Godard, revolução permanente

No cinema

16.10.15

É pre­ci­so falar de Jean-Luc Godard. A par­tir da pró­xi­ma quar­ta-fei­ra (21 de outu­bro), até o final de novem­bro, as uni­da­des do Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo, Rio e Brasília – e depois tam­bém o CineSesc pau­lis­ta­no – abri­ga­rão a mais com­ple­ta retros­pec­ti­va da obra do dire­tor.

Não é pou­ca coi­sa. Godard é tal­vez o cine­as­ta mais impor­tan­te das últi­mas cin­co ou seis déca­das. Atenção: eu não dis­se “o melhor”, que é uma defi­ni­ção per­fei­ta­men­te sem sen­ti­do. O fato é que Godard é imen­so, múl­ti­plo, incon­tor­ná­vel. Ninguém – crí­ti­co, cine­as­ta ou espec­ta­dor – fica indi­fe­ren­te dian­te de seu cine­ma, para o bem ou para o mal. A mos­tra que che­ga ago­ra ao Brasil aju­da­rá a enten­der por quê.

Desde seus cur­tas do final dos anos 1950, épo­ca da eclo­são da Nouvelle Vague, o cine­ma de Godard tem sido uma refle­xão impla­cá­vel e per­ma­nen­te sobre o mun­do e sobre o pró­prio cine­ma. Um olhar que ques­ti­o­na as impos­tu­ras do poder – no sen­ti­do amplo, fou­caul­ti­a­no, que se esten­de a todas as rela­ções huma­nas – e as impos­tu­ras de sua repre­sen­ta­ção no cine­ma, no jor­na­lis­mo, na tele­vi­são, na publi­ci­da­de. Mas sobre­tu­do um olhar que ques­ti­o­na a si mes­mo, numa vol­ta a mais do para­fu­so.

Usina de sen­ti­dos

Inquieto e eru­di­to, cons­ci­en­te da for­tu­na lite­rá­ria, pic­tó­ri­ca, musi­cal e, evi­den­te­men­te, cine­ma­to­grá­fi­ca do mun­do, Godard joga em seus fil­mes com os sig­nos des­sa cul­tu­ra acu­mu­la­da e com­par­ti­lha­da. Um exem­plo sim­ples e elo­quen­te: ao levar às telas em 1963 o roman­ce O des­pre­zo, de Alberto Moravia, esca­lou Fritz Lang para o papel do vete­ra­no dire­tor que rea­li­za uma adap­ta­ção da Odisseia, e Brigitte Bardot como a volú­vel mulher do rotei­ris­ta. À his­tó­ria nar­ra­da ele acres­cen­ta­va ali toda a car­ga sim­bó­li­ca que Lang e Bardot tra­zi­am em si, seu lugar na his­tó­ria do cine­ma e da cul­tu­ra de mas­sas: o sig­no Lang, o sig­no Brigitte, tão impor­tan­tes quan­to o entre­cho e os diá­lo­gos, mul­ti­pli­can­do cama­das de sig­ni­fi­ca­ção.

Ao lon­go de sua fil­mo­gra­fia, Godard foi apro­fun­dan­do e radi­ca­li­zan­do esse pro­ce­di­men­to de sobre­po­si­ção de ele­men­tos para a pro­du­ção de novos sen­ti­dos. O uso da músi­ca, dos ruí­dos, as cita­ções lite­rá­ri­as e pic­tó­ri­cas, as brin­ca­dei­ras meta­lin­guís­ti­cas, tudo isso con­fi­gu­ra uma usi­na de sig­ni­fi­ca­dos, às vezes ape­nas suge­ri­dos ou intuí­dos, mas sem­pre ines­pe­ra­dos, pro­vo­ca­do­res, des­con­cer­tan­tes.

Uma pala­vra mui­to usa­da quan­do se fala de Godard é “des­cons­tru­ção”. De fato, pode-se ver sua obra como uma ope­ra­ção aná­lo­ga à de um Barthes no des­nu­da­men­to da lin­gua­gem e suas arma­di­lhas. Grosso modo, Tempo de guer­ra seria uma des­cons­tru­ção dos fil­mes de guer­ra, Alphaville uma des­mon­ta­gem da fic­ção cien­tí­fi­ca, A chi­ne­sa uma implo­são do dis­cur­so polí­ti­co revo­lu­ci­o­ná­rio, Je vous salue Marie uma radi­o­gra­fia do sen­ti­men­to do sagra­do e assim por dian­te.

Esse, sem dúvi­da, é um aspec­to impor­tan­te do tra­ba­lho do dire­tor. A cor­ro­são do cli­chê, a denún­cia do lugar-comum. Com frequên­cia esse ges­to adqui­re uma fran­ca comi­ci­da­de. Numa cena de Salve-se quem puder (1980), um per­so­na­gem é atro­pe­la­do por um auto­mó­vel e diz, dei­ta­do no asfal­to: “Acho que não estou mor­ren­do. Minha vida não pas­sou dian­te dos meus olhos”. À sáti­ra do cli­chê lite­rá­rio acres­cen­ta-se logo depois a do cli­chê cine­ma­to­grá­fi­co: ouvi­mos a músi­ca emo­ti­va na tri­lha sono­ra e vemos em segui­da uma orques­tra de cor­das tocan­do na pró­pria rua. A músi­ca sem­pre vem de algum lugar, as emo­ções são indu­zi­das, o sen­ti­men­to é uma cons­tru­ção, pare­ce nos dizer Godard, em seu sem­pre aler­ta ape­lo à razão.

Crítica e poe­sia

É só essa opção radi­cal pelo pen­sa­men­to crí­ti­co, essa rejei­ção sis­te­má­ti­ca do com­pro­mis­so e da mis­ti­fi­ca­ção, que jus­ti­fi­ca sua céle­bre fra­se: “O cine­ma é a ver­da­de 24 qua­dros por segun­do”. Brian DePalma reba­teu dizen­do que “o cine­ma é a men­ti­ra 24 qua­dros por segun­do” – e o fas­ci­nan­te é que ambos estão cer­tos.

É aqui que Godard se dis­tan­cia de seu ex-ami­go e com­pa­nhei­ro de trin­chei­ra Truffaut. Enquanto o cine­ma des­te foi se entre­gan­do cada vez mais à nar­ra­ti­va clás­si­ca e suas delí­ci­as, o de Godard foi radi­ca­li­zan­do sua recu­sa e sua denún­cia des­sa mes­ma nar­ra­ti­va, apro­fun­dan­do sua bus­ca de novas for­mas, de novos cur­tos-cir­cui­tos de sen­ti­dos.

Mas esse movi­men­to, diga­mos, nega­ti­vo, de renún­cia, recha­ço e crí­ti­ca, com­ple­ta-se com outra dimen­são às vezes negli­gen­ci­a­da da obra de Godard, que é a poe­sia, a reve­la­ção, a ilu­mi­na­ção, em fal­ta de pala­vra melhor. Do momen­to subli­me em que Nana (Anna Karina) cho­ra no cine­ma ao ver O mar­tí­rio de Joana d’Arc, em Viver a vida (1962), à ima­gem more­na de Nadège Beausson-Diagne, lím­pi­da e soli­tá­ria no con­vés do tran­sa­tlân­ti­co de Filme soci­a­lis­mo (2010), pas­san­do pela mor­te tra­gicô­mi­ca do pro­ta­go­nis­ta de Pierrot le fou (1965), as epi­fa­ni­as – fuga­zes, como toda epi­fa­nia – pro­li­fe­ram em seus fil­mes. É como se fos­se pre­ci­so denun­ci­ar toda a feiu­ra do mun­do para lim­par o olhar e habi­li­tá-lo a ver, por fim, a bele­za. “Aprendi com meu filho de dez anos/ que a poe­sia é a descoberta/ das coi­sas que eu nun­ca vi”, escre­veu Oswald de Andrade. Poderia, de cer­ta for­ma, ser o lema de Godard.

Às vés­pe­ras de com­ple­tar 85 anos, o artis­ta segue inqui­e­to, des­con­cer­tan­te e impre­vi­sí­vel. A atu­al retros­pec­ti­va per­mi­ti­rá cons­ta­tar a coe­rên­cia e a inte­gri­da­de por trás des­sa meta­mor­fo­se ambu­lan­te, des­sa revo­lu­ção per­ma­nen­te. Godard faz par­te da rara estir­pe de artis­tas que, em vez de se aco­mo­dar com o pas­sar dos anos, radi­ca­li­zou o dis­cur­so e afi­ou os ins­tru­men­tos. É, nes­se sen­ti­do, do time de Pasolini, Glauber, Buñuel, Tarkóvski, Sganzerla e uns pou­cos outros.

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