Hitchcock e o vértice do cinema

No cinema

06.12.13

James Stewart em Um corpo que cai

O melhor fil­me que entra em car­taz hoje (6 de dezem­bro) no Brasil vem de Hollywood. Só que da Hollywood de meio sécu­lo atrás. Estou falan­do de Um cor­po que cai (1958), de Hitchcock, pri­mei­ro de uma série de clás­si­cos a serem relan­ça­dos, em cópia nova, pela Espaço Filmes, de Adhemar de Oliveira. Entre outras obras pro­gra­ma­das para os pró­xi­mos meses estão O peque­no fugi­ti­vo, Fome de viver, Os pás­sa­ros e Monty Python e o sen­ti­do da vida.

Mas vamos a Um cor­po que cai. Não pode­ria haver esco­lha mais opor­tu­na. O fil­me de Hitchcock vol­tou a ficar em evi­dên­cia des­de que, no ano pas­sa­do, des­ban­cou Cidadão Kane do topo do céle­bre ran­king de mai­o­res fil­mes de todos os tem­pos da revis­ta bri­tâ­ni­ca Sight and Sound. Na oca­sião, escre­vi sobre o assun­to aqui e não que­ro me repe­tir.

Construção da ver­ti­gem

Mas, por mais teses que tenham sido escri­tas sobre cada um de suas sequên­ci­as, há sem­pre algo novo a des­co­brir nes­sa obra-pri­ma. A figu­ra que orga­ni­za e dá sen­ti­do a sua com­ple­xa arqui­te­tu­ra esté­ti­ca e nar­ra­ti­va é, como já se dis­se, a da espi­ral, sig­no da ver­ti­gem: da ver­ti­gem lite­ral que aco­me­te o acro­fó­bi­co ex-dete­ti­ve Scottie Ferguson (James Stewart), mas prin­ci­pal­men­te da ver­ti­gem da pai­xão pela fugi­dia Madeleine Elster (Kim Novak). A pro­gres­são nar­ra­ti­va do fil­me apon­ta toda para a fusão des­sas duas ver­ti­gens, a lite­ral e a figu­ra­da, o que acon­te­ce na sequên­cia cru­ci­al da esca­da­ria da tor­re da mis­são.

Uma ocu­pa­ção inte­res­san­te para o ciné­fi­lo obs­ti­na­do seria a de enu­me­rar a miría­de de for­mas espi­rais que se suce­dem na tela, a come­çar do super­clo­se de um olho huma­no nos cré­di­tos de aber­tu­ra: o coque no cabe­lo de Madeleine, os cír­cu­los de uma árvo­re mul­ti­cen­te­ná­ria, íris, coro­las de flo­res, esca­da­ri­as. Desnecessário lem­brar que a cons­tru­ção do enre­do tam­bém obe­de­ce a uma for­ma espi­ral, com o retor­no aos mes­mos pon­tos, só que em altu­ras dra­má­ti­cas dife­ren­tes. O mes­mo se pode dizer da músi­ca hip­nó­ti­ca de Bernard Herrmann.

Quanto à cri­a­ção espe­ci­fi­ca­men­te cine­ma­to­grá­fi­ca da sen­sa­ção de ver­ti­gem, Hitchcock a expli­cou em deta­lhes em seu famo­so livro de entre­vis­tas a François Truffaut. É uma com­bi­na­ção de um tra­vel­ling para fren­te com um zoom para trás, tal como acon­te­ce na já cita­da cena da tor­re da mis­são. Ali, mos­tra-se um poço de esca­da na ver­ti­cal, de cima para bai­xo, mas para via­bi­li­zar a fil­ma­gem a um cus­to aces­sí­vel, o dire­tor man­dou cons­truir uma maque­te da esca­da­ria da tor­re e fil­mou-a dei­ta­da, na hori­zon­tal. Simples e geni­al, como qua­se todas as suas solu­ções téc­ni­cas. Confira o efei­to aqui:

http://www.youtube.com/watch?v=GnpZN2HQ3OQ

Mas há inú­me­ras outras pas­sa­gens extra­or­di­ná­ri­as nes­se fil­me ines­go­tá­vel. Uma que me encan­ta par­ti­cu­lar­men­te é a lon­ga sequên­cia sem diá­lo­gos (daque­las que Brian De Palma ado­ra emu­lar) em que Scottie segue Madeleine até um beco obs­cu­ro. Ela entra por uma por­ta e, um minu­to depois, ele entra atrás. É a por­ta dos fun­dos de uma exu­be­ran­te flo­ri­cul­tu­ra. Quando ele abre len­ta­men­te a por­ta, é como se abris­se uma cor­ti­na para outra dimen­são espa­ci­al, dra­má­ti­ca, exis­ten­ci­al. É tam­bém como se o fil­me mudas­se de repen­te de gêne­ro, pas­san­do do rea­lis­mo à fan­ta­sia. É para essa fan­ta­sia que Hitchcock nos puxa pela mão, e quem há de resis­tir? Aqui, a cena:

http://www.youtube.com/watch?v=Ko9QYkIFezs

Artigas, ou a cons­tru­ção do herói

Perdido em meio a uma enxur­ra­da de lan­ça­men­tos, um fil­me belo e ori­gi­nal cor­re o ris­co de sair de car­taz sem ter sido devi­da­men­te vis­to e apre­ci­a­do: Artigas — La Redota, do uru­guaio-bra­si­lei­ro Cesar Charlone, o rea­li­za­dor de O banhei­ro do papa e dire­tor de foto­gra­fia de fil­mes como Cidade de Deus, Como nas­cem os anjos e Ensaio sobre a ceguei­ra.

O per­so­na­gem-títu­lo é o cau­di­lho José Artigas (Jorge Esmoris), con­si­de­ra­do o herói fun­da­dor da nação uru­guaia. Mas o fil­me de Charlone não é um mero épi­co his­tó­ri­co, nem tam­pou­co uma cine­bi­o­gra­fia con­ven­ci­o­nal. Seu argu­men­to é enge­nho­so: em 1884, o pin­tor Juan Manuel Blanes (Yamandú Cruz) rece­be do gover­no uru­guaio a incum­bên­cia de fazer um retra­to de Artigas, para usá-lo como sím­bo­lo uni­fi­ca­dor do país. Mas as úni­cas pis­tas de que dis­põe o artis­ta são dese­nhos e ano­ta­ções fei­tas por um espião espa­nhol (Rodolfo Sancho) que seten­ta anos antes se infil­trou no acam­pa­men­to de Artigas com o intui­to de matá-lo.

Artigas — La Redota

A nar­ra­ti­va se desen­vol­ve então nas duas épo­cas, a da enco­men­da do qua­dro e a do iní­cio do sécu­lo XIX, aque­la fase con­fu­sa de guer­ras de inde­pen­dên­cia e esca­ra­mu­ças de fron­tei­ras entre Uruguai, Argentina e Brasil. Na alter­nân­cia entre os dois momen­tos, o per­fil do cau­di­lho (não ape­nas no sen­ti­do físi­co) vai sen­do esbo­ça­do e apa­ga­do segui­da­men­te, como num palimp­ses­to cuja ima­gem-matriz se per­deu para sem­pre. Quanto mais o espião — e, por meio dele, o pin­tor Blanes — se apro­xi­ma de Artigas, mais este pare­ce lhe esca­par. Já em sua épo­ca ele era uma cons­tru­ção ima­gi­ná­ria, uma pro­je­ção dos ansei­os e ilu­sões de seus com­pa­tri­o­tas.

Um fil­me irô­ni­co e amar­go não ape­nas quan­to à inven­ção de nos­sos heróis, mas tam­bém quan­to à impos­si­bi­li­da­de de conhe­cer “a” ver­da­de his­tó­ri­ca, e mui­to menos a ver­da­de de um indi­ví­duo. Vá ver enquan­to é tem­po.

http://www.youtube.com/watch?v=1g_wM4xg9tE

, , , , , , , , , ,