Grande sertão: veredas sessentão

Literatura

18.07.16

Costumo dizer que só tenho um modo de ler Guimarães Rosa: com a gar­gan­ta fecha­da, ven­cen­do a emo­ção a cada linha. Ou não ven­cen­do.

Foi o que, há mui­tos anos, eu dis­se a Lya Cavalcanti (1907–1998), jor­na­lis­ta e gran­de ami­ga do escri­tor, para quem ele fazia ques­tão de ler tudo o que escre­via antes de publi­car. Foi assim que duran­te qua­tro horas segui­das, de Cordisburgo, sua cida­de natal, e por tele­fo­ne, Rosa, como Lya o cha­ma­va, leu para ela todo o “Campo geral”, nove­la que inte­gra Corpo de bai­le, lan­ça­do em 1956.

A lei­tu­ra só era inter­rom­pi­da quan­do Guimarães Rosa pedia para resol­ver o ina­diá­vel, oca­sião em que Lya apro­vei­ta­va para fazer o mes­mo, e comer uma fru­ta. Nesse mes­mo ano foi publi­ca­do Grande ser­tão: vere­das, que o gru­po do Clube de Leitura do IMS leu em junho, sob ori­en­ta­ção do pro­fes­sor Eduardo Coutinho.

Na sua apre­sen­ta­ção, repro­du­zi­da abai­xo dos arqui­vos da Rádio Batuta, o pro­fes­sor res­sal­ta a trí­pli­ce tra­ves­sia que se per­cor­re no livro:  a tra­ves­sia físi­co-geo­grá­fi­ca; a exis­ten­ci­al, que se rea­li­za por meio da vin­gan­ça de Hermógenes, assas­si­no de Joca Ramiro, e a tra­ves­sia da lin­gua­gem.

Forte coi­sa e com­pri­da demais seria ten­tar fazer crer como foi dita­do, sus­ten­ta­do e pro­te­gi­do – por for­ças ou cor­ren­tes mui­to estra­nhas” –  assim resu­miu Guimarães Rosa o pro­ces­so cri­a­ti­vo des­sa obra-pri­ma da lite­ra­tu­ra bra­si­lei­ra que este ano com­ple­ta ses­sen­ta anos de publi­ca­ção.

Foram jus­ta­men­te essas “for­ças ou cor­ren­tes mui­to estra­nhas”, assun­to espe­ci­al­men­te do gos­to de Lya Cavalcanti, que, de iní­cio, liga­ram os dois ami­gos. Conheceram-se duran­te a Segunda Guerra Mundial, quan­do ela era jor­na­lis­ta cor­res­pon­den­te na BBC em Londres, trans­mi­tin­do para o Brasil. Naquela épo­ca, Guimarães Rosa, diplo­ma­ta, ser­via em Bruxelas e, cer­ta vez, este­ve em Londres, oca­sião em que foram apre­sen­ta­dos um ao outro. A cum­pli­ci­da­de esta­be­le­ceu-se de ime­di­a­to. Conversas a res­pei­to do sobre­na­tu­ral se esten­di­am noi­te aden­tro até que, de vol­ta ao Brasil, Lya se con­ver­te­ria em uma das lei­to­ras essen­ci­ais do escri­tor.

Ao ler Grande ser­tão: vere­das, ela pôde enten­der por que o ami­go lhe con­fi­den­ci­a­ra que, enquan­to tra­ba­lha­va no livro, tinha a sen­sa­ção de “repre­sar os oce­a­nos”. Ou de comer o Pão de Açúcar a colhe­ra­das – dizia ele.  Com a metá­fo­ra expres­sa­ra a urgên­cia de con­tar a his­tó­ria de Riobaldo, jagun­ço que, ao rela­tar fatos da juven­tu­de, quan­do lutou para vin­gar a mor­te de Joca Ramiro, ten­ta enten­der a sua pró­pria tra­je­tó­ria, tra­zen­do o lei­tor para o cen­tro das gran­des ques­tões exis­ten­ci­ais.

, ,