sob con­di­ções bem dife­ren­tes daque­las da pro­du­to­ra UFA pré-nazis­ta, nas quais ele dera ao expres­si­o­nis­mo algu­mas de suas joi­as mais relu­zen­tes. Depois de rodar na Índia duas aven­tu­ras român­ti­cas inter­li­ga­das, O tigre de Bengala e Sepulcro indi­a­no, encer­rou com cha­ve de ouro a série do Dr. Mabuse, com o fan­tás­ti­co e pre­mo­ni­tó­rio Os mil olhos do Dr. Mabuse (1960), que diz mui­to sobre nos­sa épo­ca de con­tro­le do indi­ví­duo por câme­ras de vigi­lân­cia.

Em 1963 teve ain­da uma apa­ri­ção ful­gu­ran­te nas telas, em O des­pre­zo, de Jean-Luc Godard. Ali, no papel de si mes­mo, ele fil­ma­va no Mediterrâneo uma adap­ta­ção da Odisseia de Homero. E fica­mos ima­gi­nan­do que mara­vi­lha seria, nas mãos des­se gênio do cine­ma, aque­la epo­peia ines­go­tá­vel de vin­gan­ça, des­ti­no e mor­te.

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