Intocáveis, ou a salvação da Europa pelos negros

No cinema

30.08.12

Intocáveis é um fenô­me­no: lan­ça­do em novem­bro de 2011 na França, o fil­me de Olivier Nakache e Eric Toledano foi vis­to vis­to por 20 milhões de espec­ta­do­res em seu país, mais 8,5 milhões na Alemanha, 2,5 milhões na Itália e outros tan­tos na Espanha. O que expli­ca tama­nho suces­so?

Não tenho a res­pos­ta, mas nada me impe­de de lan­çar no ar alguns pal­pi­tes. Passemos rapi­da­men­te pelos atra­ti­vos óbvi­os do fil­me.

http://www.youtube.com/watch?v=FpwuGtn8aGA

Primeiro: seu pro­ta­go­nis­ta, ou um deles (o mili­o­ná­rio Philippe, vivi­do por François Cluzet), é um tetra­plé­gi­co. Filmes cen­tra­dos em per­so­na­gens com algum han­di­cap físi­co ou men­tal têm meio cami­nho anda­do para tocar o cora­ção do públi­co — vide Rain manMeu pé esquer­doPerfume de mulher, O oita­vo diaO paci­en­te inglês, O esca­fan­dro e a bor­bo­le­ta e inú­me­ros outros.

Segundo: é “base­a­do em uma his­tó­ria real”. Como bem obser­vou o escri­tor Bernardo Carvalho, a ima­gi­na­ção anda com o pres­tí­gio tão bai­xo em nos­sa épo­ca que a mera fic­ção não bas­ta; pre­ci­sa do aval dos “fatos reais”, de pre­fe­rên­cia com aque­les infa­mes letrei­ros finais infor­man­do que Fulano se casou com a secre­tá­ria e teve três filhos, Beltrano cum­pre pena num pre­sí­dio de segu­ran­ça máxi­ma e Sicrana ganhou uma heran­ça e foi viver no Havaí.

Velhas fór­mu­las, nova rou­pa­gem

É impres­si­o­nan­te que a esta altu­ra da cen­te­ná­ria his­tó­ria do cine­ma ain­da haja tan­ta gen­te que, ao ver um fil­me des­ses, acre­di­te estar dian­te da “his­tó­ria ver­da­dei­ra”, da vida como ela é, sem per­ce­ber que os fatos que supos­ta­men­te ins­pi­ra­ram a obra foram orga­ni­za­dos e mol­da­dos de manei­ra a se encai­xar em fór­mu­las dra­má­ti­cas e nar­ra­ti­vas de êxi­to com­pro­va­do. Podemos dizer, sem gran­de exa­ge­ro, que no cine­ma mains­tre­am, todas as his­tó­ri­as — “reais” ou inven­ta­das — se con­ver­tem numa úni­ca e mes­ma his­tó­ria, com duas ou três vari­a­ções, como bem sabe quem viu O joga­dor, de Robert Altman. Quem não viu, tem aqui como ape­ri­ti­vo o esplên­di­do pla­no-sequên­cia de aber­tu­ra, em que são esbo­ça­dos os argu­men­tos de vári­os fil­mes:

http://www.youtube.com/watch?v=0epB5Z6ijpk

Em Intocáveis reen­con­tra­mos, sob nova rou­pa­gem, os cli­chês dos fil­mes de “supe­ra­ção da adver­si­da­de”, soma­dos aos das comé­di­as dra­má­ti­cas de ami­za­de for­ja­da na dife­ren­ça (e na hos­ti­li­da­de ini­ci­al). Segue-se à ris­ca a tal “cur­va dra­má­ti­ca” que alter­na habil­men­te momen­tos de humor e dra­ma, de ten­são e riso.

Insinua-se, em meio a tudo isso, uma sáti­ra um tan­to dema­gó­gi­ca e peri­go­sa a valo­res e sig­nos da dita “alta cul­tu­ra”, a par­tir de um pon­to de vis­ta popular/moderno, evi­den­te­men­te com­par­ti­lha­do pela mai­or par­te do públi­co. Pelos olhos e ouvi­dos de Driss (Omar Sy), o acom­pa­nhan­te negro do mili­o­ná­rio tetra­plé­gi­co e ver­da­dei­ro con­du­tor da nar­ra­ti­va, a músi­ca de câma­ra é cha­ta, a ópe­ra é ridí­cu­la e a arte abs­tra­ta é um bor­rão sem sen­ti­do. Em con­tras­te, a vibra­ção pop-dan­çan­te do Earth, Wind and Fire é irre­sis­tí­vel. Para que o efei­to seja qua­se didá­ti­co, a fes­ta de ani­ver­sá­rio na casa de Philippe é de uma care­ti­ce atroz (e inve­ros­sí­mil para o per­so­na­gem, adep­to da moder­ni­da­de tec­no­ló­gi­ca e dos espor­tes radi­cais), mais pare­cen­do um con­cer­to de salão do sécu­lo 18.

Mas há, nes­se depar­ta­men­to, uma brin­ca­dei­ra mui­to sig­ni­fi­ca­ti­va no fil­me de Nakache e Toledano. Quando o mili­o­ná­rio ten­ta fazer seu cui­da­dor se inte­res­sar por músi­ca eru­di­ta, apre­sen­tan­do-lhe algu­mas peças mui­to conhe­ci­das de Vivaldi, Mozart e Beethoven, Driss reco­nhe­ce algu­mas: uma toca num comer­ci­al de tele­vi­são, outra é usa­da como gra­va­ção de espe­ra de um tele­mar­ke­ting e assim por dian­te. O efei­to é cômi­co, mas se tra­ta de uma pia­da amar­ga, por dizer mui­to sobre o modo como, em nos­so tem­po, a arte mais refi­na­da é apro­pri­a­da e avil­ta­da pela cul­tu­ra do con­su­mo.

Sacudindo a Europa estag­na­da

E é aqui, final­men­te, que che­ga­mos ao mais impor­tan­te. Para além do uso com­pe­ten­te de deter­mi­na­das fór­mu­las, todo fil­me que bate recor­des de bilhe­te­ria, atrain­do milhões de espec­ta­do­res, está sin­to­ni­za­do pro­fun­da­men­te com sua épo­ca. Expressa, por assim dizer, o “espí­ri­to do tem­po”. Arrisco dizer que Intocáveis é o fil­me que melhor res­pon­de, no pla­no do sen­so comum, às inqui­e­ta­ções da Europa em cri­se. Não rea­li­za uma crí­ti­ca em pro­fun­di­da­de des­se pro­ces­so — isso quem fez foi Godard em Filme soci­a­lis­mo, ou Olivier Assayas emHoras de verão -, mas ser­ve como leni­ti­vo para a afli­ção do cida­dão médio.

Talvez não seja des­pro­po­si­ta­do ver no mili­o­ná­rio tetra­plé­gi­co uma encar­na­ção da velha Europa, cheia de rique­za e cul­tu­ra, mas para­li­sa­da e impo­ten­te, que neces­si­ta da vita­li­da­de, do humor, da sen­su­a­li­da­de e do espí­ri­to cri­a­ti­vo do imi­gran­te  para se reno­var e ganhar uma sobre­vi­da. Essas carac­te­rís­ti­cas estão asso­ci­a­das, no ima­gi­ná­rio popu­lar, ao afri­ca­no, em espe­ci­al ao negro retin­to da África sub­sa­a­ri­a­na. Não deve ter sido por aca­so que os rea­li­za­do­res tro­ca­ram a naci­o­na­li­da­de do per­so­na­gem do cui­da­dor. O ver­da­dei­ro, Abdel Sellou, é arge­li­no. O do fil­me, Driss, é sene­ga­lês. Era pre­ci­so escu­re­cê-lo para que tudo ficas­se mais cla­ro.

Essa infu­são de san­gue novo vin­do da peri­fe­ria do mun­do para revi­ta­li­zar a Europa é um fato visí­vel hoje em toda par­te, da músi­ca popu­lar ao fute­bol, pas­san­do evi­den­te­men­te pelo cine­ma. O que o fil­me faz é  enfa­ti­zar isso. Driss tem as carac­te­rís­ti­cas ide­ais de um anjo rege­ne­ra­dor: não só devol­ve ao patrão a ale­gria de viver, como tam­bém resol­ve todos os pro­ble­mas em vol­ta, colo­can­do nos tri­lhos seu pró­prio irmão delin­quen­te, a filha ado­les­cen­te do mili­o­ná­rio, o namo­ra­do des­ta e até o vizi­nho que esta­ci­o­na o car­ro em local proi­bi­do.

Não dei­xa de ser lou­vá­vel a apre­sen­ta­ção posi­ti­va do imi­gran­te pobre e negro num momen­to em que recru­des­cem na Europa o racis­mo e a xeno­fo­bia dos gru­pos con­ser­va­do­res, sem­pre pron­tos a jogar no “outro” a cul­pa por suas maze­las. No fil­me, o imi­gran­te dei­xa de ser pro­ble­ma para se tor­nar solu­ção, e esse é seu gran­de méri­to.

O êxi­to estron­do­so de Intocáveis per­mi­te fazer algu­mas espe­cu­la­ções sel­va­gens: 1) o fil­me, se for ins­cri­to, é sério can­di­da­to ao pró­xi­mo Oscar de fil­me estran­gei­ro; 2) um rema­ke hollywo­o­di­a­no não deve demo­rar a ser cogi­ta­do, se é que ain­da não foi. Uma esco­lha óbvia para o papel do cui­da­dor seria Will Smith. E para o do mili­o­ná­rio… que tal Bill Murray?

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