Gonzaga, melodrama popular

No cinema

02.11.12

Se o melo­dra­ma é, eti­mo­lo­gi­ca­men­te, dra­ma + músi­ca, esse é hoje o ter­ri­tó­rio indis­pu­ta­do de Breno Silveira. O êxi­to de seu pri­mei­ro lon­ga, Dois filhos de Francisco (2005), levou-o a insis­tir no filão dos melo­dra­mas que entre­la­çam músi­ca popu­lar e rela­ção pai-filho. Desse pris­ma, Gonzaga — De pai pra filho é qua­se um fil­me que esta­va pron­to, só espe­ran­do para ser fei­to pelo cine­as­ta.

As aci­den­ta­das bio­gra­fi­as de Gonzagão e Gonzaguinha, a espi­nho­sa rela­ção entre ambos (que come­ça na dúvi­da quan­to à pater­ni­da­de do segun­do), isso tudo emba­la­do por uma músi­ca de potên­cia e rique­za ines­go­tá­veis, o que mais se pode que­rer como fór­mu­la do suces­so?

Mas não é bem assim, cla­ro. Uma boa his­tó­ria e uma boa tri­lha sono­ra são meio cami­nho anda­do, mas há que ter sen­si­bi­li­da­de, enge­nho nar­ra­ti­vo e com­pe­tên­cia arte­sa­nal para fazer dis­so um fil­me belo, inte­res­san­te, ou pelo menos dig­no. E Breno Silveira, a meu ver, saiu-se bas­tan­te bem do desa­fio. Gonzaga é um fil­me que infor­ma, entre­tém e como­ve, e apa­ren­te­men­te suas pre­ten­sões se resu­mem a isso.

http://www.youtube.com/watch?v=63Na62E0LZk

O pri­mei­ro méri­to do cine­as­ta foi o de esca­par das arma­di­lhas mais comuns do gêne­ro da cine­bi­o­gra­fia, a saber: 1) a hagi­o­gra­fia, ou seja, a ten­dên­cia a aplai­nar as ares­tas do bio­gra­fa­do, apre­sen­tan­do-o como isen­to de falhas e con­tra­di­ções; 2) o dese­jo de dar con­ta de todos os fatos rele­van­tes da vida do per­so­na­gem, o que leva à dis­per­são, ao acú­mu­lo enfa­do­nho, à per­da de foco.

Diante de um uni­ver­so temá­ti­co tão amplo e vari­a­do, Silveira estru­tu­rou sua nar­ra­ti­va em dois eixos segu­ros: o da já men­ci­o­na­da rela­ção pai-filho, aqui des­do­bra­da em duas (Januário-Gonzaga, Gonzaga-Gonzaguinha), e o do triun­fo do artis­ta pre­to, pobre e ile­tra­do num con­tex­to sócio-cul­tu­ral adver­so.

Vários crí­ti­cos apon­ta­ram, com razão, duas fra­que­zas do fil­me, em ter­mos cine­ma­to­grá­fi­cos: o uso exces­si­vo da músi­ca (não a dos bio­gra­fa­dos, mas a com­pos­ta para enfa­ti­zar o dra­ma) e a apos­ta numa mise-en-scè­ne pou­co ousa­da, quan­do não anco­ra­da nos cli­chês do cine­ma publi­ci­tá­rio.

Mas os acer­tos supe­ram ampla­men­te essas defi­ci­ên­ci­as. A esco­lha e a dire­ção do elen­co é um deles. O san­fo­nei­ro Chambinho do Acordeon, que nun­ca tinha atu­a­do e que foi esco­lhi­do entre cen­te­nas de can­di­da­tos, reve­lou-se um ator de gran­de ener­gia e caris­ma. Ele encar­na Luiz Gonzaga na par­te cen­tral do fil­me (entre os 25 e os 50 anos). Julio Andrade, como o Gonzaguinha adul­to, tem uma atu­a­ção magis­tral, não tan­to por mime­ti­zar fisi­ca­men­te o com­po­si­tor, mas por trans­mi­tir no olhar, com inten­si­da­de extre­ma, ao mes­mo tem­po a fúria e a fra­gi­li­da­de do per­so­na­gem.

 

Alternância dra­má­ti­ca

Além da cons­tru­ção sagaz da nar­ra­ti­va, com suas idas e vin­das bem arti­cu­la­das, suas elip­ses pre­ci­sas, há momen­tos ins­pi­ra­dos de cons­tru­ção dra­má­ti­ca e cêni­ca, como o pla­no em que Gonzaga e sua pri­mei­ra mulher, Odaleia (Nanda Costa), can­ta­ro­lam “Légua tira­na”, uma das can­ções mais tris­tes que exis­tem, e ela come­ça a tos­sir e a cus­pir san­gue, no pri­mei­ro sinal da tuber­cu­lo­se que a mata­ria. Ou a cena em que Gonzaguinha sur­pre­en­de o pai com­pon­do “Assum pre­to” e desar­ma a dure­za do velho dizen­do “Bonita músi­ca”, ao que Gonzaga repli­ca, humil­de: “Acha que vai agra­dar à juven­tu­de?”. Ou ain­da o pla­no em que Gonzaguinha, depois de se desen­ten­der com o pai em Exu, apa­re­ce sen­ta­do com o vio­lão à bei­ra de um açu­de, arris­can­do as pri­mei­ras fra­ses da can­ção “Sangrando”, que ganha então um novo sen­ti­do, o de um reca­do deses­pe­ra­do ao pai.

Essa alter­nân­cia de posi­ções, com cada um dos per­so­na­gens apa­re­cen­do ora como o polo for­te, ora como o polo fra­co da rela­ção, é o que o fil­me tem de melhor — além da músi­ca de Luiz Gonzaga, cla­ro. Não por aca­so, nos três momen­tos cita­dos, há um diá­lo­go fecun­do entre a vida dos per­so­na­gens e sua arte.

A inser­ção de cenas docu­men­tais, fei­ta com des­tre­za e come­di­men­to, cau­sa um gran­de impac­to, sobre­tu­do no final, com o encon­tro de pai e filho no pal­co. Tudo bem, o dire­tor já havia fei­to isso em Dois filhos de Francisco, mas con­ve­nha­mos que o esto­fo da dupla, ago­ra, é infi­ni­ta­men­te supe­ri­or.

Por falar em cenas de arqui­vo, aqui vai uma pre­ci­o­si­da­de: Gonzaga pai e filho, os ver­da­dei­ros, dia­lo­gan­do e can­tan­do num pro­gra­ma da TV Cultura em 1972, no qual o rei do baião con­ta de viva voz his­tó­ri­as que estão no fil­me:

http://www.youtube.com/watch?v=VU3q6oFGfS0

, , ,