#ironia

Recentemente a New York Magazine publi­cou um peque­no tex­to no qual são elen­ca­dos sete tipos de abu­sos no uso de hash­tags. Lá esta­vam os cri­mes de usá-las demais, de emen­dar pala­vras na sequên­cia de um mes­mo #, de repro­du­zi-las com os dedos na vida real ou men­ci­o­ná-las na con­ver­sa, como uma espé­cie de atu­a­li­za­ção do cos­tu­me de fazer aspas com os dedos no ar. No pano de fun­do des­sa lis­ta­gem de usos e abu­sos da hash­tag, está a cons­ta­ta­ção de que elas se tor­na­ram um fenô­me­no soci­al tão amplo quan­to as fer­ra­men­tas soci­ais nas quais sur­gi­ram. Talvez por isso nenhum dos peca­dos da hash­tag cha­me mais a aten­ção quan­to seu uso para demar­car iro­nia.

Como apa­re­ce fre­quen­te­men­te, a hash­tag se trans­for­ma numa espé­cie de comen­tá­rio em tem­po real do que a pes­soa está escre­ven­do. Ao ser lida des­sa for­ma, colo­ca sob sus­pei­ta tudo o que está sen­do dito. Porém ela não ter­mi­na por aí, pois se aque­le que a usa está dei­xan­do cla­ro que se dis­tan­cia do que diz, o lei­tor tam­bém sabe que não deve levar tão a sério o que tem dian­te dos olhos. Resumindo, a hash­tag irô­ni­ca é uma espé­cie de pis­ca­de­la por escri­to.

O que ela escon­de, então?

O sím­bo­lo da hash­tag é cons­ti­tuí­do por dois tra­ços hori­zon­tais para­le­los soma­dos de dois tra­ços ver­ti­cais, tam­bém para­le­los, que se sobre­põe, cru­zan­do-se. Embora suas ori­gens sejam incer­tas, sen­do tam­bém conhe­ci­do nos Estados Unidos como pound sign, uma vez que ser­ve de sím­bo­lo para a libra, as hashs migra­ram dos sis­te­mas de codi­fi­ca­ção de tele­ti­pos para os tele­fo­nes nor­te-ame­ri­ca­nos em mea­dos dos anos 1960 com o intui­to de desig­nar um núme­ro ou ramal. No Brasil, por sua vez, todos se lem­bram do sinal de jogo-da-velha — tão fora de moda quan­to as hash­tags são popu­la­res.

Na ciên­cia da infor­ma­ção, o # ser­ve de inde­xa­dor, reu­nin­do dife­ren­tes entra­das sob uma mes­ma for­ma­ta­ção. Realiza de modo for­mi­dá­vel a fun­ção de cata­lo­ga­ção das infor­ma­ções na inter­net, que no fun­do nada mais é que um gran­de arqui­vo.

Não dei­xa de ser com este intui­to que ela apa­re­ce pela pri­mei­ra vez nas mídi­as soci­ais, desig­nan­do, no IRC (pro­to­co­lo de comu­ni­ca­ção e tro­ca de arqui­vos popu­la­ri­za­do no Brasil atra­vés do cli­en­te mIRC na segun­da meta­de dos anos 1990), os dife­ren­tes canais que podem ser aces­sa­dos. Cada um, a prin­cí­pio, agru­pan­do infor­ma­ções dife­ren­tes — usuá­ri­os, con­ver­sas etc — sob um mes­mo prin­cí­pio, o nome que se seguia ao #. O sím­bo­lo, porém, real­men­te estou­ra com o Twitter e, logo depois, com o Tumblr. O cres­ci­men­to expo­nen­ci­al do uso des­sas fer­ra­men­tas for­çou até mes­mo outros sites, como o Facebook, a sucum­bir ao uso das hash­tags como ins­tru­men­to de inde­xa­ção — e, hoje em dia, qual­quer pes­soa que quei­ra comen­tar a pró­pria foto ou fazer um post na mai­or rede soci­al do mun­do, logo que come­çar a escre­ver verá que à direi­ta do sím­bo­lo de # se cria auto­ma­ti­ca­men­te um cam­po azul, como a demar­car um hyper­link. A par­tir daí, tudo que se escre­ve está sob a égi­de do gran­de inven­tá­rio de Mark Zuckerberg.

O suces­so do anti­go jogo-da-velha não se deve ape­nas à sua fun­ci­o­na­li­da­de na inter­net. Se hash­tags fun­ci­o­nas­sem ape­nas assim, bas­ta­ria cli­car em uma delas para ser­mos brin­da­dos com uma his­tó­ria da cul­tu­ra sen­do fei­ta ao vivo ou, ao menos, um con­jun­to vir­tu­al­men­te ili­mi­ta­do de pia­das, um 9gag fei­to por qual­quer pes­soa, não ape­nas pelos que pos­su­em uma con­ta no site core­a­no. A hash­tag irô­ni­ca mos­tra que ela não é usa­da para encon­trar infor­ma­ções novas ou para vas­cu­lhar as anti­gas, mas sim como um meta­co­men­tá­rio das pró­pri­as ações. Nesse momen­to, a his­tó­ria da # aban­do­na a ciên­cia da infor­ma­ção para explo­rar mais a fun­do a rela­ção entre homem, lin­gua­gem e inter­net.

O pri­mei­ro emo­ti­con foi inven­ta­do em 1982 por Scott Fahlman, cien­tis­ta da com­pu­ta­ção da Carnegie Mellon University, em uma men­sa­gem de um fórum onli­ne de sua uni­ver­si­da­de. Após o suces­so da pro­pos­ta, logo ela se espa­lhou para a ARPANET, ances­tral da inter­net moder­na. Não se sabe que tipo de faís­ca sur­giu na men­te de Fahlman, ou que tipo de refe­rên­ci­as lhe apa­re­ce­ram para encon­trar a ana­lo­gia entre os sinais de dois pon­tos, tra­ço e parên­te­se fecha­do e um ros­to feliz. Ao fazer isso, porém, ele des­ven­dou algo tão notá­vel quan­to banal 30 anos depois de seu fei­to: ain­da que a comu­ni­ca­ção na inter­net seja for­ma­da aci­ma de tudo por letras, a lin­gua­gem mane­ja­da por seus usuá­ri­os apro­xi­ma-se mais da fala. É por não ser nem uma coi­sa nem outra, e não pela fal­ta de uma eti­que­ta espe­cí­fi­ca (que aca­bou se desen­vol­ven­do sozi­nha, a des­pei­to de alguns manu­ais lan­ça­dos na déca­da de 1990), que às vezes é tão difí­cil encon­trar o tom cer­to num e-mail pro­fis­si­o­nal, quan­do não numa decla­ra­ção pes­so­al sig­ni­fi­ca­ti­va. A inter­net nos aju­da a comu­ni­car tudo que pre­ci­sa­mos, menos aqui­lo que que­re­mos dizer, inclu­si­ve as emo­ções.

O his­tó­ri­co das ten­ta­ti­vas de resol­ver as ambi­gui­da­des da lin­gua­gem escri­ta ocu­pa­ria mais espa­ço do que o dis­po­ní­vel aqui, toda­via essas ten­ta­ti­vas se tor­na­ram um expe­ri­men­to coti­di­a­no na medi­da em que se empu­nha a pala­vra escri­ta para expres­sar falas pela inter­net. Há algum tem­po, por exem­plo, come­çou-se a uti­li­zar o til antes e depois das pala­vras para mar­car sar­cas­mo e iro­nia. A hash­tag é ape­nas mais um des­ses dis­po­si­ti­vos inven­ta­dos para con­tro­lar a incon­gruên­cia entre inten­ção e expres­são, com o bônus de tor­nar mais fácil o que a inter­net mais pro­pi­cia: a pos­si­bi­li­da­de de ser irô­ni­co sem com­pro­mis­so algum.

Mas por que a iro­nia pre­ci­sa­ria de um sinal espe­cí­fi­co? Bem uti­li­za­da, a iro­nia pode gerar uma expe­ri­ên­cia de deses­ta­bi­li­za­ção radi­cal, cri­an­do uma situ­a­ção de incer­te­za que bei­ra o ceti­cis­mo e, aci­ma de tudo, arris­can­do-se a lan­çar escri­tor e lei­tor (ou falan­te e ouvin­te) na incom­pre­en­são e no ridí­cu­lo. Atualmente, porém, quan­do a iro­nia se tor­nou um modo de vida, é tam­bém um meio para não assu­mir res­pon­sa­bi­li­da­de por todas as pala­vras que se lan­ça por aí, ou seja, um meio de evi­tar o ridí­cu­lo e remo­ver qual­quer ris­co da con­vi­vên­cia soci­al. Em caso de dúvi­da a res­pei­to do bom gos­to de algum comen­tá­rio, bas­ta adi­ci­o­nar uma hash­tag.

Um tex­to recen­te que fez bas­tan­te suces­so pela inter­net defen­dia que vive­mos numa soci­e­da­de que sofre de um exces­so de iro­nia e que, como res­pos­ta, é pre­ci­so aban­do­ná-la. Gostaria de pen­sar que não é neces­sa­ri­a­men­te ruim viver numa soci­e­da­de satu­ra­da de iro­nia, des­de que se deci­da assu­mir os ris­cos — e acei­tar as con­sequên­ci­as — de se esco­lher outra iro­nia.

*  Pedro Telles da Silveira é his­to­ri­a­dor e medi­a­dor da Fundação Iberê Camargo.

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