Inferno, purgatório, céu

Cinema

25.05.15

Cannes. O fil­me que o júri do fes­ti­val esco­lheu para a Palma de Ouro, Dheepan, de Jacques Audiard, entre um pró­lo­go (a guer­ra civil em Sri Lanka) e um epí­lo­go (a famí­lia à sal­vo na Inglaterra) con­ta uma his­tó­ria de vio­lên­cia em tor­no de tra­fi­can­tes de dro­ga. É um fil­me divi­di­do em três par­tes, como se pri­mei­ra fos­se o infer­no, a segun­da e mais lon­ga o pur­ga­tó­rio e a ter­cei­ra o paraí­so. No pró­lo­go, algo como a expul­são do infer­no: com­ba­ten­te na guer­ra civil em Sri Lanka, Dheepan aban­do­na as armas. Para con­se­guir asi­lo polí­ti­co na França, simu­la uma famí­lia com uma mulher, Yalini, e uma meni­na, Illayal, como se fos­sem sua espo­sa e filha. Uma vez em ter­ri­tó­rio fran­cês, os três são envi­a­dos para um con­jun­to resi­den­ci­al con­tro­la­do pelo comér­cio de dro­gas na peri­fe­ria de uma gran­de cida­de. E enquan­to espe­ram docu­men­tos e a lega­li­za­ção do asi­lo, vivem como se fos­sem mes­mo uma famí­lia. Dheepan tra­ba­lha como zela­dor, Yalini como empre­ga­da domés­ti­ca, a meni­na vai para esco­la estu­dar fran­cês.

Cena de Dheepan

O pró­lo­go em Sri Lanka é fil­ma­do como se fos­se um noti­ciá­rio de tele­vi­são: a câme­ra, no meio dos acon­te­ci­men­tos, inte­res­sa­da em mar­car o ros­to sofri­do dos per­so­na­gens, regis­tra ligei­ras ano­ta­ções de um fim de bata­lha, da mui­ta gen­te à espe­ra de asi­lo num país euro­peu e do embar­que para a França. O epí­lo­go na Inglaterra é fil­ma­do qua­se como um anún­cio de tele­vi­são: o colo­ri­do cla­ro e sua­ve apa­re­ce mais que os per­so­na­gens e a câme­ra está dis­tan­te o sufi­ci­en­te para nar­rar toda a ação num úni­co pla­no. Na par­te cen­tral, no fil­me pro­pri­a­men­te dito, nem a apa­rên­cia rude do pró­lo­go nem a apa­rên­cia e abso­lu­ta tran­qui­li­da­de do epí­lo­go – mas um esta­do de ten­são per­ma­nen­te, pois, sem se afas­tar de Dheepan, Yalini e Illayal, a câme­ra vê de lon­ge, como quem espia às escon­di­das por uma fres­ta da jane­la, o que se pas­sa do outro lado da rua: o movi­men­to notur­no do comér­cio de dro­gas ou o con­fli­to entre os tra­fi­can­tes.

No cen­tro da ima­gem, o pro­ces­so de adap­ta­ção dos migran­tes ao mun­do fran­cês: a meni­na tem medo de ficar sozi­nha na esco­la; a mulher não sabe como tra­ba­lhar na casa de um velho senhor que não fala e mal con­se­gue se mover – quer ir embo­ra para a Inglaterra. Dheepan apren­de que seu tra­ba­lho de zela­dor deve ser fei­to entre as sete e onze da manhã, perío­do em que os negó­ci­os são inter­rom­pi­dos. A vio­lên­cia dos tra­fi­can­tes per­ma­ne­ce como um pano de fun­do para os migran­tes que, ingê­nu­os, tra­çam uma linha bran­ca em tor­no do pré­dio em que vivem para demar­car uma área des­mi­li­ta­ri­za­da, livre do con­fli­to arma­do entre os dife­ren­tes gru­pos de tra­fi­can­tes.

O dra­ma tem seu pon­to cul­mi­nan­te no ins­tan­te em que a guer­ra do outro lado da rua sal­ta para den­tro do espa­ço de Dheepan e ele é obri­ga­do a agir como quan­do era sol­da­do em Sri Lanka e, com coque­téis molo­tov e uma pis­to­la arran­ca­da das mãos de um tra­fi­can­te, entrar na guer­ra para pro­te­ger Yalini e Illayal. Mas aqui o que impor­ta não é pro­pri­a­men­te a ação, des­cri­ta nuns pou­cos pla­nos em que o herói cor­re, dis­pa­ra, sal­ta e, como em qual­quer fil­me de ação, der­ro­ta sozi­nho os tra­fi­can­tes. Em lugar de nar­rar uma his­tó­ria, Audiard com­põe um pai­nel da vio­lên­cia em tor­no da dro­ga nos con­jun­tos resi­den­ci­ais das peri­fe­ri­as da gran­de cida­de. Os migran­tes seri­am, então, uma qua­se pro­je­ção do pon­to de vis­ta de onde os fran­ce­ses vêem a guer­ra em tor­no do con­su­mo e dos negó­ci­os da dro­ga.

Cannes, este ano, foi um fes­ti­val espe­ci­al­men­te fran­cês. Cinco pro­du­ções fran­ce­sas entre os 19 títu­los na com­pe­ti­ção (Meu rei, A lei do mer­ca­do, Margherite e Julien, O vale do amor e Dheepan) e tam­bém um fil­me para a cerimô­nia de aber­tu­ra (Cabeça ergui­da) e outro para o encer­ra­men­to (O gelo e o céu — La gla­ce et le ciel de Luc Jacquet). O júri (pre­si­di­do pelos irmão Joel e Ethan Coen, Palma de Ouro no fes­ti­val de 1991 com Barton Fink), além da Palma para Jacques Audiard, pre­mi­ou Vincent Lindon, pela autu­a­ção em A lei do mer­ca­do (La Loi du mar­ché de Stéphane Brizé), e Emmanuelle Bercot (dire­to­ra da fil­me de aber­tu­ra) pela atu­a­ção em Meu rei (Mon Roi, de Maïween), com­par­ti­do com Rooney Mara por Carol (de Todd Haynes).

Os outros prê­mi­os foram: Grande Prêmio para O filho de Saul (Saul Fia, de László Nemes); prê­mio de dire­ção para Hou Hsiao-Hsien, por Assassino (Nie Ynniang); Prêmio espe­ci­al do júri para A lagos­ta (The Lobster de Yorgos Lanthimos); prê­mio de rotei­ro para Crônica (Chronic, de Michel Franco). A Palma de Ouro de cur­ta-metra­gem foi para a ani­ma­ção liba­ne­sa Waves’98 de Ely Dagher. A Câmera de Ouro foi para o fil­me colom­bi­a­no A ter­ra e a som­bra (La tier­ra y la som­bra, de César Augusto Acevedo).

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Correção

Em O aber­to, o fecha­do e o enfer­mei­ro de Cannes, publi­ca­do aqui na últi­ma sex­ta fei­ra 22, uma infor­ma­ção ine­xa­ta apon­ta­va o cur­ta-metra­gem Command Action como o úni­co fil­me bra­si­lei­ro num pro­gra­ma ofi­ci­al de Cannes, a Semana da Crítica. O erro já foi cor­ri­gi­do: Cannes exi­biu segun­do fil­me cur­to bra­si­lei­ro na Quinzena do rea­li­za­do­res, Quintal, de André Novais Oliveira. 

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