Iñárritu e a estética da ênfase

No cinema

05.02.16

A esta altu­ra todo mun­do já conhe­ce o enre­do bási­co de O regres­so, um dos for­tes con­cor­ren­tes ao Oscar: na déca­da de 1820, duran­te uma expe­di­ção de caça­do­res de peles no noro­es­te dos Estados Unidos, um homem é ata­ca­do por um urso, dado por mor­to e dei­xa­do para trás por seus com­pa­nhei­ros. Sobrevive mila­gro­sa­men­te e bus­ca vin­gan­ça.

Ao que pare­ce, esse per­so­na­gem legen­dá­rio exis­tiu. Chamava-se Hugh Glass e, no fil­me de Alejandro Iñárritu, é encar­na­do por Leonardo DiCaprio. O que pou­ca gen­te sabe ou se dá con­ta é que essa mes­ma his­tó­ria já foi fil­ma­da em 1971, com enre­do pra­ti­ca­men­te idên­ti­co e nomes de per­so­na­gens muda­dos. O fil­me é Fúria Selvagem, de Richard C. Sarafian, com Richard Harris e John Huston. Devo essa lem­bran­ça ao ami­go jor­na­lis­ta Paulo Henrique Arantes. Veja aqui o trai­ler: 

A ver­são de Iñárritu, como seria de espe­rar, é espe­ta­cu­lar, enfá­ti­ca e cheia de pro­e­zas téc­ni­cas, em sua mai­o­ria pro­pi­ci­a­das pela tec­no­lo­gia digi­tal. Seu hiper-rea­lis­mo é bru­tal: vemos a car­ne do pro­ta­go­nis­ta ser ras­ga­da pelas gar­ras do urso, vemos água e san­gue fluí­rem de um bura­co em sua gar­gan­ta, vemos a cau­te­ri­za­ção do mes­mo bura­co fei­ta por ele pró­prio com um chu­ma­ço de palha em cha­mas.

Nada é omi­ti­do, tudo se mos­tra. Mais que isso: tudo se exi­be, tudo se osten­ta, tudo gri­ta. Nada é dei­xa­do para a ima­gi­na­ção ou a inte­li­gên­cia do espec­ta­dor. Até a bele­za National Geographic da pai­sa­gem (gelei­ras, cas­ca­tas, flo­res­tas de árvo­res altís­si­mas, pla­ní­ci­es cober­tas por mana­das de bisões) é enfa­ti­za­da a cada pla­no.

Anestesia geral

Talvez essa hiper­tro­fia expo­si­ti­va (para usar uma expres­são con­sa­gra­da pelo crí­ti­co Inácio Araujo) este­ja sin­to­ni­za­da com a sen­si­bi­li­da­de das pla­tei­as atu­ais, o que expli­ca­ria o suces­so de Iñárritu jun­to ao públi­co e à Academia. Mas há um pre­ço que se paga por isso: quan­do tudo é clí­max, os momen­tos real­men­te dra­má­ti­cos se dilu­em; quan­do tudo é “gran­de”, per­de-se a dimen­são da ver­da­dei­ra gran­de­za. Ocorre uma espé­cie de anes­te­si­a­men­to geral, de redun­dân­cia sem fim. O impac­to sobre o espec­ta­dor só pode vir de mais vio­lên­cia, mais “bele­za”, mais cru­e­za.

Uma cena de outro fil­me, lem­bra­da ao aca­so, pode ilus­trar, por con­tras­te, o argu­men­to aci­ma. Em Rio Vermelho (1948), de Howard Hawks, após o estou­ro de uma boi­a­da, des­co­bre-se que um vaquei­ro mor­reu piso­te­a­do pela mana­da. Em vez de exi­bir o cor­po des­tro­ça­do, Hawks nos mos­tra o ros­to cons­ter­na­do de John Wayne olhan­do para bai­xo e dizen­do: “Sim, o Dan esta­va com essa cami­sa xadrez”. O espec­ta­dor que com­ple­tas­se a cena, cuja inten­si­da­de huma­na esta­va a léguas das peri­pé­ci­as de Iñárritu.

No pró­prio O regres­so há uma pas­sa­gem elo­quen­te. Na bei­ra de um rio, o com­ba­li­do Glass vê um gru­po de alces atra­ves­san­do a cor­ren­te­za. Ergue o galho que lhe ser­ve de mule­ta, apon­ta em dire­ção aos ani­mais como se fos­se um rifle e “ati­ra”. Esse momen­to de ima­gi­na­ção, humor e poe­sia – de gra­ça, enfim – reve­la a con­tra­gos­to o que fal­ta ao res­tan­te do fil­me.

Histórias de homens que “vol­tam da mor­te” para rea­li­zar uma mis­são podem ren­der obras-pri­mas como O coro­nel Chabert, de Balzac, e A hora e vez de Augusto Matraga, de Guimarães Rosa. A trans­for­ma­ção inter­na do per­so­na­gem e o cará­ter míti­co, sobre-huma­no, que ele assu­me nes­sa tra­ves­sia são mate­ri­al de pri­mei­ra para a cri­a­ção artís­ti­ca. Em O regres­so o que se vê, no fim das con­tas, é uma catar­se mais rasa, a redu­ção de tudo a um esque­ma recor­ren­te no cine­ma ame­ri­ca­no, o do homem que se vin­ga de quem des­truiu sua famí­lia, ou, no caso, o que res­ta­va dela. Mas isso reves­ti­do de ima­gens gran­di­o­sas, retum­ban­tes, que ator­do­am o públi­co em vez de entre­tê-lo ou ilu­mi­ná-lo.

O filho de Saul

Outra obra em que a bru­ta­li­da­de está pre­sen­te, mas de uma manei­ra radi­cal­men­te dis­tin­ta, é O filho de Saul, do hún­ga­ro László Nemes, for­te­men­te cota­do para o Oscar de fil­me estran­gei­ro. Escrevi bre­ve­men­te sobre ele aqui quan­do foi exi­bi­do na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. É, a meu ver, um fil­me de gran­de cora­gem, rigor e impac­to.

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