Graciliano Ramos e Nise da Silveira em Memórias do cárcere

Por dentro do acervo

08.07.13
Nise da Silveira quando jovem
Nise da Silveira 

Os dois são ala­go­a­nos e não se conhe­ci­am até que a polí­cia do gover­no Getúlio Vargas  levou-os  a serem vizi­nhos no Complexo Presidiário Frei Caneca: Nise da Silveira na Sala 4, o cár­ce­re femi­ni­no das pre­sas polí­ti­cas, que divi­diu com Olga Prestes e outras, e Graciliano Ramos, que esta­va pre­so no Pavilhão dos Primários.

A comu­ni­ca­ção clan­des­ti­na entre os dois ambi­en­tes se fazia por meio da “poro­ro­ca”, nome que a escri­to­ra capi­xa­ba Haydée Nicolussi, uma das pre­sas, deu à baru­lhen­ta des­car­ga do banhei­ro da Sala 4. Como a pare­de do banhei­ro fazia divi­são com o Pavilhão, as pre­sas cava­ram um bura­qui­nho bem ao lado da “poro­ro­ca”, cri­an­do assim uma for­ma de se comu­ni­car com os vizi­nhos.

Mas o encon­tro entre Graciliano Ramos e Nise da Silveira não teve qual­quer cará­ter de impro­vi­so. Ao con­trá­rio, tomou um cará­ter até sole­ne. Verdade que a pre­sen­ça dela na Sala 4 deve ter che­ga­do aos ouvi­dos do escri­tor pela “poro­ro­ca”, mas reves­tiu-se de uma cer­ta gra­vi­da­de no modo como ele des­cre­ve o momen­to em que se apre­sen­tam um ao outro, em como­ven­te pági­na de Memórias do cár­ce­re.

Numa pas­sa­da lar­ga, atin­gi o vão da jane­la: agar­rei-me aos varões de fer­ro, olhei o exte­ri­or, zon­zo, sem per­ce­ber direi­to por que me acha­va ali. Uma voz che­gou-me, fra­ca, mas no pri­mei­ro ins­tan­te não ati­nei com a pes­soa que fala­va. Enxerguei o pátio, o ves­tí­bu­lo, a esca­da já vis­ta no dia ante­ri­or. No pata­mar, abai­xo de meu obser­va­tó­rio, uma cor­ti­na de lona ocul­ta­va a Praça Vermelha. Junto, à direi­ta, além de uma gra­de lar­ga, dis­tin­gui afi­nal uma senho­ra páli­da e magra, de olhos fixos, arre­ga­la­dos. O ros­to moço reve­la­va fadi­ga, aos cabe­los negros mis­tu­ra­vam-se alguns fios gri­sa­lhos. Referiu-se a Maceió, apre­sen­tou-se:

- Nise da Silveira.

Noutro lugar o encon­tro me daria pra­zer. O que sen­ti foi sur­pre­sa, lamen­tei ver a minha con­ter­râ­nea fora do mun­do, lon­ge da pro­fis­são, do hos­pi­tal, dos seus que­ri­dos lou­cos. Sabia-a cul­ta e boa, Rachel de Queiroz me afir­ma­ra a gran­de­za moral daque­la pes­soi­nha tími­da, sem­pre a esqui­var-se, a redu­zir-se, como a escu­sar-se de tomar espa­ço. Nunca me havia apa­re­ci­do cri­a­tu­ra mais sim­pá­ti­ca. O mari­do, tam­bém médi­co, era o meu velho conhe­ci­do Mário  Magalhães. Pedi notí­ci­as dele: esta­va em liber­da­de. E calei-me, em vivo cons­tran­gi­men­to.

De pija­ma, sem sapa­tos, segu­ro à ver­ga pre­ta, achei-me ridí­cu­lo e vazio; cer­ta­men­te cau­sa­va impres­são mui­to infe­liz. Nise, aca­nha­da, tinha um sor­ri­so doce, fita­va-me os buga­lhos enor­mes, e isto me agra­va­va a per­tur­ba­ção, mag­ne­ti­za­va-me. Balbuciou impre­ci­sões, guar­dou silên­cio, pro­va­vel­men­te se arre­pen­deu de me haver con­vi­da­do para dei­xar-me assim con­fu­so.

Não foi exa­ge­ro do autor de Memórias quan­do dis­se a Homero Senna: “Em qual­quer lugar estou bem. Dei-me bem na cadeia… Tenho até sau­da­des da Colônia Correcional. Deixei lá bons ami­gos”. Era ver­da­de. Nise da Silveira me con­tou, numa das nos­sas deli­ci­o­sas con­ver­sas, que ele anda­va com seus chi­ne­los arras­tan­do pelos cor­re­do­res em abso­lu­ta tran­qui­li­da­de. Não tinha qual­quer pres­sa em sair dali, dife­ren­te­men­te dela, que na noi­te de São João de 1936, quan­do foi liber­ta­da, depois de um ano e seis meses de pri­são, iden­ti­fi­ca­va-se com os balões que via no céu, livres.

Elvia Bezerra é coor­de­na­do­ra de lite­ra­tu­ra do IMS.