Grêmio Recreativo Desiludidos do Amor

Correspondência

07.02.13

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Prezado Xico,

Se a tris­te­za é senho­ra, como você me faz crer em sua últi­ma e pun­gen­te mis­si­va, man­da essa siri­gai­ta com todos os seus tons de cin­za ir ali na esqui­na da praia. Que vá  roçar nas ostras, catar coqui­nho e pro­cu­rar tatuí na areia.

É car­na­val, meu fre­vo­len­te folião per­nam­bu­ca­no.

É aque­le inter­reg­no fun­da­men­tal no calen­dá­rio de noso­tros, eu, você, nós dois, os últi­mos român­ti­cos de Pindorama. São três dias de folia em que não exis­te amor em São Paulo, Salvador, no Rio ou nem mes­mo naque­le car­na­val de más­ca­ras sorum­bá­ti­cas de Veneza. É o bicho quem pega, Cupido já era.

Larga de ser bobo, meu nego, sai do chão e vem comi­go no blo­co que inte­res­sa. É a fes­ta das car­nes. O Grêmio Recreativo Desiludidos do Amor saú­da a impren­sa fala­da, escri­ta e tele­vi­sa­da e dei­xa de apre­sen­tar o enre­do “Amar é foda, e nós, fodi­dos e mal pagos, damos gra­ças a Deus”.

É hora de ves­tir a cami­sa lis­tra­da, dei­xar esse com­pu­ta­dor com a bate­ria arri­a­da e sair por aí. Ligar a tecla F. Fui. Hoje não tem Lupicínio, Adelino ou qual­quer  tro­va­dor tris­te que emba­la o ber­ço do sofri­men­to naci­o­nal e nos colo­ca, sema­na um, sema­na outro, cho­ran­do em públi­co as pitan­gas das gos­to­sas que seguem o des­ti­no da lua, botam o pé na rua e se vão sem mais.

Hoje o que tem no car­dá­pio des­tas mal tra­ça­das é a orgia, a vol­ta do “meu more­no fez boba­gem”, a gan­daia, o levan­ta a saia. Meu GPS lê o cami­nho que indi­ca o bafo da onça. É nes­sa onda que eu vou, adven­tis­ta fiel que sou, uma vez por ano, da lei escri­ta nos estan­dar­tes dos blo­cos do Rio.

Hoje, meu rei do mara­ca­tu e de todas as suas ine­vi­tá­veis rimas car­na­va­les­cas, hoje não tem Paulo Mendes Campos. Ninguém aqui vai pla­gi­ar “O amor aca­ba”. Hoje eu vou sair de Buda, e espe­ro encon­trar outras lá no “Xupa, mas não baba”, no “Enxota que eu vou”, no “Cutucano atrás”. É tudo que eu tenho a decla­rar de român­ti­co. É como a minha lín­gua roça hoje a lín­gua do Camões. Se me sobrar fôle­go, se a mula­ta que eu vou pen­du­rar no pes­co­ço esti­ver com o peso cer­to que nós com­bi­na­mos de ela ter, eu vou brin­car tam­bém no “Perereca sem dono” e no “Só o cume inte­res­sa”.

Hoje, se você me per­gun­tar pelo tex­to mais boni­to da líri­ca naci­o­nal, eu decla­ma­ria con­tri­to a mar­chi­nha do Orlando Silva, aque­la que diz “O que que há com a sua bara­ti­nha, que não quer fun­ci­o­nar, bota esse motor em movi­men­to, filhi­nha, e vamos pas­se­ar”.

Os idi­o­tas da obje­ti­vi­da­de vão argu­men­tar com o Amor de Carnaval, essa qui­me­ra idi­os­sin­crá­ti­ca de colom­bi­nas que tan­tas lágri­mas cus­ta­ram aos pier­rôs que nos ante­pas­sa­ram. Eu vou res­pon­der que amor é sem apos­to. Amor é, se bas­ta, e pon­to. Cabe nele toda a ima­gi­na­ção que se colo­car entre as per­nas do “m”, os “bura­cos” do “o”, os rugi­dos do “r” e o come­ço do imen­so voca­bu­lá­rio do dese­jo que o “a” intro­duz.

Com “a” eu escre­ve­ria azul, mais exa­ta­men­te cal­ci­nha azul, e adi­an­te expli­co o moti­vo. Antes eu que­ro dizer que foi como­ven­te, meu bom Xico, você ter se lem­bra­do des­te pobre escri­ba como tes­te­mu­nha daque­la cena, seu fim de caso na cal­ça­da da sor­ve­te­ria no Jardim Botânico.

Nós somos uns ser­ta­ne­jos da alma. Por mais que ouça­mos, por mais que elas batam a por­ta e cus­pam a pala­vra mal­di­ta, nun­ca apren­de­mos a dizer adeus. Dói, e lá esta­va você na sor­ve­te­ria, lam­ben­do o sor­ve­te frio de mais uma sepa­ra­ção.

Era o seu últi­mo bei­jo, aque­le que eu pre­sen­ci­ei na por­ta da sor­ve­te­ria, e ele devia estar rega­do com aci­dez nor­des­ti­na do tape­re­bá. Eu vi a cena ao lar­go, não sabia da des­di­ta. Eu não sabia que o amor tam­bém aca­ba­va numa sor­ve­te­ria de mil fru­tas num can­to des­co­la­do do Rio, pal­mei­ras impe­ri­ais ao fun­do. Peço-te des­cul­pas tar­di­as se lá esta­va eu pas­san­do ao lado, todo sere­le­pe, atra­ca­do na aven­tu­ra de um novo amor, lam­ben­do a sua­vi­da­de român­ti­ca de um mara­cu­já com cho­co­la­te bran­co.

Mas, ter­gi­ver­so, meu cama­ra­da.

O azul a que me refe­ria veio antes. Era o tom Parker King de uma cal­ci­nha ado­ra­vel­men­te azul. Você e a sua lin­dís­si­ma moça, esta mes­ma do pará­gra­fo ante­ri­or, do fim do roman­ce na sor­ve­te­ria, come­ça­vam um ousa­do jogo amo­ro­so. Ela usa­va uma.

Foi assim.

Você esta­va lan­çan­do um livro no Leblon, na peque­na livra­ria da Dias Ferreira que tam­bém já não exis­te mais. Foi no já dis­tan­te ano de 2006. Foi quan­do eu vi a cal­ci­nha.

Enquanto eu te abra­ça­va na por­ta da livra­ria, meus olhos se esbu­ga­lha­ram com a cena de que nos fun­dos da loja havia uma moça more­na, ela esta­va de cóco­ras ava­li­an­do os livros de uma estan­te, o cós era bai­xo, o for­ma­to cali­pí­gio de sua alma more­na era lin­do, e ela dei­xa­va visí­vel a toni­tru­an­te cal­ci­nha azul que até hoje ribom­ba em meu espec­tro óti­co.

Nunca te dis­se, mas como resol­ve­mos expor em públi­co tudo que nos vai de inqui­e­ta­ção, can­tar nos­sos sam­bas-can­ções da desa­fi­na­ção amo­ro­sa em for­ma de car­ta na fren­te de todo mun­do, eu vou dizer ago­ra. Aquela cena me pro­vo­cou uma inve­ji­nha  bran­ca (eu nun­ca tinha tido a apa­ri­ção de uma cal­ci­nha azul) e ins­pi­rou uma crô­ni­ca.

Eu fiz o de sem­pre no tex­to. Misturei alhos com buga­lhos, na cer­te­za de que tudo que se nos pas­sa na reti­na, se bem vir­gu­la­do, uns ver­bos exó­ti­cos, umas pala­vras anti­gas ser­vin­do de arga­mas­sa, tudo um dia aca­ba impres­so no jor­nal. Me apro­vei­tei da visão da sua bela namo­ra­da e, mais uma vez evo­can­do Rubem Braga, per­pe­trei um arra­zo­a­do melan­có­li­co sobre o duro ofí­cio de escre­ver crô­ni­cas.

Um tre­cho de “O mis­té­rio da cal­ci­nha azul”:

Eu pode­ria fin­gir que acho nor­mal. Poderia colar um ar bla­sé no ros­to e seguir em fren­te. Mas, infe­liz­men­te, não sou jovem o sufi­ci­en­te para pas­sar a impres­são de que já vi tudo nes­sa vida. Acho que Braga faria o mes­mo e estam­pa­ria o fato, o enig­ma da cal­ci­nha azul, aos inte­res­sa­dos em deba­ter o que seria a crô­ni­ca cari­o­ca, de onde sur­gem os assun­tos. Imagino que ele des­cre­ve­ria a cena com o mes­mo deli­ca­do estu­por admi­ra­ti­vo que usou em um de seus clás­si­cos, ao ver na praia a recém viú­va em biquí­ni.”

Tá me enten­den­do, Xico?

Eu vi a cal­ci­nha que ban­dei­ra­va o come­ço do seu namo­ro, quan­do é tudo azul, todo mun­do nu, e depois vi na sor­ve­te­ria os ócu­los escu­ros da cena final, quan­do tudo é luto, o mun­do caiu, e só exis­te o ver­bo cego das bocas can­sa­das. Enfim, meu caro, eu vi o iní­cio, o fim e tam­bém o meio, quan­do você teceu em públi­co, em tex­tos clás­si­cos nos jor­nais, as loas de macho orgu­lho­so pelo amor des­sa bela leoa.

Definitivamente, isso foi há mui­to tem­po. Deve ter sido por esta épo­ca que o tal hotel atrás da Central do Brasil, estre­la de sua últi­ma car­ta, ganhou o nome de Batuta.

(O hotel se cha­ma­va Nova Central. Uma tar­de, de algum daque­les quar­tos, uma mulher gri­ta­va furi­o­sos “batu­ta, batu­ta”, com a ênfa­se indis­far­çá­vel de que aplau­dia aos ber­ros a efi­ci­ên­cia de um aman­te da nobre arte. No dia seguin­te, reza a len­da, o pro­pri­e­tá­rio do esta­be­le­ci­men­to deu entra­da na Secretaria de Urbanismo com o pedi­do de um novo nome para a casa, e lá está ele até hoje, pis­can­do, bru­xu­le­an­te, Hotel Batuta, em home­na­gem àque­le herói de quem a his­tó­ria não regis­trou o nome.)

Enfim, meu gran­de batu­ta român­ti­co, eu só estou te con­tan­do tal por­que é feve­rei­ro. Tempo de esque­cer os bei­jos idos, os amo­res sofri­dos, e hora de cair de boca nes­sa ale­gria fugaz, nes­sa ofe­gan­te epi­de­mia que se cha­ma car­na­val. Tudo vai pas­sar. Olha que vida boa ole­rê, olha lá a ala das novas cal­ci­nhas azuis, outra ala intei­ra de gos­to­sas-ain­da-mais do que aque­la que na últi­ma car­ta bateu a por­ta e foi embo­ra. Melhores dias verão. É hora de bater fun­do no bum­bo, aten­der o con­vi­te do “Me bei­ja que eu sou cine­as­ta”, do “Vem ni mim que eu sou faci­nha”, e sair can­tan­do a mar­cha do Carequinha, aque­la do “Avança, minha gen­te, que a pipo­ca tá quen­ti­nha”.

É isso, gran­de Xico. Desculpe se hoje pre­fi­ro a pân­de­ga e fujo do nos­so tema. Cartas de amor são ridí­cu­las, todos sabe­mos e cur­ti­mos. Em tem­pos de car­na­val, elas soa­ri­am imo­rais.

Evoé e aque­le abra­ço.

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