Getúlio, Longwave e as armadilhas do filme histórico

No cinema

05.05.14

 

 

São mui­tas as arma­di­lhas que ron­dam o fil­me his­tó­ri­co. A prin­ci­pal delas é a de cair no dida­tis­mo de uma aula ilus­tra­da. Outras tan­tas são as cila­das da cine­bi­o­gra­fia de “gran­des vul­tos”. A mais comum: con­fun­dir-se com a hagi­o­gra­fia, fazer do bio­gra­fa­do um ser pre­des­ti­na­do, des­co­la­do do res­tan­te dos mor­tais, “mai­or que a vida”.

Ainda que seja uma nar­ra­ti­va efi­ci­en­te e agra­dá­vel, Getúlio, de João Jardim, não esca­pa com­ple­ta­men­te des­ses peri­gos. Talvez fos­se mais cor­re­to dizer: no afã de ser uma nar­ra­ti­va efi­ci­en­te e agra­dá­vel é que Getúlio incor­re neles.

https://www.youtube.com/watch?v=0yXqzVwfbhA&feature

Personagem-esfin­ge

Getúlio Vargas, como se sabe, é uma figu­ra imen­sa e con­tra­di­tó­ria, um des­ses per­so­na­gens-esfin­ges que desa­fi­am bió­gra­fos, his­to­ri­a­do­res e artis­tas. O prin­ci­pal acer­to dos rea­li­za­do­res de Getúlio foi res­trin­gir seu recor­te nar­ra­ti­vo aos últi­mos dias do pre­si­den­te (inter­pre­ta­do por­Tony Ramos), aque­les que vão do aten­ta­do con­tra seu prin­ci­pal ini­mi­go, Carlos Lacerda (Alexandre Borges), até o tiro com que Vargas saiu da vida para entrar na História. Dois tiros, por­tan­to, ser­vem como bali­zas tem­po­rais.

Mas, mes­mo den­tro des­se tem­po-espa­ço con­cen­tra­do — recur­so de que se ser­vi­ram des­de o Shakespeare de Julio Cesar até o Spielberg de Lincoln -, sobra­vam mui­tas linhas nar­ra­ti­vas ou focos de aten­ção pos­sí­veis: a inves­ti­ga­ção poli­ci­al do aten­ta­do con­tra Lacerda; as intri­gas polí­ti­cas que leva­ram ao iso­la­men­to do pre­si­den­te; os dile­mas morais e a tra­gé­dia ínti­ma de Getúlio; sua rela­ção com a famí­lia, em espe­ci­al com a filha Alzira (Drica Moraes); os even­tu­ais para­le­los sub­ter­râ­ne­os com o Brasil atu­al etc.

Sem con­se­guir — ou sem dese­jar — optar por nenhu­ma des­sas ver­ten­tes em detri­men­to das outras, o Getúlio de João Jardim aca­bou fican­do no meio do cami­nho, ou melhor, na super­fí­cie de cada uma delas. Nem é uma tra­gé­dia moral, um estu­do das pai­xões huma­nas como Julio Cesar, nem uma dis­cus­são do meca­nis­mo da real­po­li­tik como Lincoln, nem um thril­ler polí­ti­co à manei­ra dos fil­mes de Costa-Gavras, Elio Petri e Francesco Rosi, nem um melo­dra­ma fami­li­ar que fla­gras­se o “lado huma­no” do per­so­na­gem.

Realismo ou paró­dia

João Jardim e o rotei­ris­ta George Moura não tinham, evi­den­te­men­te, a obri­ga­ção de seguir nenhu­ma des­sas opções. Mas o que fica des­sa inde­fi­ni­ção, a meu ver, é uma nar­ra­ti­va com­pe­ten­te, mas sem subs­tân­cia, que aca­ba ten­do de ser infla­da por uma músi­ca bom­bás­ti­ca, uma mon­ta­gem cris­pa­da, um uso exa­cer­ba­do dos ruí­dos. Seu modo de ence­na­ção, con­ti­do pelas amar­ras da veros­si­mi­lhan­ça e da sobri­e­da­de de tom, aca­ba por lem­brar aque­las “recons­ti­tui­ções” de cri­mes que vemos nos noti­ciá­ri­os de tele­vi­são. À for­ça de bus­car o rea­lis­mo, acen­tua-se a arti­fi­ci­a­li­da­de, a impos­ta­ção.

O crí­ti­co Jean-Claude Bernardet cos­tu­ma dizer que só é pos­sí­vel tra­tar do perío­do da dita­du­ra mili­tar bra­si­lei­ra pela via da paró­dia — que pres­su­põe sem­pre uma refle­xão auto­crí­ti­ca sobre o pró­prio modo de nar­rar. Tendo a achar que isso vale, em algu­ma medi­da, para os fil­mes his­tó­ri­cos de modo geral. Sempre que se levam a sério demais, ou seja, sem­pre que pre­ten­dem fazer o espec­ta­dor acre­di­tar que “foi assim que as coi­sas acon­te­ce­ram”, soam tão fal­sos quan­to repre­sen­ta­ções tea­trais esco­la­res ou brin­ca­dei­ras de moci­nho e ban­di­do.

https://www.youtube.com/watch?v=LJLfw-oGwRw

Olhar oblí­quo

Um modo oblí­quo e autoirô­ni­co de abor­dar um fato his­tó­ri­co impor­tan­te foi a via esco­lhi­da pela comé­dia Longwave — Nas ondas da revo­lu­ção, do suí­ço Lionel Baier, para falar da Revolução dos Cravos que aca­bou com meio sécu­lo de dita­du­ra sala­za­ris­ta em Portugal.

Nessa copro­du­ção fran­co-suí­ço-por­tu­gue­sa, uma equi­pe de rádio suí­ça de lín­gua fran­ce­sa é envi­a­da a Portugal, em abril de 1974, para pro­du­zir maté­ri­as meio cha­pa-bran­ca sobre a aju­da suí­ça supos­ta­men­te for­ne­ci­da ao país nas áre­as de infra­es­tru­tu­ra, tec­no­lo­gia, edu­ca­ção etc.

Percorrendo o inte­ri­or por­tu­guês numa Kombi, com um equi­pa­men­to pre­cá­rio e sem falar a lín­gua, esse peque­no exér­ci­to Brancaleone é atro­pe­la­do pela revo­lu­ção e inte­ra­ge com ela das manei­ras mais impre­vis­tas e inu­si­ta­das.

As pas­sa­gens mais impa­gá­veis são aque­las em que o vete­ra­no radi­a­lis­ta Cauvin (Michel Vuillermoz) jul­ga estar falan­do por­tu­guês, idi­o­ma que ele conhe­ce de ore­lha­da.

Sem a pre­ten­são de ser uma obra-pri­ma ou de revo­lu­ci­o­nar o cine­ma, Longwave con­ta com um rotei­ro enge­nho­so que, em vez de ten­tar “recons­ti­tuir os fatos”, opta por cons­truir uma nar­ra­ti­va que alu­de à atmos­fe­ra daque­le momen­to his­tó­ri­co, em que entram a sur­pre­sa, a con­fu­são, a ale­gria, as pro­mes­sas de liber­da­de (inclu­si­ve sexu­al). Longe de qual­quer inten­ção didá­ti­ca — e mui­to menos pan­fle­tá­ria -, o fil­me é uma cele­bra­ção da vida e de suas infi­ni­tas pos­si­bi­li­da­des. Sempre que um ban­do de lou­cos acre­di­ta nis­so, não dá outra: é boni­ta a fes­ta, pá.

, ,