International Pen Friends

Correspondência

03.09.12

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Ó meu lou­ro e doce como um bolo,

Amei o teu e-mail/ o teu e-mail amei/ ele me par­tiu ao meio/ eu ri tan­to que nem sei! Bah, vou pin­tar isso num azu­le­jo pra você. Ou não, enfim. Adorei a his­tó­ria e o poe­ma sobre a cami­sa que o Darkon Roque (não o conhe­ço) te deu. Confesso, porém, que tive difi­cul­da­de em te ima­gi­nar de cami­sa de linho bran­ca. Ornou com suas botas de cow­boy ou você tinha outro tipo de sapa­to para a oca­sião? Se bem que, levan­do-se em con­ta meu exí­guo guar­da-rou­pa, não sou nin­guém para jul­gar esse tipo de coi­sa.

Bueno, tô aqui no pátio da casa da minha irmã, no Laranjal, fuman­do um mata-ratos que meu padras­to me deu (ok, é um Shelton, cau­sa mor­tis de boa par­te da clas­se tra­ba­lha­do­ra, supo­nho) e tenho uma tér­mi­ca cheia de água quen­te pra esse mate que vou come­çar a sor­ver em ins­tan­tes. Como não cos­tu­mo fumar — só em casos res­pi­ra­tó­rio-exis­ten­ci­ais espe­cí­fi­cos — e tam­pou­co per­ten­ço à clas­se tra­ba­lha­do­ra, não será por este Shelton que virei a desen­car­nar, cer­to? Morrerei em Paris com agua­cei­ro? Prefiro não saber. E ago­ra me lem­brei de um namo­ra­di­nho que me dis­se, cer­ta vez, mui­to lúci­do, deci­di­do: “Quando eu mor­rer, doem meus órgãos todos e o res­to ati­rem pros cachor­ros”. A la pucha!

Que mara­vi­lha de ado­les­cên­cia, esta na Pelotas dos anos 80… Não tinha por­ra nenhu­ma pra se fazer aqui. Bom, con­ti­nua não ten­do, na ver­da­de. Uma coi­sa que me entre­ti­nha bas­tan­te era escre­ver car­tas. Minha ami­ga Paula D’Elia tinha des­co­ber­to, por meio de um pri­mo comis­sá­rio de bor­do que fazia voos inter­na­ci­o­nais via Varig, uma mis­te­ri­o­sa orga­ni­za­ção cha­ma­da International Pen Friends, com sede em Dublin, que fun­ci­o­na­va da seguin­te for­ma: você pre­en­chia uma ficha com seus dados (sexo, ida­de, idi­o­mas que fala­va, e ain­da esco­lhia os paí­ses onde que­ria cor­res­pon­den­tes) e man­da­va tudo com 10 dóla­res num enve­lo­pe pra eles. Meses depois, che­ga­va uma lis­ti­nha com nomes e ende­re­ços. Tinha gen­te da Irlanda, do Canadá, da Islândia. Era um bara­to! Você esta­va em Saco Escrotal do Brasil, RS, e de repen­te podia tro­car idei­as com uma ado­les­cen­te igual­men­te ente­di­a­da em Reykjavík. Uma mara­vi­lha. Ainda hoje me lem­bro do baru­lho que as car­tas fazi­am ao pas­sar por bai­xo da por­ta lá de casa. Sssvvvich!

Depois que che­gou a lis­ti­nha com os nomes e ende­re­ços, a Paula e eu nos jun­ta­mos vári­as vezes para redi­gir as mis­si­vas. Ela fala­va mais inglês do que eu, que anda­va aí pelo pri­mei­ro semes­tre do CCAA. Uma vez botei numa car­ta: “I have a cat. He sle­eps with me”. A Paula, sem­pre hones­ta, me cha­mou a aten­ção: “Mas o teu gato não dor­me con­ti­go!” Respondi: “Eu sei, mas é que apren­di a pala­vra sle­ep.”

Graças ao voca­bu­lá­rio adqui­ri­do com a Paula, meus pen fri­ends angló­fo­nos e a Bizz Letras Traduzidas, pude em alguns meses empre­en­der sozi­nha cons­tru­ções lexi­cais mais com­ple­xas para des­cre­ver meu dia-a-dia em Pelotas, a city in the south of Brazil. Quase todas as car­tas come­ça­vam com uma des­cri­ção do lugar em que me encon­tra­va, e tam­bém do meu esta­do de espí­ri­to. Do tipo: “Estou aqui na sala ouvin­do The Cure, é sába­do à tar­de, que saco, meu pai tá em casa e não me dei­xa levan­tar o volu­me do som. Mas quan­do tocar Caterpillar Girl, eu não que­ro nem saber”. E, cla­ro, em segui­da apa­re­cia alguém, irmã, mãe ou empre­ga­da, pra dizer as famo­sas cin­co pala­vras: “O pai pediu pra bai­xar”. E daí eu escre­via: “Meu pai pediu pra bai­xar o som. Típico. O seu pai tam­bém faz isso? Já vou apro­vei­tar para tro­car o lado da fita.” Tudo de extre­ma rele­vân­cia.

Meu pai se foi há vin­te e um anos, mas sem­pre tem alguém pedin­do pra bai­xar o som. Eu con­ti­nuo des­cre­ven­do o lugar onde estou e meu esta­do de espí­ri­to quan­do come­ço as car­tas — as raras que ain­da escre­vo. Mas tro­quei The Cure pela Karina Buhr. Você já ouviu a Karina Buhr? Tem que ouvir.

Pra ter­mi­nar, que­ria te con­tar sobre a minha pri­mei­ra cor­res­pon­den­te via International Pen Friends, a Louisa, uma meni­na dubli­nen­se. A gen­te se escre­veu por uns qua­tro anos, até o iní­cio da déca­da de 90, quan­do fui visi­tá-la. Infelizmente, a cor­res­pon­dên­cia não sobre­vi­veu àque­la sema­na jun­tas, em que falei — gros­sa que nem um dedo des­tron­ca­do — coi­sas como “O Rick Astley só pode ser gay” (ela gos­ta­va dele) e “Como assim você não ouve a Sinéad O’Connor?” Acabamos per­den­do con­ta­to. Googlei o nome dela duran­te anos, mas foi inú­til. A Louisa não dei­xa­va ras­tros na inter­net. Um dia, ao pon­de­rar sobre a vida offli­ne de minha ex-pen fri­end, escre­vi “Louisa, por que não me goo­glas?”. Vai aí abai­xo. (Ah, sim: ano pas­sa­do ela me adi­ci­o­nou no Facebook. Tinha casa­do e muda­do o sobre­no­me, por isso não a encon­tra­va. Está moran­do em Abu Dhabi. É tudo o que sei. Porque ela me adi­ci­o­nou e ficou por isso mes­mo. Nunca tro­ca­mos uma linha.)

loui­sa, por que não me goo­glas?

loui­sa, feve­rei­ro de 91
em dublin, lem­bras de mim?
qua­tro anos de car­tas e
che­guei à tua famí­lia, que me
tra­tou como filha, me entu­piu
de comi­da. pas­se­an­do
nos ôni­bus ver­de-ervi­lha,
como éra­mos sal­ti­tan­tes.
tu gos­ta­vas dos bea­tles, eu
gos­ta­va dos bea­tles. tu
gos­ta­vas de piz­za, eu
gos­ta­va de piz­za.
“e a sinéad o’connor
é uma gênia!”, eu bra­da­va
aos pas­san­tes.
tu dis­cor­das­te, séria.
eu calei, não que­ria agra­van­tes.
foi por­que a can­to­ra care­ca
ras­gou a foto do papa?
tu eras assim tão cató­li­ca?
deve­ri­as ter dito antes.
loui­sa, ain­da tenho as car­tas,
a fita das bana­na­ra­ma
toda enre­da­da. loui­sa,
por que não me goo­glas?

Com essa, me des­pe­ço.

Um bei­jo,

Angie F (era assim que eu assi­na­va)

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