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Literatura

30.04.14

Retrato do escri­tor Rodolfo Walsh, um dos íco­nes da resis­tên­cia à dita­du­ra mili­tar Argentina, em uma mos­tra em Buenos Aires, em 2012

“A Máquina do Bem e do Mal” encer­ra a bem-vin­da publi­ca­ção da nar­ra­ti­va cur­ta com­ple­ta de Rodolfo Walsh no Brasil. O ter­cei­ro volu­me, orga­ni­za­do por Sérgio Molina e Rubia Prates Goldoni, assim como os ante­ri­o­res, “Essa Mulher e outros con­tos” (2010) e “Variações em Vermelho e outros casos de Daniel Hernández” (2011), amar­ra cabe­ça e cau­da ? um uró­bo­ro lite­rá­rio ? da pro­du­ção do refe­ren­ci­al escri­tor e jor­na­lis­ta argen­ti­no.

A vida de Walsh, de modo seme­lhan­te a outras víti­mas dos anos de chum­bo gros­so das dita­du­ras lati­no-ame­ri­ca­nas, adqui­riu con­tor­nos míti­cos com sua mor­te trá­gi­ca em 1977. Metralhado por mili­ta­res nas ruas de Buenos Aires cer­ca de um ano após a mor­te de sua filha em cir­cuns­tân­ci­as pare­ci­das, tinha cin­quen­ta anos de ida­de. Não havia outra manei­ra de pará-lo. No pre­fá­cio à con­clu­si­va anto­lo­gia recém edi­ta­da, Ricardo Piglia ana­li­sa o envol­vi­men­to pro­gres­si­vo do autor em con­sequên­cia de suas dife­ren­ças com o meio lite­rá­rio: “o uso polí­ti­co da lite­ra­tu­ra deve pres­cin­dir da fic­ção. Esse pare­ce ser o gran­de ensi­na­men­to de Walsh”.

Nascido em 1927 na pro­vín­cia patagô­ni­ca de Rio Negro, Rodolfo Jorge Walsh ini­ci­ou sua car­rei­ra lite­rá­ria como autor de con­tos poli­ci­ais. Trasladou o gêne­ro ali­e­ní­ge­na, de influên­ci­as nor­te-ame­ri­ca­na e ingle­sa, aos ambi­en­tes da Buenos Aires dos anos 50, publi­can­do com regu­la­ri­da­de em revis­tas de entre­te­ni­men­to. Depois dis­so, escre­veu duas peças de tea­tro e publi­cou três volu­mes de con­tos lite­rá­ri­os, “Os Ofícios Terrestres”, “Um Quilo de Ouro” e “Um Sombrio Dia de Justiça”, reu­ni­dos em “Essa Mulher?”.

À fatu­ra da expe­ri­ên­cia adqui­ri­da ante­ri­or­men­te no poli­ci­al, Walsh somou o uso letal que faz da elip­se. Tal recur­so deter­mi­na nos rela­tos (prin­ci­pal­men­te nos de “Essa Mulher”, porém tam­bém nos “Casos do Delegado Laurenzi”, qua­se um livro à par­te em “A Máquina?”) sua fisi­o­no­mia expe­ri­men­tal, que tam­bém pode ser reco­nhe­ci­da em “Operação Massacre”, repor­ta­gem lite­rá­ria pio­nei­ra na América Latina. O jor­na­lis­mo ali­a­do à mili­tân­cia pero­nis­ta foi simul­ta­ne­a­men­te a cruz e a espa­da do autor argen­ti­no. “Operação Massacre”, publi­ca­do em 1957, recons­trói com téc­ni­ca de fic­ção de sus­pen­se o fuzi­la­men­to clan­des­ti­no de 12 civis supos­ta­men­te envol­vi­dos em cons­pi­ra­ção con­tra a dita­du­ra que depu­se­ra Perón um ano antes. O rit­mo letár­gi­co impos­to por Walsh, reve­lan­do pou­co a pou­co o cará­ter dos envol­vi­dos, é tão ater­ro­ri­zan­te quan­to o epi­só­dio real.

Ao menos em ter­mos mor­fo­ló­gi­cos, os con­tos de “A Máquina do Bem e do Mal” estão mais pró­xi­mos daque­les reu­ni­dos em “Variações em ver­me­lho”. Desde seu rela­to inau­gu­ral, “As três noi­tes de Isaías Bloom” (1950), a redu­ção nar­ra­ti­va se apro­xi­ma da moral do uni­ver­so da fábu­la ou da pará­bo­la. Mesmo nar­ra­ti­vas fan­tás­ti­cas como “O Santo” e “O Xadrez e os Deuses”, nas quais a influên­cia de Borges se evi­den­cia, ope­ram com essa suges­tão ale­gó­ri­ca. A fic­ção madu­ra dos “Contos Finais” ? repre­sen­ta­da pelo con­to-títu­lo e o vio­len­to “A mulher proi­bi­da” ? coroa a lite­ra­tu­ra des­se escri­tor fun­da­men­tal, defi­ni­da por Rodolfo Walsh como “um avan­ço labo­ri­o­so atra­vés da pró­pria estu­pi­dez”.

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