Hugo Cabret e a máquina do mundo

No cinema

20.02.12

Cena de A inven­ção de Hugo Cabret: a soci­e­da­de huma­na como engre­na­gem

Não deve ser por aca­so que os dois prin­ci­pais con­cor­ren­tes ao Oscar des­te ano — A inven­ção de Hugo Cabret e O artis­ta - são, cada um a seu modo, home­na­gens nos­tál­gi­cas à infân­cia do cine­ma.

Uma cena de Hugo — tão cru­ci­al que é repe­ti­da duas vezes no fil­me — tal­vez aju­de a enten­der o fenô­me­no. É a recons­ti­tui­ção da céle­bre ses­são de cine­ma em Paris, em 1895, em que os irmãos Lumière exi­bi­ram pela pri­mei­ra vez A che­ga­da do trem à esta­ção de La Ciotat.

http://www.youtube.com/watch?v=v6i3uccnZhQ

Diante da ima­gem do trem vin­do em dire­ção à sala, os espec­ta­do­res se assus­tam: alguns saem cor­ren­do, outros se abai­xam, mui­tos gri­tam. Na pla­teia de Hugo, mais de um sécu­lo depois, rimos da inge­nui­da­de daque­les pri­mei­ros espec­ta­do­res com um mis­to de supe­ri­o­ri­da­de, con­des­cen­dên­cia e… inve­ja. Nos encan­ta­mos com o encan­ta­men­to deles.

Mesmo des­pro­vi­do de som e de cor, mes­mo em duas dimen­sões, o fil­me­te dos Lumière pro­du­zia naque­le públi­co neó­fi­to uma for­te impres­são de rea­li­da­de. Por quê? Obviamente, por­que aque­les espec­ta­do­res des­co­nhe­ci­am até então a nova inven­ção, não esta­vam habi­tu­a­dos às ima­gens em movi­men­to pro­du­zi­das por ela. Parecia-lhes pura mági­ca.

Imaginação ati­va

Mas pode­mos olhar a ques­tão pelo ângu­lo opos­to. Aqueles obser­va­do­res supos­ta­men­te ingê­nu­os pos­suíam uma notá­vel capa­ci­da­de de ima­gi­na­ção, que lhes per­mi­tia suprir aqui­lo de que as ima­gens care­ci­am: cor, pro­fun­di­da­de, som. Em outras pala­vras, eles par­ti­ci­pa­vam mais ati­va­men­te da cons­tru­ção da rea­li­da­de fíl­mi­ca. Olhando assim, aqui­lo que, ini­ci­al­men­te, nos pare­cia uma defi­ci­ên­cia da par­te deles reve­la-se, ao con­trá­rio, uma espé­cie de supe­ri­o­ri­da­de.

Por esse pon­to de vis­ta, é pos­sí­vel ler a evo­lu­ção téc­ni­ca do cine­ma como um pro­ces­so ao mes­mo tem­po de avan­ço e de per­da. A cada nova con­quis­ta tec­no­ló­gi­ca — a intro­du­ção do som, da cor, da ter­cei­ra dimen­são — é como se per­dês­se­mos ou embo­tás­se­mos, como espec­ta­do­res, uma facul­da­de cri­a­ti­va, um ele­men­to de par­ti­ci­pa­ção ati­va na pro­du­ção do espe­tá­cu­lo. Tornamo-nos mais pas­si­vos, em suma. Necessitados de doses cada vez mai­o­res de tru­ques ilu­si­o­nis­tas.

É essa ambi­va­lên­cia que ani­ma A inven­ção de Hugo Cabret e o tor­na tão poten­te, tão inqui­e­tan­te e essen­ci­al.

Em outra cena tocan­te do fil­me, Hugo Cabret (Asa Butterfield) e sua ami­ga Isabelle (Chloë Grace Moretz) folhei­am na bibli­o­te­ca um livro de his­tó­ria do cine­ma e mer­gu­lham em fil­mes de Chaplin, Buster Keaton, Griffith, épi­cos bíbli­cos etc. Mediante a capa­ci­da­de de fan­ta­sia dos dois garo­tos, as fotos do livro ganham vida e movi­men­to.

Celebração e lamen­to

No limi­ar de uma nova revo­lu­ção — o cine­ma digi­tal e em 3D -, somos leva­dos pelo fil­me de Scorsese a pen­sar no sen­ti­do ambi­va­len­te do avan­ço tec­no­ló­gi­co. Por um lado, ao manu­se­ar uma tec­no­lo­gia de pon­ta, o cine­as­ta exal­ta o fas­cí­nio que ela pro­duz; por outro, indi­ca sutil­men­te o que há de per­da nes­se pro­ces­so. Assim, Hugo é ao mes­mo tem­po uma cele­bra­ção e um lamen­to.

A “pas­sa­gem do bas­tão” dos Lumière a Méliès é alta­men­te sig­ni­fi­ca­ti­va. Enquanto os cri­a­do­res do cine­ma­tó­gra­fo o con­si­de­ra­vam “um inven­to sem futu­ro”, uma curi­o­si­da­de de fei­ra que logo esgo­ta­ria seu encan­to, o pres­ti­di­gi­ta­dor Méliès (Ben Kingsley, no fil­me) apos­ta­va no poten­ci­al infi­ni­to de fan­ta­sia do novo meio. Não por aca­so, ele fez expe­ri­ên­ci­as com a cor (pin­tan­do alguns de seus fil­mes qua­dro a qua­dro) e até com rudi­men­tos de tri­di­men­si­o­na­li­da­de.

Assim como o artis­ta e mági­co Méliès é neces­sá­rio para dar ple­no sen­ti­do à inven­ção dos cien­tis­tas e nego­ci­an­tes Lumière, no fil­me de Scorsese o afe­to é essen­ci­al para com­ple­tar o sen­ti­do da téc­ni­ca. O indi­ví­duo, assim como a cida­de e o mun­do, é um orga­nis­mo que só ganha vida com o amor.

O autô­ma­to recons­truí­do pelo pai de Hugo Cabret só pode fun­ci­o­nar com uma cha­ve em for­ma de cora­ção, cuja deten­to­ra não é senão a garo­ta (Isabelle) que abre e pre­en­che o cora­ção do pró­prio Hugo. Uma fábu­la sin­ge­la, mas que rever­be­ra em múl­ti­plos des­do­bra­men­tos.

O mun­do como engre­na­gem

A ideia da soci­e­da­de huma­na como engre­na­gem é intro­du­zi­da logo no iní­cio de Hugo, quan­do a ima­gem do meca­nis­mo do imen­so reló­gio da esta­ção de trem se fun­de com a toma­da aérea das ruas de Paris, numa des­lum­bran­te sequên­cia de fan­ta­sia moder­na que faz pen­sar em Tim Burton.

O reló­gio, o autô­ma­to, os brin­que­dos da loja de Méliès, os trens, a esta­ção, a cida­de — tudo é engre­na­gem. O pró­prio Hugo fala a cer­ta altu­ra do receio de ser uma peça des­car­tá­vel na máqui­na do mun­do e da espe­ran­ça de que sua vida tenha um pro­pó­si­to. Aqui, a cena:

http://www.youtube.com/watch?v=DTo6qwUgHEk

Técnica e ima­gi­na­ção, ciên­cia e afe­to, indús­tria e arte são binô­mi­os que se com­ple­tam em Hugo e no gran­de cine­ma em geral. Criador com­pul­si­vo e essen­ci­al­men­te oti­mis­ta, Scorsese lamen­ta o que se per­de ao lon­go da his­tó­ria, mas enfa­ti­za o que se man­tém e se per­pe­tua. Parafraseando Paulinho da Viola, ele não vive no pas­sa­do; o pas­sa­do é que vive nele.

Se o seu Méliès decla­ra a cer­ta altu­ra que “os finais feli­zes só exis­tem no cine­ma”, o fil­me iro­ni­ca­men­te cor­ro­bo­ra a afir­ma­ção, ter­mi­nan­do sua nar­ra­ti­va num momen­to de gló­ria, rea­bi­li­ta­ção e reco­nhe­ci­men­to do cine­as­ta pio­nei­ro. Na rea­li­da­de, Méliès con­ti­nu­ou na misé­ria, jamais vol­tou a fil­mar e ter­mi­nou seus dias num refú­gio para artis­tas. Mas essa é outra his­tó­ria.

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