Gautherot volta a Paris

Fotografia

23.05.16

Primeira retros­pec­ti­va ampla da obra do fotó­gra­fo rea­li­za­da fora do Brasil, Marcel Gautherot – Brésil: Tradition, Invention ocu­pa­rá um espa­ço impor­tan­te da Maison Européenne de la Photographie (MEP) a par­tir de 14 de junho. Francês que morou no Brasil a mai­or par­te da vida, Gautherot (1910–1996) é um nome essen­ci­al da his­tó­ria recen­te da foto­gra­fia do país. Trabalhou por aqui com gran­des nomes da cul­tu­ra naci­o­nal: Rodrigo Melo Franco de Andrade e Lúcio Costa no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), Edison Carneiro na Comissão Nacional de Folclore, Oscar Niemeyer, para quem foto­gra­fou a cons­tru­ção de Brasília, e Roberto Burle Marx, de quem docu­men­tou os pro­je­tos mais impor­tan­tes como pai­sa­gis­ta.

A mos­tra cum­pre dois obje­ti­vos simul­tâ­ne­os: pri­mei­ro, rein­tro­duz Marcel Gautherot no cír­cu­lo cul­tu­ral e inte­lec­tu­al de Paris, onde nos anos 1930 – como um jovem moder­nis­ta admi­ra­dor de Le Corbusier – foi bas­tan­te ati­vo no cir­cui­to das artes. Em segun­do lugar, apre­sen­ta ao públi­co inter­na­ci­o­nal sua obra foto­grá­fi­ca extra­or­di­ná­ria, defi­ni­da no Brasil ao lon­go de cin­co déca­das, com des­ta­que para seu papel como fotó­gra­fo pre­di­le­to do arqui­te­to Oscar Niemeyer, de modo simi­lar a Lucien Hervé em rela­ção a Le Corbusier ou Julius Shulman em rela­ção ao arqui­te­to Richard Neutra.

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Marcel Gautherot docu­men­tan­do car­ran­cas de proa em bar­cos do rio São Francisco
Bom Jesus da Lapa, Bahia, 1946 (Pierre Verger/Acervo IMS)

A obra de Gautherot desem­pe­nhou um papel cru­ci­al na cons­tru­ção da repre­sen­ta­ção e do ima­gi­ná­rio moder­nos do Brasil, tan­to no país quan­to no exte­ri­or. Caracterizada por gran­de abran­gên­cia ter­ri­to­ri­al e regi­o­nal, diver­si­da­de temá­ti­ca e qua­li­da­de esté­ti­ca, pos­sui dois eixos cen­trais – foto­gra­fia arqui­tetô­ni­ca e foto­gra­fia etno­grá­fi­ca. Ambos têm como base a cons­ci­ên­cia de Gautherot acer­ca da for­ma como fer­ra­men­ta nar­ra­ti­va fun­da­men­tal para a estru­tu­ra­ção minu­ci­o­sa de amplos pro­je­tos docu­men­tais de lon­go pra­zo. Tal visão tam­bém se reve­la no modo sis­te­má­ti­co com que ele orga­ni­zou seu arqui­vo foto­grá­fi­co, com cer­ca de 21 mil nega­ti­vos em pre­to e bran­co e 2200 folhas de con­ta­to, edi­ta­do de modo a per­mi­tir uma lei­tu­ra níti­da e deta­lha­da de toda sua obra – que inclui tam­bém cer­ca de 3 mil sli­des e nega­ti­vos em cores.

Esses aspec­tos da obra de Gautherot não eram de conhe­ci­men­to públi­co duran­te sua vida. Em 1999, a famí­lia do fotó­gra­fo trans­fe­riu sua obra para o Instituto Moreira Salles, que rea­li­zou um exten­so tra­ba­lho de con­ser­va­ção, com ampli­a­ções e nega­ti­vos ori­gi­nais man­ti­dos em con­di­ções ambi­en­tais ade­qua­das à pre­ser­va­ção per­ma­nen­te.

A difu­são ampla e sis­te­má­ti­ca da obra de Gautherot teve iní­cio em 2001, com a expo­si­ção O Brasil de Marcel Gautherot e a publi­ca­ção do catá­lo­go da mos­tra. Os anos seguin­tes trou­xe­ram diver­sas outras publi­ca­ções e mos­tras, apre­sen­tan­do em deta­lhes o papel de Gautherot como fotó­gra­fo mais impor­tan­te da arqui­te­tu­ra moder­na no Brasil e sua docu­men­ta­ção exaus­ti­va de diver­sos aspec­tos do ter­ri­tó­rio e da cul­tu­ra bra­si­lei­ra.

Com gran­de sen­si­bi­li­da­de e uma cons­ci­ên­cia for­mal extra­or­di­ná­ria, Marcel Gautherot cons­truiu um lega­do per­ma­nen­te para a cul­tu­ra bra­si­lei­ra e os laços cul­tu­rais entre Brasil e França, ampli­an­do tam­bém a com­pre­en­são da foto­gra­fia como lin­gua­gem iti­ne­ran­te e inter­na­ci­o­nal na cons­tru­ção da moder­ni­da­de e da con­tem­po­ra­nei­da­de. Marcel Gautherot – Brésil: Tradition, Invention fica em car­taz até 4 de setem­bro na con­cei­tu­a­da Maison Européenne de la Photographie.

Reisado
Maceió, Alagoas, 1952 (Marcel Gautherot/Acervo IMS)

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Museu de Arte Moderna, pro­je­to de Affonso Eduardo Reidy
Rio de Janeiro, c. 1970 (Marcel Gautherot/Acervo IMS)

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Lavagem do Bonfim
Salvador, c. 1957 (Marcel Gautherot/Acervo IMS)

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Edifício Copan
São Paulo, São Paulo, c. 1967 (Marcel Gautherot/Acervo IMS)

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Jangadeiros
Aquiraz, Ceará, c. 1949 (Marcel Gautherot/Acervo IMS)

Bumba meu boi
Curupuru, Maranhão, c. 1958 (Marcel Gautherot/Acervo IMS)

 

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Congresso Nacional
Brasília, Distrito Federal, c. 1960 (Marcel Gautherot/Acervo IMS)

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Procissão de Nosso Senhor dos Navegantes
Salvador, Bahia, c. 1950 (Marcel Gautherot/Acervo IMS)

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Funeral do enge­nhei­ro Bernardo Sayão
Brasília, Distrito Federal, 1959 (Marcel Gautherot/Acervo IMS)

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