Graça ocasional

Literatura

16.12.14

Estou sen­ta­do num escri­tó­rio, cer­ca­do de cabe­ças e cor­pos”. Assim come­ça Graça infi­ni­ta, roman­ção de David Foster Wallace de 1.200 pági­nas recém lan­ça­do no Brasil, dezoi­to (sim, dezoi­to!) anos depois da publi­ca­ção ori­gi­nal. A manei­ra como se ini­cia um roman­ce é sem­pre impor­tan­te, e quan­do se tra­ta de um tijo­lão des­se tama­nho, conhe­ci­do por sua ver­bor­ra­gia abso­lu­ta e pelas notas de roda­pé que, des­sa vez, não estão no roda­pé, mas ao final, enfim, con­si­de­ran­do tudo isso, não dei­xa de ser esqui­si­to come­çar com essa fra­se sobre cabe­ças e cor­pos. Pois se há um adje­ti­vo que se ade­qua a Graça, este adje­ti­vo é “cere­bral”. E aí o Foster Wallace vai lá e come­ça falan­do de cor­pos.

Li Graça infi­ni­ta pela pri­mei­ra vez em 2006. O roman­ce me frus­trou por uma série de razões, e sen­ti como se ele não vales­se o esfor­ço, ape­sar de ter gos­ta­do de vári­as coi­sas aqui e ali. Agora, relen­do oito anos depois, des­cu­bro que o que antes me agra­dou se reve­lou o mai­or far­do na relei­tu­ra, e o que antes des­car­tei com um ges­to bla­sé, ago­ra é o que mais me inte­res­sou.

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Construiu-se um agru­pa­men­to de faná­ti­cos ao redor de Graça infi­ni­ta de tal manei­ra que há até uma Wikipédia pró­pria de Foster Wallace com aná­li­se de refe­rên­ci­as pági­na a pági­na. Não há uma nota de roda­pé, uma refe­rên­cia a um seri­a­do obs­cu­ro, que não tenha sido dis­cu­ti­da, inter­pre­ta­da, ana­li­sa­da até o limi­te. No perío­do de minha pri­mei­ra lei­tu­ra, ingres­sei no gru­po de dis­cus­são “wal­la­ce-l”, ape­nas para sair uma sema­na depois, sufo­ca­do por e-mails qui­lo­mé­tri­cos que em pou­cas sema­nas devem reu­nir o mes­mo núme­ro de carac­te­res que o livro. Wallace atrai esse tipo de lei­tor: uma figu­ra obses­si­va que não é capaz de jogar uma par­ti­da de tênis sem dese­nhar um grá­fi­co da inte­gral repre­sen­tan­do o movi­men­to da bola ama­re­li­nha. Não é por aca­so que aque­les que o leem com mais afin­co aca­bam se tor­nan­do segui­do­res.

A per­gun­ta: você, que não leu Graça infi­ni­ta, vai gos­tar de Graça infi­ni­ta? A res­pos­ta depen­de mui­to do quão obses­si­vo você é. Assim como Ulisses de Joyce, é um roman­ce que recom­pen­sa o seu inves­ti­men­to. Quanto mais você se dedi­ca à lei­tu­ra, quan­to mais você pes­qui­sa as refe­rên­ci­as que ele cons­tan­te­men­te joga em sua cara, menos você se sen­te per­di­do e mais imer­so na expe­ri­ên­cia fica. É um livro que exi­ge que você leia com o Google aber­to – e, como Ulisses, tam­bém traz um diá­lo­go inter­tex­tu­al com um clás­si­co da lite­ra­tu­ra (no caso do livro de Wallace, Hamlet).

Embora o livro seja ven­di­do como um roman­ce diver­ti­do (o que é, oca­si­o­nal­men­te) e ampla­men­te legí­vel, a ver­da­de é que é uma tare­fa dos dia­bos ler Graça infi­ni­ta. Para se ter uma ideia: o livro se pas­sa num futu­ro ima­gi­ná­rio no qual os anos do calen­dá­rio foram ven­di­dos para mega­cor­po­ra­ções, então em vez de 2009, por exem­plo, temos o “Ano da fral­da geriá­tri­ca Depend”. Até aí, tudo bem, uma ideia mui­to cri­a­ti­va e inte­res­san­te. Só que o lei­tor só des­co­bri­rá a ordem cro­no­ló­gi­ca dos anos na pági­na 230 da edi­ção bra­si­lei­ra! Até então, des­lo­ca-se à deri­va na não-line­a­ri­da­de bru­tal de Foster Wallace. E não há Ovomaltine quen­ti­nho para o lei­tor. Suportar as cen­te­nas de pági­nas ini­ci­ais é uma pro­va­ção. Os per­so­na­gens se mul­ti­pli­cam, as idas-e-vin­das no tem­po nem sem­pre são demar­ca­das, os acrô­ni­mos (algo que esta­va mui­to na moda nos anos 90 do mIRC e do BBS que Foster Wallace assi­mi­lou em sua fic­ção), as expli­ca­ções são exaus­ti­vas e ten­dem a des­cam­bar para um blá blá blá cien­tí­fi­co…

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Foster Wallace sem­pre apa­re­ce cita­do como uma espé­cie de segun­da leva de pós-moder­nis­tas, alguém pós-Pynchon, pós-Barthelme, pós-Barth, alguém, em resu­mo, pós-iro­nia. Graça infi­ni­ta, por sua vez, tor­nou-se o expo­en­te máxi­mo des­se tipo de fic­ção, que teria como com­pa­nhei­ro, tal­vez, Dave Eggers. E, ape­sar de Wallace ser lido como uma for­ma de “supe­ra­ção de Pynchon”, a dívi­da de Graça infi­ni­ta em rela­ção a O arco-íris da gra­vi­da­de é imen­sa – em uma das sub­tra­mas, há per­so­na­gens que são agen­tes duplos-duplos e uma gran­de cons­pi­ra­ção malu­ca que bei­ra a incom­pre­en­si­bi­li­da­de, pois é difí­cil enten­der quem está de qual lado. E, no entan­to, Wallace pare­ce bus­car algo além do jogo des­nor­te­an­te da para­nóia, e ten­ta dar uma tri­di­men­si­o­na­li­da­de aos per­so­na­gens mais secun­dá­ri­os — ou seja, fazer um livro reple­to de gen­te com “cabe­ças e cor­pos”. Ler Graça infi­ni­ta, por­tan­to, é um tan­to obri­ga­tó­rio para com­pre­en­der boa par­te do que tem sido pro­du­zi­do de mais ino­va­dor na lite­ra­tu­ra oci­den­tal e de que manei­ra a nova fic­ção pode res­pon­der à obra da gera­ção ante­ri­or.

O autor e sua icônica bandana

Na pri­mei­ra lei­tu­ra, foram jus­ta­men­te os tru­ques for­mais que me encan­ta­ram: a ideia de que as notas de fim de livro não são des­pre­zí­veis, mas car­re­gam infor­ma­ções fun­da­men­tais à tra­ma. Que as notas tam­bém têm notas den­tro delas, ou seja, não só são comen­tá­ri­os como com­por­tam meta­co­men­tá­ri­os. Os tru­ques, no entan­to, como qual­quer pia­da que dura tem­po demais, aca­bam viran­do can­sa­ti­vos. As inter­rup­ções das notas — que nas pri­mei­ras cen­te­nas de pági­nas são engra­ça­di­nhas — logo viram que­bras de flu­xo irri­tan­tes.

OK, OK, tudo tem um pro­pó­si­to, cla­ro que Foster Wallace pen­sou nis­so tudo ao escre­ver o livro des­sa for­ma. “A pes­soa depri­mi­da”, um dos con­tos mais conhe­ci­dos do autor, tem uma mulher con­tan­do seus dra­mas ao pas­so que a pági­na vai sen­do engo­li­da aos pou­cos por notas de roda­pé reple­tas de jar­gão psi­ca­na­lí­ti­co. É qua­se um con­to con­cei­tu­al e, mais uma vez, a ideia é inte­li­gen­tís­si­ma. Mas, poxa vida, que his­tó­ria cha­ta de se ler. Graça infi­ni­ta está cheio de esper­te­zas con­cei­tu­ais, como as expli­ca­ções mate­má­ti­cas para as coi­sas mais banais. Mas céus, senhor Wallace, na pági­na 460 real­men­te pre­ci­sa­va expli­car o fun­ci­o­na­men­to de cada qua­dra da aca­de­mia de tênis na qual o roman­ce se pas­sa des­de a pri­mei­ra linha?

O roman­ce tem como tema cen­tral a ques­tão do entre­te­ni­men­to e a obses­são nor­te-ame­ri­ca­na por se vici­ar em qual­quer coi­sa, seja uma dro­ga alu­ci­nó­ge­na, um espor­te ou um pro­gra­ma de tele­vi­são. Wallace, ape­sar de sem­pre for­rar seus livros de refe­rên­ci­as pop, reve­lou-se um crí­ti­co seve­ro à cul­tu­ra do entre­te­ni­men­to. O her­me­tis­mo de Graça infi­ni­ta pode ser lido, então, como um mala­ba­ris­mo for­mal de entre­ter o lei­tor (com ane­do­tas diver­ti­das espa­lha­das pelas 1.200 pági­nas) e, ao mes­mo tem­po, exi­gir mui­to dele, deman­dar pes­qui­sa, ano­ta­ções (reco­men­do mui­to ler com um cader­ni­nho ao lado) e o esfor­ço de cons­tan­te­men­te retor­nar algu­mas pági­nas para encai­xar algu­mas peças do que­bra-cabe­ça.

Foster Wallace é um escri­tor bri­lhan­te; nos ensai­os, o seu talen­to está depu­ra­do, o seu esti­lo mais refi­na­do, as suas idei­as mais lím­pi­das. Pergunto-me o quan­to da fama de Graça infi­ni­ta não exis­te pelo fato de que o roman­ce mais lon­go de um autor sem­pre cos­tu­ma ser con­si­de­ra­do a sua obra-pri­ma.

Outro fator na ques­tão “legi­bi­li­da­de” é como Graça infi­ni­ta está imer­so na cul­tu­ra nor­te-ame­ri­ca­na. O êxi­to do livro fora dos Estados Unidos é pro­va de como, devi­do ao poder geo­po­lí­ti­co, mui­tos aspec­tos da cul­tu­ra ame­ri­ca­na soam como “uni­ver­sais”, de tão difun­di­dos. E, no entan­to, gra­ças ao seu apre­ço pela cul­tu­ra de mas­sas para além do óbvio, Wallace enche o roman­ce de refe­rên­ci­as que se per­de­rão para a mai­o­ria de lei­to­res bra­si­lei­ros. A tra­du­ção de Caetano Galindo para a esta edi­ção é cora­jo­sa e mui­to bem suce­di­da, espe­ci­al­men­te nas par­tes de diá­lo­gos, no ouvi­do para o colo­qui­a­lis­mo e para os sota­ques. Não con­si­go ima­gi­nar uma tra­du­ção melhor. Apesar dis­so, há diver­sos tre­chos que “soam como inglês”, pois Wallace é tão, tão, tão ame­ri­ca­no, que não há recur­so tra­du­tó­rio efi­caz o bas­tan­te para tra­du­zir cul­tu­ral­men­te o modo de escre­ver do autor. (Manter essa “ame­ri­ca­ni­da­de” em cer­tos tre­chos pode mui­to bem ter sido uma esco­lha pen­sa­da do tra­du­tor.)

Portanto, para o lei­tor que enca­ra­rá Graça infi­ni­ta pela pri­mei­ra vez, pode-se dizer que o suces­so de sua lei­tu­ra depen­de­rá de a) a paci­ên­cia do lei­tor; b) a dis­po­si­ção do lei­tor em inter­rom­per a lei­tu­ra para pes­qui­sar; c) o quan­to ele se inte­res­sa por cul­tu­ra nor­te-ame­ri­ca­na.

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Embora este­ja dan­do a impres­são de que detes­tei Graça infi­ni­ta, nes­ta relei­tu­ra pres­tei aten­ção no que tor­na Foster Wallace real­men­te úni­co, e se há algo que faz o livro valer a pena, não são todos os jogos for­mais, mas os seus momen­tos mais huma­nos. Em seus melho­res con­tos, como as “bre­ves entre­vis­tas” de Breves entre­vis­tas com homens hedi­on­dos, e “Good Old Neon”, nos depa­ra­mos com per­so­na­gens com lou­cu­ras mui­to pró­pri­as, mui­to par­ti­cu­la­res, mui­to cho­can­tes para o olhar do outro, e, ain­da assim, figu­ras que nos des­per­tam com­pai­xão e empa­tia. Nos seus ensai­os, Wallace dei­xa cla­ro o seu obje­ti­vo na fic­ção – o de sair do solip­sis­mo e olhar o outro (o dis­cur­so “This is Water” é o exem­plo mais óbvio). É ape­nas isso que nos impe­di­rá de ter uma vida hor­rí­vel, diz Wallace com todas as letras. E esta ques­tão da inco­mu­ni­ca­bi­li­da­de está pre­sen­te em Graça infi­ni­ta des­de o pri­mei­ro capí­tu­lo, com a cena de Hal engas­ga­do, ten­tan­do se expres­sar e falhan­do hor­ri­vel­men­te (e cons­tran­ge­do­ra­men­te).

No meio de des­cri­ções exten­sas e monó­to­nas, Graça infi­ni­ta ofe­re­ce uma série de belos momen­tos, como a con­ver­sa de Hal com Orin sobre o sui­cí­dio do pai, e a his­tó­ria do tenis­ta que joga­va só com uma mão pois na outra segu­ra­va uma Glock 17 apon­ta­da con­tra a cabe­ça, sem­pre ame­a­çan­do sui­ci­dar-se caso per­des­se a par­ti­da. Não é à toa que este roman­ce tão cere­bral come­ce com “cabe­ças e cor­pos”, como se nos­sa for­ma físi­ca ocul­tas­se um sis­te­ma men­tal com­ple­xo e qua­se impos­sí­vel de comu­ni­car a outra pes­soa. Wallace é movi­do pelo dese­jo de comu­ni­ca­ção de algo pro­fun­do e inal­can­çá­vel, e está dis­pos­to a usar quan­tas pági­nas forem neces­sá­ri­as para isso.

O pri­mei­rís­si­mo capí­tu­lo do livro é uma espé­cie de in media res no qual Hal, o pro­ta­go­nis­ta, supos­ta­men­te con­ta­rá o que acon­te­ceu. Esse recur­so é conhe­ci­do como “fra­ming devi­ce”, uma mol­du­ra nar­ra­ti­va, como quan­do o jor­na­lis­ta em Cidadão Kane pre­ci­sa inves­ti­gar o que é Rosebud e aí o espec­ta­dor pode­rá conhe­cer a his­tó­ria. Cidadão Kane é todo mon­ta­do em cima de flash­backs con­tan­do tre­chos da vida do per­so­na­gem títu­lo. Ao final, o jor­na­lis­ta dis­cur­sa que a vida de qual­quer homem é como um que­bra-cabe­ça, que é impos­sí­vel resu­mi-la, que Kane é como um que­bra-cabe­ça que está falan­do uma peça. Graça infi­ni­ta tem uma estru­tu­ra com algu­mas seme­lhan­ças: há esse “fra­ming devi­ce” ini­ci­al (e frus­tra­do, devi­do à inco­mu­ni­ca­bi­li­da­de men­ci­o­na­da aci­ma), mas, den­tro do roman­ce, mais his­tó­ri­as se abrem, mais his­tó­ri­as-den­tro-de-his­tó­ri­as sur­gem, e o livro se tor­na qua­se uma máqui­na bem azei­ta­da de nar­rar. As cenas se pro­li­fe­ram, e mui­tas vezes não acres­cen­tam, não pare­cem somar em dire­ção a um sig­ni­fi­ca­do final. Embora os fãs ardo­ro­sos dis­cor­dem e digam que tudo está conec­ta­do, a sen­sa­ção é que o livro não se fecha de modo algum, que pode­ria seguir por mais mil pági­nas (afi­nal, novos per­so­na­gens são apre­sen­ta­dos o tem­po todo), que lemos um que­bra-cabe­ça de dois milhões de peças ao qual só tive­mos aces­so a mil e duzen­tas des­sas peças, nem sem­pre bem esco­lhi­das. Há algu­mas peças lin­das, com dese­nhos fei­tos à mão de gran­de esme­ro, e há outras que são como as peças que com­põem um céu azul e sem nuvens num que­bra-cabe­ças, que nun­ca sabe­mos onde colo­car e que pelo amor de deus, são tão cha­tas de mon­tar que a von­ta­de é de jogar todo o que­bra-cabe­ças lon­ge.

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