Hélio Oiticica, um filme em camadas

Quatro perguntas

07.08.14

César Oiticica Filho con­ver­sou com José Carlos Avellar, coor­de­na­dor de cine­ma do IMS, sobre as esco­lhas que fez para Hélio Oiticica, o docu­men­tá­rio que rea­li­zou sobre seu tio, em car­taz no cine­ma do IMS-RJ. Segundo o dire­tor, a estru­tu­ra do fil­me, em cama­das, reme­te à obra do artis­ta plás­ti­co, um dos ide­a­li­za­do­res do movi­men­to neo­con­cre­to e cri­a­dor de obras fun­da­men­tais para a arte con­tem­po­râ­nea bra­si­lei­ra, como “Tropicália” e os paran­go­lés.

César Oiticica Filho

JCA: Bem no come­ço, um peda­ci­nho de um letrei­ro de A gre­ve, de Eisenstein…

COF: Estava pro­cu­ran­do ima­gens das mani­fes­ta­ções de rua, em Moscou, em 1917, cine­jor­nais da épo­ca, mas não encon­trei. Fui então ao fil­me de Eisenstein, uma fic­ção sobre as gre­ves de 1917. Nesse mes­mo ano tive­mos a gre­ve geral anar­quis­ta no Brasil. O avô do Hélio foi um dos artí­fi­ces. Quando encon­trei esse HO num dos letrei­ros de A gre­ve, ime­di­a­ta­men­te sen­ti que essa deve­ria ser a pri­mei­ra ima­gem do fil­me. São as ini­ci­ais de Hélio Oiticica, uma cita­ção do fil­me que o Ivan Cardoso fez sobre ele, H.O., e uma indi­ca­ção de Eisenstein como a gran­de refe­rên­cia.

JCA: Isto é, mon­ta­gem. Você fez um fil­me de mon­tan­do mate­ri­ais de arqui­vo.

COF: Mas fil­ma­mos mui­to, não usa­mos ape­nas ima­gens de arqui­vo, tem mui­ta coi­sa fil­ma­da ao lado dos mate­ri­ais de arqui­vo. Montagem por­que é um fil­me fei­to em cama­das, ideia que vem da pró­pria obra do Hélio: a saí­da do qua­dro para o espa­ço, a pin­tu­ra frag­men­ta­da em peda­ços que se agru­pam e for­mam uma obra tri­di­men­si­o­nal. Há uma cena em que o Hélio diz: “Eu não que­ro mon­tar nada”, mas nos­so fil­me é total­men­te mon­ta­do. O Hélio fala de tudo, não só do tra­ba­lho dele. Fala do uni­ver­so da cri­a­ção. Mil idei­as em tex­tos, depoi­men­tos e entre­vis­tas. O Hélio uniu a refle­xão com a cri­a­ção artís­ti­ca. Tudo isso aca­ba for­man­do uma gran­de col­cha de reta­lhos. Daí, quan­do fui fazer o fil­me pen­sei em mon­tar todas essas idei­as dele, pro­cu­rei fazê-lo em blo­cos.

JCA: Blocos na ima­gem e no som, pois a nar­ra­ção resul­ta da mon­ta­gem de diver­sos depoi­men­tos do Hélio…

COF: As Heliotapes… A base da nar­ra­ti­va do fil­me são as fitas gra­va­das pelo pró­prio Oiticica. São horas e horas de depoi­men­tos e diá­lo­gos, decla­ra­ções sobre sua vida e pen­sa­men­tos sobre arte para os ami­gos. Já conhe­cia as fitas, e com a des­co­ber­ta de fil­mes em super 8 do Hélio achei que daria um docu­men­tá­rio incrí­vel. Segui em pes­qui­sa, com o Antônio Venâncio, reu­ni­mos ima­gens do Hélio no fil­me do Glauber, no fil­me do Bressane, do Solberg, do Mautner  – além das ima­gens do Ivan Cardoso, e fui ven­do que pode­ria colo­car o espec­ta­dor no olho do artis­ta, na cabe­ça dele. Apresentá-lo, enfim. Mesmo quem acha que conhe­ce o Hélio, não conhe­ce. As cha­ma­das Heliotapes são um acer­vo mui­to gran­de, daria até para fazer outro fil­me com os áudi­os que não usa­mos aqui.

JCA: No Festival de Berlim, o docu­men­tá­rio ganhou dois prê­mi­os, o da Crítica Internacional e o Prêmio Caligari, des­ti­na­do a obras for­mal­men­te ino­va­do­ras.

COF: É um docu­men­tá­rio, mas tal­vez seja mais um fil­me expe­ri­men­tal sobre o Hélio e ins­pi­ra­do pelas idei­as dele. Foi um pro­ces­so de rea­li­za­ção bas­tan­te lon­go, um tra­ba­lho de for­mi­gui­nha. Enquanto esta­va fil­man­do, fiquei aber­to para o que acon­te­ces­se na hora. Não sabia se ia ficar boni­to, não tinha nada esta­be­le­ci­do. Tinha só a ideia de um fil­me como uma aula sobre a arte con­du­zi­da pelo Hélio. A ideia de man­ter vivo o lega­do de Hélio Oiticica.

, , , ,