Holy motors e a ficção radical

No cinema

07.12.12

O sen­ti­men­to que Holy Motors pro­vo­ca em quem ama o cine­ma é nada menos do que júbi­lo. Tenho ami­gos que, em uma sema­na, já viram o fil­me três vezes. Não é para menos.

Numa arte que tem sido tão ames­qui­nha­da e bana­li­za­da, é revi­go­ran­te ver uma apos­ta radi­cal assim nos pode­res liber­tá­ri­os da inven­ção e da fan­ta­sia.

Não por aca­so, uma das três pes­so­as a quem o fil­me de Leos Carax é dedi­ca­do é Georges Franju (1912–87), um dos fun­da­do­res da Cinemateca Francesa e expo­en­te do cine­ma fan­tás­ti­co de raiz sur­re­a­lis­ta. A atriz Edith Scob, que em Holy Motors encar­na a moto­ris­ta do pro­ta­go­nis­ta, atu­ou em diver­sos fil­mes de Franju, entre eles La tête con­tre les murs Olhos sem ros­to. Aqui, o insó­li­to trai­ler des­te últi­mo, que tra­ta tam­bém de iden­ti­da­des for­ja­das e que ser­viu igual­men­te de ins­pi­ra­ção para Almodóvar em A pele que habi­to.

De que tra­ta Holy Motors? Um homem (Denis Lavant, ator de qua­se todos os fil­mes de Carax) atra­ves­sa Paris numa limu­si­ne que, por den­tro, é um cama­rim no qual ele se trans­for­ma nos mais dife­ren­tes per­so­na­gens e pas­sa a inte­ra­gir com o “mun­do real”, numa espé­cie de radi­ca­li­za­ção ad absur­dum do “tea­tro invi­sí­vel” de Augusto Boal. Numa cena, ele é um mag­na­ta dos inves­ti­men­tos; em outra, uma velha men­di­ga; em outra ain­da, um atle­ta que simu­la movi­men­tos de luta para a pro­du­ção de um vide­o­ga­me. Há um cer­to res­pei­to à veros­si­mi­lhan­ça até o momen­to em que o per­so­na­gem, trans­for­ma­do em M. Merde, um ogro urba­no, rap­ta uma top model (Eva Mendes) duran­te uma ses­são de fotos num cemi­té­rio. Em outro epi­só­dio esse per­so­na­gem cam­bi­an­te mata um homem que é um duplo dele pró­prio.

http://www.youtube.com/watch?v=dJWKe5xgax0

Estamos, em suma, na Paris real, do mun­do fashi­on e dos men­di­gos, do turis­mo e dos gran­des maga­zi­nes fali­dos, mas tam­bém em outro ter­re­no, o da liber­da­de de ima­gi­na­ção, que trans­fi­gu­ra os espa­ços, os tem­pos e as iden­ti­da­des. Estamos no cine­ma, em suma.

O abje­to e o subli­me

 

Denis Lavant e Eva Mendes em cena do fil­me

Cabem aqui dois comen­tá­ri­os à par­te. Primeiro: em sequên­ci­as como a do ogro e da mode­lo (a bela e a fera revi­si­ta­dos), Carax leva ao extre­mo o gos­to pela apro­xi­ma­ção drás­ti­ca entre o abje­to e o subli­me, a vio­lên­cia e a ter­nu­ra, que os ciné­fi­los já conhe­ci­am pelo menos des­de Sangue ruim Os aman­tes do Pont-Neuf.

Segundo: é irô­ni­co e curi­o­so que dois dos mais mar­can­tes fil­mes do ano — Cosmópolis Holy Motors — sejam odis­sei­as de per­so­na­gens em limu­si­nes, cru­zan­do ao lon­go de um dia metró­po­les icô­ni­cas da moder­ni­da­de (Nova York e Paris). Mas, se a estru­tu­ra é simi­lar, o esti­lo e o espí­ri­to são com­ple­ta­men­te dife­ren­tes. O fil­me de Cronenberg é, de cer­to modo, um réqui­em, ao ence­nar a liqui­da­ção do afe­to, do dese­jo e da liber­da­de pelo gran­de capi­tal sem pátria e sem ros­to. Já Holy Motors, ape­sar de lidar em vári­os epi­só­di­os com a mor­te (assas­si­na­tos, sui­cí­di­os, mor­tes natu­rais), tem o tom geral de uma cele­bra­ção. No míni­mo, de uma cele­bra­ção da facul­da­de do cine­ma — e da arte em geral — de poten­ci­a­li­zar a ima­gi­na­ção, ati­çar a inte­li­gên­cia, ampli­ar a sen­si­bi­li­da­de. Uma cren­ça cega nos pode­res da fic­ção, que per­mi­te a um indi­ví­duo viver vári­as vidas no espa­ço de um dia.

É impres­si­o­nan­te a flui­dez e a segu­ran­ça com que Carax tran­si­ta entre os gêne­ros, con­du­zin­do o espec­ta­dor do poli­ci­al à comé­dia de humor negro, do dra­ma psi­co­ló­gi­co ao musi­cal. A sequên­cia em que a per­so­na­gem de Kylie Minogue, uma “cama­le­oa” pro­fis­si­o­nal como o pro­ta­go­nis­ta, come­ça a can­tar no cená­rio em ruí­nas da Samaritaine aban­do­na­da vale por um mani­fes­to poé­ti­co-polí­ti­co.

Em Cosmópolis, o pro­ta­go­nis­ta se per­gun­ta a cer­ta altu­ra para onde vão todas aque­las limu­si­nes à noi­te, quan­do aca­ba sua jor­na­da. Holy Motors é, no fil­me de Carax, esse lugar, um pátio imen­so onde repou­sam — e con­ver­sam entre si — esses car­ros mara­vi­lho­sos. Mas pode­mos ler de outra manei­ra o títu­lo angló­fo­no do fil­me. Motores sagra­dos são o auto­mó­vel, o cine­ma­tó­gra­fo… e a ima­gi­na­ção huma­na.

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