Ivan viu o mundo

Literatura

10.06.12

Tudo o que pode ser dito do Ivan Lessa não che­gou a ser dito pelo Ivan Lessa.

Roubei dele a ideia des­sa fra­se, fra­se da aber­tu­ra de seu tex­to sobre a mor­te do Millôr (há pou­co mais de dois meses), e modi­fi­quei um pou­qui­nho para não pegar mal. Porque ele, Ivan, foi sem­pre elíp­ti­co demais, cifra­do demais para, assim, de pron­to, “dizer-se” como os mor­tos cos­tu­mam se expli­car pelo Google na buro­cra­cia dos obi­tuá­ri­os.

Não o conhe­ci e o entre­vis­tei pelo tele­fo­ne, há mui­tos anos, quan­do lan­çou as crô­ni­cas Ivan vê o mun­do, livro orga­ni­za­do pela Helena Carone, então sua com­pa­nhei­ra de reda­ção da BBC. Me dis­se ele que, pou­co antes de tocar o tele­fo­ne, tinha rece­bi­do em casa CDs do Orlando Silva que havia enco­men­da­do na Revivendo. E me con­tou a his­tó­ria para mos­trar como era sua rela­ção com o Brasil, o que nun­ca esque­ci (e cer­ta­men­te pio­ro mui­to citan­do de memó­ria):

O Brasil está sem­pre vol­tan­do para mim. Quando era cri­an­ça, gos­ta­va de chu­tar a bola con­tra a arre­ben­ta­ção no Posto 5 e o mar devol­via a bola. O Brasil é assim, eu chu­to e ele vol­ta”.

Sempre me intri­gou que Ivan vives­se num Rio de Janeiro ima­gi­ná­rio, devi­da­men­te aze­da­do (ou refor­ça­do, vai saber) quan­do este­ve aqui pela últi­ma vez em “vin­te oito anos, seis meses e sete dias” (nas suas con­tas) para escre­ver “Eu conhe­ço esse cara”, crô­ni­ca-diá­rio  publi­ca­da no pri­mei­ro núme­ro da  piauí .

A ida­de me fez enten­der melhor, no entan­to, que a General Osório pode, sim, fazer esqui­na com a Charing Cross. E, tam­bém, enten­der melhor o Ivan Lessa.

Pois na pri­mei­ra vez que o li,  Os garo­tos da fuzar­ca, não pes­quei nada ou qua­se nada. Adolescentes de clas­se média alta cur­ran­do e assas­si­nan­do uma empre­ga­da em Copacabana ou o cul­to da musa do esfínc­ter rosa era Rio de Janeiro de 1950 demais para um subur­ba­no com vin­te e pou­qui­nhos anos nos anos 80.

Mas ali tinha algo.

Quando come­cei a gos­tar de Frank Sinatra, um dos mui­tos ana­cro­nis­mos de minha defor­ma­ção musi­cal, fui parar no Billy Eckstine por cau­sa dele. Ou, sei lá, por cau­sa do Paulo Francis falan­do do pai­xão de Ivan pelo vozei­rão de “I apo­lo­gi­ze” . Ali, defi­ni­ti­va­men­te, tinha mui­ta coi­sa.

Nada, aliás, que esse tre­cho do “Pasquim” de 1970 não resu­ma. Chama-se “Canção da vol­ta” — ao Rio, natu­ral­men­te: “O seio da famí­lia bra­si­lei­ra tem um bicão roxo e duro. As pes­so­as de olhos e nariz ver­me­lhos cor­rem o ris­co de pas­sa­rem por sub­ver­si­vas. Há um exces­so de ban­dei­ras em todas as par­tes. Já no Flag, nin­guém dá ban­dei­ra”.

E que tam­bém seja difí­cil de enten­der com a lei­tu­ra de “Eles foram para Petrópolis”, a pira­dís­si­ma cor­res­pon­dên­cia com Mario Sergio Conti que dei mui­to de pre­sen­te. Valia, acho, por seu email rea­gin­do à mor­te da mãe, Elsie Lessa, e pelo pas­ti­che de um caso do dou­tor Freud, que depois de uma com­pli­ca­dís­si­ma asso­ci­a­ção de idéi­as, o dou­tor Sig con­clui que tudo aqui­lo não sig­ni­fi­ca­va nada. Nadinha.

Nesta que fica sen­do sua “últi­ma colu­na” na BBC, cheia de reca­dos sobre a mor­te que fazem a delí­cia do jor­na­lis­mo pre­mo­ni­tó­rio (mas que, con­ve­nha­mos, devi­am ser roti­na na cabe­ça de quem anda­va mui­to doen­te aos 77 anos), Ivan está tinin­do: pou­co impor­ta onde o tex­to pode ir ou te levar,  o que inte­res­sa é o cami­nho e o quan­to ele supor­ta de iro­nia, escra­cho, brin­ca­dei­ra de mole­que, melan­co­lia, amar­gu­ra. Um tex­to daque­les que, para cor­rer como con­ver­sa, pre­ci­sa de tra­ba­lho de peão.

Ele tinha hor­ror a cli­chê e vou ficar por aqui antes que fale de uma “per­da” ou que o ima­gi­ne “encon­tran­do o Millôr”. Prefiro, como tri­bu­to,  virar um Coronel Kurtz dos pobres dian­te da man­che­te que vejo na web:

Avesso a bada­la­ções, escri­tor Ivan Lessa será cre­ma­do”.

Mas não sei se gri­to ou se caio na gar­ga­lha­da.

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