Haja hoje para tanto ontem

No cinema

19.04.13

César Troncoso e Denise Fraga em "Hoje", de Tata Amaral

Há um ges­to de afir­ma­ção e desa­fio na ado­ção do títu­lo Hoje para um fil­me de fic­ção em tor­no da dita­du­ra mili­tar bra­si­lei­ra. É, de res­to, um títu­lo ambi­va­len­te para uma obra cen­tra­da numa per­so­na­gem ator­men­ta­da por fan­tas­mas do pas­sa­do.

É nes­se tem­po híbri­do, fei­to da inter­pe­ne­tra­ção entre o pas­sa­do e o pre­sen­te, que se desen­vol­ve o pode­ro­so e deli­ca­do lon­ga-metra­gem de Tata Amaral, ain­da que sua ação se con­cen­tre num úni­co dia, aque­le em que a ex-guer­ri­lhei­ra Vera (Denise Fraga) muda de apar­ta­men­to com o dinhei­ro da inde­ni­za­ção que rece­beu pela mor­te do mari­do, Luiz (o uru­guaio César Troncoso).

http://www.youtube.com/watch?v=_eGiL7tBpTQ

Durante a mudan­ça, em meio à aber­tu­ra de cai­xas e ao des­lo­ca­men­to de móveis, Vera pre­sen­ti­fi­ca os acon­te­ci­men­tos de qua­tro déca­das atrás, dia­lo­ga com eles, bus­ca modi­fi­cá-los, cor­ri­gi-los, sua­vi­zar seu gume cru­el. Vemos então o perío­do mais sinis­tro da dita­du­ra fil­tra­do por uma sen­si­bi­li­da­de, por uma memó­ria, por um cor­po. Essa medi­a­ção, para­do­xal­men­te, pare­ce tor­nar ain­da mais con­tun­den­tes os efei­tos da bar­bá­rie.

Representação e paró­dia

Num deba­te sobre o fil­me, no Festival de Tiradentes do ano pas­sa­do, o cor­ro­tei­ris­ta (e gran­de crí­ti­co) Jean-Claude Bernardet dis­se acre­di­tar, se enten­di bem, que só é pos­sí­vel abor­dar fic­ci­o­nal­men­te a dita­du­ra mili­tar de modo paró­di­co, como que “em segun­do grau”. Faz sen­ti­do. Todos os fil­mes de fic­ção que ten­ta­ram recons­ti­tuir dra­ma­ti­ca­men­te, de modo dire­to, a repres­são e a tor­tu­ra (de O que é isso com­pa­nhei­ro? a Cabra cega, de Lamarca a Batismo de san­gue) fra­cas­sa­ram. Soam fal­sos, mal ence­na­dos, como um gru­po de garo­tos brin­can­do de moci­nho e ban­di­do. Paródias invo­lun­tá­ri­as, que têm a pre­ten­são de apre­sen­tar as coi­sas “como elas acon­te­ce­ram de ver­da­de”.

O acer­to esté­ti­co e polí­ti­co de um fil­me como o recen­te Cara ou coroa, de Ugo Giorgetti, con­sis­te em abor­dar o perío­do pelas bor­das, pelos esti­lha­ços daque­la guer­ra suja sobre per­so­na­gens que não tinham rela­ção dire­ta com ela.

Dito isso, vol­te­mos a Hoje, que ganhou os prin­ci­pais prê­mi­os do Festival de Brasília de 2011 mas só ago­ra entra em car­taz. O fil­me é ins­pi­ra­do no roman­ce Prova con­trá­ria, de Fernando Bonassi, mas o que o tor­na notá­vel é menos o enre­do do que a ence­na­ção, a suti­le­za com que mani­pu­la o tem­po e o espa­ço, cri­an­do uma geo­gra­fia e uma tem­po­ra­li­da­de vir­tu­ais por onde tra­fe­ga a tor­tu­ra­da (em mais de um sen­ti­do) pro­ta­go­nis­ta.

Resnais e Bellocchio

Essa facul­da­de essen­ci­al­men­te cine­ma­to­grá­fi­ca de cri­ar um ter­ri­tó­rio maleá­vel e livre de amar­ras, seme­lhan­te ao do sonho, é algo que Hoje com­par­ti­lha com uma obra que lhe é radi­cal­men­te dis­tin­ta em tudo o mais: o deli­ci­o­so Vocês ain­da não viram nada, de Alain Resnais.

"Vocês ainda não viram nada", de Alain Resnais

Ao reu­nir uma plêi­a­de de ato­res for­mi­dá­veis de vári­as gera­ções, de Michel Piccoli a Mathieu Amalric, todos supos­ta­men­te fazen­do o papel de si mes­mos, o vete­ra­no dire­tor fran­cês faz mui­to mais do que lhes pres­tar um tri­bu­to. Aos 90 anos, se mos­tra em ple­na for­ma ao reto­mar um dos eixos cen­trais de seu cine­ma, que con­sis­te em ques­ti­o­nar a nar­ra­ti­va de fic­ção ao mes­mo tem­po em que a cons­trói. Como em Providence, Meu tio da América, A vida é um roman­ce e Smoking/No smo­king, Resnais sobre­põe aqui cama­da sobre cama­da de repre­sen­ta­ção, mul­ti­pli­can­do as sur­pre­sas e as aber­tu­ras do olhar (vale dizer, do espí­ri­to). A vida, para esse artis­ta extra­or­di­ná­rio, pode não ser um roman­ce, mas é sem dúvi­da um pal­co — ou um set de fil­ma­gem.

http://www.youtube.com/watch?v=OqHMs0-TtlA

Entre os fil­mes que entram em car­taz hoje (19 de abril), não pode pas­sar em bran­co o insó­li­to Irmãs Jamais, de Marco Bellocchio, em que o dire­tor ita­li­a­no, num regis­tro na fron­tei­ra entre o docu­men­tá­rio e a fic­ção, acom­pa­nha duran­te nove anos (de 1999 a 2008), a vida de uma meni­na (Elena Bellocchio, filha tem­po­rã do cine­as­ta) cri­a­da pelas tias no vila­re­jo de Bobbio, enquan­to a mãe ten­ta fazer car­rei­ra como atriz em Roma. Além das irmãs do dire­tor (as sorel­le Mai do títu­lo ori­gi­nal), seu filho, Pier Giorgio Bellocchio, tam­bém atua no fil­me, todos repre­sen­tan­do mais ou menos a pró­pria vida coti­di­a­na.

Por cami­nhos sinu­o­sos, Bellocchio retor­na a sua cida­de­zi­nha natal e à inves­ti­ga­ção da famí­lia peque­no-bur­gue­sa, local e tema de seu lon­ga de estreia, o sub­ver­si­vo De punhos cer­ra­dos (1965), cujas ima­gens em pre­to e bran­co se inse­rem aqui e ali em Irmãs Jamais. Só que ago­ra o olhar é outro, mais madu­ro, mati­za­do e com­pas­si­vo, sem dei­xar de ser crí­ti­co. Aqui, uma cena do fil­me, pro­ta­go­ni­za­da por Pier Giorgio Bellocchio:

http://www.youtube.com/watch?v=6N9nh1ucWiY

Por fim, não pos­so dei­xar de regis­trar — e lamen­tar pro­fun­da­men­te — a mor­te pre­ma­tu­ra do gran­de fotó­gra­fo e cine­as­ta Aloysio Raulino, res­pon­sá­vel pela foto­gra­fia de fil­mes como O homem que virou suco, Ao sul de meu cor­po, O pri­si­o­nei­ro da gra­de de fer­ro, Cartola — Música para os olhos e Serras da desor­dem, entre mui­tos outros. Dirigiu ape­nas um lon­ga, Noites para­guai­as (1982), mas sua impor­tân­cia para o cine­ma bra­si­lei­ro é ines­ti­má­vel. Além de tudo, era um homem doce, ínte­gro e apai­xo­na­do.

Em tem­po: o títu­lo des­ta colu­na é um ver­so céle­bre de Paulo Leminski.

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