Game of Thrones: os sete reinos da incerteza

Televisão

04.04.13

Daenerys Targaryen e os Imaculados

Os pro­du­tos mais bem-suce­di­dos da indús­tria do entre­te­ni­men­to ten­dem a se ali­men­tar da pre­vi­si­bi­li­da­de. Apostando no con­for­to, as nar­ra­ti­vas cos­tu­mam pro­gre­dir por cami­nhos já esta­be­le­ci­dos, para a satis­fa­ção fácil do lei­tor ou espec­ta­dor. É como uma gulo­sei­ma indus­tri­a­li­za­da: você sabe o que espe­rar daqui­lo, e sen­te pra­zer quan­do a expec­ta­ti­va se con­fir­ma. Via de regra, é da explo­ra­ção des­sa bus­ca pelo fami­li­ar que nas­cem os fenô­me­nos pop.

Isso não se apli­ca quan­do o fenô­me­no se cha­ma Game of Thrones, seri­a­do da HBO que aca­ba de entrar em sua ter­cei­ra tem­po­ra­da. Baseada na série As Crônicas de Gelo e Fogo, livros do ame­ri­ca­no George R. R. Martin (para os fãs e daqui em dian­te, GRRM), se tor­nou um suces­so no mun­do todo e obte­ve a gló­ria ambí­gua de ser o pro­gra­ma de tevê mais bai­xa­do ile­gal­men­te em 2012 — um úni­co epi­só­dio teve regis­tra­dos qua­se qua­tro milhões e meio de down­lo­ads, o mes­mo núme­ro de espec­ta­do­res do mes­mo pro­gra­ma pela HBO. Esse últi­mo fato é o pro­vá­vel moti­vo por trás da nova polí­ti­ca de exi­bi­ção simul­tâ­nea de epi­só­di­os nos EUA e outros paí­ses, inclu­si­ve o Brasil — o des­com­pas­so entre as exi­bi­ções dos pro­gra­mas era um dos prin­ci­pais argu­men­tos usa­dos como jus­ti­fi­ca­ti­va para o com­par­ti­lha­men­to irre­gu­lar.

Tomando como ins­pi­ra­ção a Guerra das Rosas, emba­te dinás­ti­co pelo tro­no da Inglaterra no sécu­lo XV, a saga se desen­ro­la em uma ver­são alter­na­ti­va da Terra e tem com pal­co prin­ci­pal o con­ti­nen­te de Westeros, onde sete rei­nos foram uni­fi­ca­dos sob o domí­nio do Trono de Ferro sedi­a­do em Porto Real. Em Westeros não se pode con­tar nem mes­mo com a pre­vi­si­bi­li­da­de das esta­ções: nin­guém sabe quan­do come­ça­rá um novo inver­no, nem quan­to tem­po ele vai durar, e mui­to menos qual será a sua inten­si­da­de. É uma encar­na­ção da incer­te­za que está no cer­ne da série.

No iní­cio da his­tó­ria, os habi­tan­tes de Westeros apro­vei­tam um verão que já dura mais de uma déca­da, mas a ilu­são de esta­bi­li­da­de se des­faz assim que a mor­te do rei Robert Baratheon deto­na uma cadeia de even­tos que leva a uma dis­pu­ta san­gren­ta de poder entre as Grandes Casas do con­ti­nen­te. Quebrando as con­ven­ções tra­di­ci­o­nal­men­te mani­queís­tas da fan­ta­sia épi­ca, não há heróis ou vilões cla­ra­men­te defi­ni­dos, e esses per­so­na­gens ambí­guos e tri­di­men­si­o­nais — mais pró­xi­mos dos seres huma­nos reais que de per­so­na­gens míti­cos — não eco­no­mi­zam toda sor­te de arti­ma­nhas na luta pelo tro­no e pela pró­pria sobre­vi­vên­cia. É um mun­do impi­e­do­so e bru­tal, onde nem mes­mo os nobres podem dor­mir tran­qui­los.

Jon Snow e Ygritte

Assim como os per­so­na­gens jamais estão segu­ros, o espec­ta­dor tam­bém não pode con­tar nem mes­mo com a sobre­vi­vên­cia de per­so­na­gens com ares de pro­ta­go­nis­ta. Começando pelo hones­to e dig­no até demais Eddard Stark, senhor do rei­no do nor­te, deca­pi­ta­do ao final da pri­mei­ra tem­po­ra­da para o hor­ror do públi­co, que o toma­va como mais óbvio can­di­da­to a moci­nho do seri­a­do. E a con­ta­gem de cor­pos só aumen­ta com a avan­ço da nar­ra­ti­va — dos três irmãos Baratheon, a Casa deten­to­ra do Trono de Ferro no iní­cio da saga, res­ta ape­nas um ao final da segun­da tem­po­ra­da. Viserys Targaryen, o últi­mo her­dei­ro varão da Casa que uni­fi­cou os sete rei­nos e gover­nou até ser depos­ta na rebe­lião lide­ra­da por Robert Baratheon, é mor­to pelo che­fe tri­bal Khal Drogo — que tam­bém não demo­ra a mor­rer.

Incluindo muti­la­ções na con­ta, o núme­ro aumen­ta: o jovem Brandon Stark fica para­plé­gi­co ao ser ati­ra­do do alto de uma tor­re por Jaime Lannister, que por sua vez per­de­rá a mão direi­ta. O irmão mais novo des­te últi­mo, Tyrion, um anão de inte­lec­to bri­lhan­te, aca­ba fican­do mais repul­si­vo aos olhos do habi­tan­tes de Westeros ao ter o nariz dece­pa­do duran­te uma bata­lha (na adap­ta­ção para a tevê o nariz per­ma­ne­ceu e o talho no ros­to foi subs­ti­tuí­do por uma cica­triz mais deli­ca­da).

Nesse ambi­en­te de inse­gu­ran­ça gene­ra­li­za­da, a úni­ca coi­sa com a qual se pode con­tar até cer­ta medi­da é que todos os per­so­na­gens que ten­ta­rem agir de for­ma moral — fazer a coi­sa cer­ta — esta­rão con­de­na­dos à der­ro­ca­da. É pra­ti­ca­men­te a húbris de Westeros: aban­do­nar o prag­ma­tis­mo e ten­tar “ser bom”. Quem se arris­ca a pesar demais as con­sequên­ci­as éti­cas de cada ação aca­ba atro­pe­la­do por aque­les que se aban­do­nam à cobi­ça pelo poder, se movem por dese­jo de vin­gan­ça ou sim­ples­men­te obe­de­cem ordens sem ques­ti­o­nar. Quanto mais impi­e­do­so e con­cen­tra­do nos pró­pri­os inte­res­ses, mais adap­ta­do o per­so­na­gem esta­rá ao seu uni­ver­so e mai­o­res as suas chan­ces de suces­so.

Um exem­plo do fra­cas­so do moci­nho no uni­ver­so de Game of Thrones é o des­ti­no já men­ci­o­na­do de Eddard Stark. Em sua pri­mei­ra apa­ri­ção na série ele deca­pi­ta um infra­tor com a pró­pria espa­da, ao invés de dele­gar a tare­fa, esta­be­le­cen­do um per­so­na­gem que segue um códi­go de hon­ra rígi­do e ine­go­ciá­vel. E é esse mes­mo códi­go de hon­ra que o leva à per­da da pró­pria cabe­ça, quan­do ao des­co­brir o segre­do da rai­nha Cersei Lannister (a saber: o pai de seus filhos não é o rei Robert, mas seu irmão gêmeo, Jaime Lannister), ten­ta sal­var a ela e às cri­an­ças da fúria do rei e abre cami­nho para a pró­pria ruí­na.

Daenerys Targaryen, per­so­na­gem que ini­cia a nar­ra­ti­va como pou­co mais que um jogue­te do irmão, sofre o pri­mei­ro gran­de revés ao tomar uma deci­são moral — impe­dir o assas­si­na­to de uma curan­dei­ra. Como resul­ta­do, per­de tudo que tem. Mas assim como ações e even­tos não têm uma úni­ca cau­sa ante­ri­or, sen­do deto­na­dos por uma teia de inter-rela­ções, em Game of Thrones a ruí­na pode ser o pri­mei­ro pas­so para a gló­ria. Forçada a reco­me­çar, Daenerys obtém três dos dra­gões havia mui­to extin­tos e que fize­ram a gló­ria de sua Casa, e par­te em dire­ção à recon­quis­ta do Trono de Ferro.

Eddard Stark perde a cabeça

Para fora do enre­do, pai­ra tam­bém outra nuvem de incer­te­za sobre a série: GRRM está com 64 anos e a série ain­da não foi con­cluí­da. Projetada ini­ci­al­men­te como uma tri­lo­gia, As Crônicas de Gelo e Fogo (que já ven­deu cer­ca de 15 milhões de exem­pla­res no mun­do todo) já está no quin­to volu­me, e há pre­vi­são para mais dois. O inter­va­lo entre a publi­ca­ção de cada um deles está cada vez mai­or: entre A Guerra dos Tronos, o pri­mei­ro, e A Fúria dos Reis, o segun­do, se pas­sa­ram dois anos. Entre o quar­to e o quin­to, A Dança dos Dragões, foi pre­ci­so espe­rar sete lon­gos anos. Há tam­bém a ques­tão da sin­cro­nia com a adap­ta­ção tele­vi­si­va, que avan­ça a his­tó­ria a um volu­me por tem­po­ra­da — o autor já reve­lou aos pro­du­to­res quem con­quis­ta­rá enfim o Trono de Ferro, mas não deu a menor indi­ca­ção dos even­tos que leva­rão a esse des­fe­cho.

Para tor­nar a situ­a­ção ain­da mais afli­ti­va, os livros ficam mais exten­sos a cada lan­ça­men­to — o ter­cei­ro e o quar­to volu­me eram, ori­gi­nal­men­te, um úni­co títu­lo — e o rit­mo da nar­ra­ti­va foi se tor­nan­do len­to e des­pre­o­cu­pa­do, com lon­gas digres­sões des­cri­ti­vas e momen­tos epi­só­di­cos que (ao menos na apa­rên­cia) não avan­çam a his­tó­ria nem enri­que­cem a lei­tu­ra. GRRM tem gran­de poder ima­gi­na­ti­vo, mas não se tra­ta exa­ta­men­te de um bom esti­lis­ta, capaz de pro­du­zir qua­li­da­de lite­rá­ria a par­tir des­ses tre­chos mais len­tos.

E é nis­so que resi­de um dos trun­fos do seri­a­do de tevê: for­ça­dos por impe­ra­ti­vos de tem­po e orça­men­to a uma con­ci­são que esca­pa ao autor, os pro­du­to­res se obri­gam a fazer com que algo impor­tan­te acon­te­ça em cada cena dos epi­só­di­os, impri­min­do um rit­mo mais ace­le­ra­do à saga. Não é o caso de afir­mar, toda­via, que livros foca­dos no desen­vol­vi­men­to de per­so­na­gem tenham se tor­na­do um seri­a­do de ação: ain­da há mui­ta con­ver­sa, como não pode­ria dei­xar de ser em um enre­do tão reple­to de con­cha­vos e arma­ções polí­ti­cas, mas ela nun­ca é gra­tui­ta. Sem a gor­du­ra dos livros, sobra ape­nas a subs­tân­cia. Paradoxalmente, ao ace­le­rar a nar­ra­ti­va, o seri­a­do pare­ce ir ain­da mais fun­do nos per­so­na­gens, em suas moti­va­ções e idi­os­sin­cra­si­as.

Brienne de Tarth e Jaime Lannister

Mas GRRM garan­te estar tra­ba­lhan­do na mai­or velo­ci­da­de pos­sí­vel, e ain­da se tem mui­ta his­tó­ria pron­ta a ser con­ta­da na tevê. O pri­mei­ro epi­só­dio da ter­cei­ra tem­po­ra­da apre­sen­tou ao públi­co alguns per­so­na­gens que­ri­dos dos lei­to­res: Mance Rayder, o “Rei Para Além da Muralha”, o fals­taf­fi­a­no Tormund Terror dos Gigantes e a des­bo­ca­da Rainha dos Espinhos. A audi­ên­cia foi tão expres­si­va que a HBO con­fir­mou uma quar­ta tem­po­ra­da no dia seguin­te à estreia.

No jogo dos tro­nos as opções são ven­cer ou mor­rer, sem­pre evi­tan­do ten­tar fazer a coi­sa cer­ta. Nesta ter­cei­ra tem­po­ra­da, quem pare­cer estar mais cober­to de razão esta­rá cor­ren­do os mai­o­res ris­cos. Mas em últi­ma aná­li­se nada está garan­ti­do além da incer­te­za, e o melhor cami­nho para o Trono de Ferro — mais que intri­ga, cora­gem, inte­li­gên­cia ou prag­ma­tis­mo — pare­ce mes­mo ser o aci­den­te.

Daniel Pellizzari é reda­tor do site do IMS.

, , , ,