Horror onírico

Cinema

09.06.15

Um dos tex­tos mais incom­pre­en­sí­veis de Roberto Bolaño encon­tra-se no pou­co lido El secre­to del mal, cole­tâ­nea pós­tu­ma de con­tos fei­ta a par­tir de uma garim­pa­gem na pas­ta Meus Documentos do autor chi­le­no mor­to em 2003. Nela, des­ta­ca-se “El hijo del coro­nel”, ven­di­do como um “con­to”, como fic­ção. O nar­ra­dor ini­cia o tex­to dizen­do que assis­tiu de madru­ga­da a um fil­me de ter­ror com zum­bis do qual não se lem­bra o nome, mas que tem cer­te­za de que a tra­ma era a his­tó­ria de sua vida e que assis­tir ao fil­me foi uma expe­ri­ên­cia catár­ti­ca. Todo o res­to do “con­to” é a des­cri­ção, sem firu­las poé­ti­cas, do que acon­te­ce, qua­se cena a cena, no fil­me. Li “El hijo del coro­nel” logo que o livro saiu e o inter­pre­tei como uma fic­ção bas­tan­te inte­res­san­te e curi­o­sa. Graças às mara­vi­lhas da inter­net e ao povo extre­ma­men­te nerd que habi­ta nos­so mun­do, des­co­bri recen­te­men­te que o tex­to pou­co tem de fic­ção – o fil­me des­cri­to de fato exis­te. Trata-se de A vol­ta dos mor­tos vivos 3, diri­gi­do por Brian Yuzna, bas­tan­te conhe­ci­do do pes­so­al do ter­ror pelas suas adap­ta­ções de H. P. Lovecraft.

Aí que a coi­sa fica inte­res­san­te: o “con­to” de Bolaño des­cre­ve com mui­ta fide­li­da­de tudo o que acon­te­ce no fil­me – quer dizer, levan­do em con­ta que ele assis­tiu a ele de madru­ga­da, joga­do na pol­tro­na, semi­a­dor­me­ci­do, com um copo de vinho na mão (essa é a cena que ima­gi­no). O fil­me, no entan­to, nada tem de espe­ci­al. Entre os fil­mes de zum­bi, está lon­ge do pan­teão cri­a­do por Romero e Fulci. O rotei­ro é estram­bó­ti­co e estú­pi­do. E, no entan­to, por que Bolaño se pres­tou a des­cre­ver o fil­me cena a cena, num esti­lo seco, e escre­veu que o fil­me é qua­se a sua auto­bi­o­gra­fia? Estudo o autor chi­le­no há mui­tos anos, conhe­ço em deta­lhes sua bio­gra­fia, e não con­si­go ver um só pon­to de con­ta­to entre a vida de um autor exi­la­do e “rea­lis­ta” e um fil­me cheio de explo­sões e mor­tos-vivos, o que tor­na o tex­to ain­da mais inte­res­san­te (e tal­vez mais pró­xi­mo da fic­ção do que de um tex­to pes­so­al escri­to qua­se como uma entra­da de diá­rio).

A res­pos­ta para esse ques­ti­o­na­men­to pro­va­vel­men­te não será encon­tra­da inves­ti­gan­do mais deti­da­men­te a vida de Bolaño ou a tra­ma do fil­me de Yuzna, e sim refle­tin­do um pou­co mais no que é a essên­cia do cine­ma de ter­ror – a lógi­ca do sonho.

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Espero que mui­tos con­cor­da­rão comi­go quan­do afir­mo que o cine­ma de ter­ror atu­al é fraquís­si­mo, tiran­do exce­ções aqui e aco­lá, geral­men­te vin­das do ori­en­te. O ter­ror mains­tre­am, em espe­ci­al, está em esta­do de des­gra­ça – me pare­ce difí­cil ima­gi­nar um novo O bebê de Rosemary ou O exor­cis­ta, fil­mes de gêne­ro que alcan­ça­ram um públi­co que não era de nicho e se tor­na­ram mar­cos cul­tu­rais. De cer­ta for­ma, os fil­mes nor­te-ame­ri­ca­nos de hor­ror mais inte­res­san­tes são jus­ta­men­te aque­les que acre­di­tam que o futu­ro do gêne­ro está no pas­sa­do: Invocação do mal, empol­gan­te fil­me sobre pos­ses­são demo­nía­ca, é uma gran­de home­na­gem à manei­ra de fil­mar dos anos 1970; The House of The Devil, de Ti West, é uma sutil cele­bra­ção dos fil­mes mais silen­ci­o­sos e len­tos de ter­ror das déca­das de 1970 e 1980. Ainda pode­mos pen­sar em vári­os outros exem­plos que ten­tam um retor­no à era de ouro – bas­ta pen­sar na pro­du­ção do casal fran­cês Bruno Forzani e Hélène Cattet, que em Amer e A estra­nha cor das lágri­mas do seu cor­po recri­am os colo­ri­dos gial­los, o ter­ror ita­li­a­no alta­men­te este­ti­za­do de Dario Argento e Sergio Martino. A nos­tal­gia não fica só na ima­gem: vári­as pro­du­ções atu­ais usam uma tri­lha sono­ra fei­ta com sin­te­ti­za­do­res (mui­tas vezes ana­ló­gi­cos), à moda de John Carpenter.

Cena de It Follows (2014) com um jogo de luz que lembra Suspiria (1977)

É nes­se cená­rio que duas obras de 2014 se des­ta­ca­ram entre a crí­ti­ca: Babadook, fil­me aus­tra­li­a­no da cine­as­ta Jennifer Kent dis­po­ní­vel no Netflix, e It Follows (que rece­beu o pavo­ro­so títu­lo em por­tu­guês de Corrente do mal), do ame­ri­ca­no David Robert Mitchell, ain­da iné­di­to no país. Não fala­rei sobre o pri­mei­ro, que me desa­gra­dou por ser total­men­te mon­ta­do em cima de uma ale­go­ria. Assim que o espec­ta­dor enten­de do que o fil­me real­men­te se tra­ta, que des­ven­da a metá­fo­ra – algo que pode ocor­rer aos 30 minu­tos de pro­je­ção -, Babadook dei­xa de ser assus­ta­dor, por melhor que seja a atu­a­ção da pro­ta­go­nis­ta.

It Follows, por outro lado, rejei­ta o sis­te­ma ale­gó­ri­co. Enquanto Babadook tem uma expli­ca­ção raci­o­nal para os mon­tros, em It Follows, o “it” do títu­lo que per­se­gue os pro­ta­go­nis­tas não pode ser facil­men­te des­cri­to e não é expli­ca­do no decor­rer do lon­ga-metra­gem. Resumindo a tra­ma, sem spoi­lers: uma ado­les­cen­te, após fazer sexo com um rapaz, des­co­bre que foi con­ta­mi­na­da com uma mal­di­ção. Uma pes­soa que só ela enxer­ga a per­se­gui­rá o tem­po todo e ela nun­ca mais terá  um momen­to de paz. Se ela fizer sexo com outra pes­soa, pas­sa­rá adi­an­te a mal­di­ção, mas não esta­rá livre dela. A prin­cí­pio, tra­ta-se da recor­ren­te metá­fo­ra da DST, mar­co do cine­ma de Cronenberg e um diá­lo­go com slashers da linha de Sexta-fei­ra 13, nos quais ado­les­cen­tes que fazem sexo tem uma ten­dên­cia mui­to mai­or a sofrer uma mor­te bru­tal, mas assis­tin­do a It Follows fica cla­ro que esta­mos dian­te de algo mui­to dife­ren­te.

O fil­me de Mitchell tem seu fator nos­tal­gia, sim, a come­çar pela tri­lha fei­ta com sin­te­ti­za­do­res, com­pos­ta por Disasterpeace (mais conhe­ci­do entre os entu­si­as­tas de vide­o­ga­mes por ter cri­a­do a músi­ca de Fez). A tra­ma pare­ce, nos pri­mei­ros momen­tos, ser situ­a­da num idí­li­co anos 1980, mas a situ­a­ção logo fica con­fu­sa: obje­tos de todas as épo­cas come­çam a apa­re­cer: a tele­vi­são anti­ga divi­de o espa­ço com um e-rea­der em for­ma­to de con­cha (algo vin­do do futu­ro) no qual uma per­so­na­gem cons­tan­te­men­te lê O idi­o­ta, de Dostoievski. Essa mes­cla de épo­cas lem­bra Ubik, um dos roman­ces mais conhe­ci­dos de Philip K. Dick no qual os per­so­na­gens notam que algo estra­nho está acon­te­cen­do quan­do per­ce­bem obje­tos regre­din­do no tem­po e vári­as épo­cas coe­xis­tin­do no mes­mo espa­ço, algo que só pode ser cor­ri­gi­do com um “spray de rea­li­da­de”. Em It Follows, a inco­e­rên­cia tem­po­ral acres­cen­ta mais um fator de estra­nhe­za a um fil­me que gira em tor­no jus­to dis­so – de uma lógi­ca (a per­se­gui­ção de um ser des­co­nhe­ci­do ines­ca­pá­vel) que não faz sen­ti­do em ter­mos cons­ci­en­tes e, no entan­to, é impla­cá­vel. A tra­ma não se pre­ten­de rea­lis­ta, nem ten­ta con­ven­cer o espec­ta­dor de que aqui­lo é pos­sí­vel (afi­nal, como podem ado­les­cen­tes pas­sar tan­to tem­po jun­to sem adul­tos apa­re­ce­rem ou sem ir ao colé­gio?). E, no entan­to, não mer­gu­lha de cabe­ça no fan­tás­ti­co, ceden­do a um vale-tudo, o que cer­ta­men­te tira­ria mui­tas cama­das de pavor da obra.

Cena de A mansão do inferno (1980), de Dario Argento, com o famoso uso de azul e vermelho

Nesse sen­ti­do, It Follows não home­na­geia, mas des­cen­de de um tipo de ter­ror que pode ser clas­si­fi­ca­do de atmos­fé­ri­co. Lembro-me de quan­do assis­ti pela pri­mei­ra vez a A man­são do infer­no, de Dario Argento, fil­me impres­si­o­nis­ta de cores vibran­tes cujo rotei­ro faz tan­to sen­ti­do quan­to um sonho esqui­si­to que você ten­ta remon­tar na manhã seguin­te. O fil­me de Argento, assim como a sua obra-pri­ma Suspiria, apre­sen­ta uma lógi­ca inter­na mui­to pró­pria: pos­sui o tipo de rotei­ro que seria veta­do em qual­quer cur­so na área. Argento leva ao extre­mo uma este­ti­za­ção do cine­ma: todos os cená­ri­os são lin­dos, todos os pré­di­os têm uma arqui­te­tu­ra inco­mum, cada pla­no é um des­lum­bre, cada cor é pen­sa­da. O san­gue não é ver­me­lho, mas leve­men­te ala­ran­ja­do. A sen­sa­ção pro­vo­ca­da é de aden­trar um mun­do que pode­ria ser o nos­so, mas não é; sabe­mos dis­so, mas esta­mos pre­sos den­tro dele, e pre­ci­sa­mos apren­der suas regras, que não são as ter­re­nas. Assisti-lo de madru­ga­da, sono­len­to, sozi­nho, pare­ceu ter me ofe­re­ci­do uma reve­la­ção sobre minha vida que eu não era capaz de nome­ar. Como um sonho com­par­ti­lha­do.

It Follows não tem a gran­di­o­si­da­de ope­rá­ti­ca de um Argento, pre­fe­rin­do cores mais des­bo­ta­das e uma dire­ção menos his­tri­ô­ni­ca, mas é seu des­cen­den­te por insis­tir num ter­ror de ambi­en­ta­ção, de cli­ma, de estra­nhe­za. E são fil­mes como esse que pare­cem jus­ti­fi­car a exis­tên­cia de um tex­to como “El hijo del coro­nel”, que des­cre­vem a expe­ri­ên­cia de se dei­xar levar por um fil­me atmos­fé­ri­co em uma situ­a­ção em que nos encon­tra­mos entre a vigí­lia e o sono. Roberto Bolaño não sou­be expli­car por­que aque­le fil­me de zum­bis cujo títu­lo nem era capaz de lem­brar foi tão mar­can­te para ele, pare­ceu des­cre­ver a sua vida, ou seja, pare­ceu tão ínti­mo. Talvez tenha algo que ver com a lógi­ca oní­ri­ca e o fato de que nos sonhos mui­tos de nós temos os mes­mos medos.

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