Janaína é uma bola

Colunistas

13.04.16

Fazia tem­po que eu não ria tan­to como na sema­na pas­sa­da, quan­do assis­ti ao vídeo do dis­cur­so de Janaína Paschoal, a musa do impe­a­ch­ment, na Faculdade de Direito da USP. O vídeo  cir­cu­lou pela inter­net em mais de uma ver­são. Preferi a ori­gi­nal, nua e crua, à ver­são cover do Iron Maiden, na qual Janaína tam­bém se sai mui­to bem. Soube que algu­mas femi­nis­tas fica­ram indig­na­das com o escár­nio públi­co, como se as pia­das pro­vo­ca­das pelo vídeo (pare­ce que tam­bém hou­ve agres­sões infe­li­zes e sem humor, o que cos­tu­ma ser regra na inter­net e é sem­pre lamen­tá­vel) fos­sem diri­gi­das às mulhe­res em geral e não a Janaína em par­ti­cu­lar. Ao con­trá­rio des­sas femi­nis­tas, fiquei feliz de não ter nada a ver com ela. Na ver­da­de, fiquei eufó­ri­co. O riso (pro­vo­ca­do pela per­for­man­ce e não pelas pia­das) se mis­tu­rou com a feli­ci­da­de de enfim ter cer­te­za, depois de tan­tos moti­vos para dúvi­da nas últi­mas sema­nas, de que estou no cam­po cer­to.

A per­for­man­ce de Janaína é con­sequên­cia de uma soci­e­da­de midiá­ti­ca, de expo­si­ção abso­lu­ta, que des­nor­teia os indi­ví­du­os entre BBBs, Facebook e o mun­do das cele­bri­da­des. Ninguém vê, por exem­plo, obs­ce­ni­da­de algu­ma em a mulher de um juiz em prin­cí­pio sério e idô­neo, que faz um tra­ba­lho impor­tan­te con­tra a cor­rup­ção no país, abrir uma pági­na no Facebook com o títu­lo “Moro com ele” (tro­ca­di­lho com o nome do mari­do), para agra­de­cer o apoio e as cen­te­nas de milha­res de men­sa­gens de cari­nho da popu­la­ção. Se nin­guém vê, não sou eu que vou expli­car.

Janaína, coau­to­ra do pedi­do de impe­a­ch­ment da pre­si­den­te, atu­al­men­te em vota­ção no Congresso, levan­tou e girou a ban­dei­ra bra­si­lei­ra, gri­tou e pulou no palan­que, agi­tan­do os cabe­los de um lado para o outro (em uma clás­si­ca mani­fes­ta­ção de head­ban­ging) à manei­ra do líder de uma ban­da heavy metal dian­te da pla­teia de fãs. Alguns inter­nau­tas com­pa­ra­ram sua atu­a­ção com a da peque­na Linda Blair, em “O Exorcista” (Janaína não gira o pes­co­ço). Outros, a uma pas­to­ri­nha que eu não conhe­ço. Em todo caso, a des­pei­to de a prin­ci­pal pro­ta­go­nis­ta garan­tir que não tem nada a ver nem com uma coi­sa nem com a outra – e sua famí­lia decla­rar que, por cau­sa de seu posi­ci­o­na­men­to polí­ti­co, ela tem medo de seus filhos serem agre­di­dos na rua –, fiquei com medo de Janaína. Menos pela vio­lên­cia de sua per­for­man­ce do que por seu aspec­to cla­ra­men­te mes­si­â­ni­co.

O que me dei­xou com medo no dis­cur­so de Janaína foi sua men­ção a Deus con­tra a cor­rup­ção. Janaína diz no vídeo que seu pai lhe expli­cou, quan­do ela era peque­na, que Deus não dá asas às cobras. Bem, pode ser que Deus não dê asas às cobras, mas a natu­re­za as dá (ou já as deu), a jul­gar pelas evi­dên­ci­as cien­tí­fi­cas de que, antes de os homens darem o ar de sua gra­ça nes­te pla­ne­ta, alguns rép­teis voa­vam pela Terra. A con­cep­ção que Janaína tem de cobras com asas é medi­e­val (ou qui­xo­tes­ca, em sua extem­po­ra­nei­da­de) e reme­te à ima­gem de São Jorge e do dra­gão (nem é pre­ci­so escla­re­cer com qual dos dois quem não quer pagar nem pato nem impos­to se iden­ti­fi­ca, erro­ne­a­men­te). No vídeo, Janaína diz que algu­mas cobras cri­am asas a des­pei­to da von­ta­de de Deus (ou seja, cri­am asas por obra da natu­re­za) e que nes­sa hora só res­ta a Deus envi­ar sua legião para cor­tar as asas da cobra.

É assus­ta­dor. Não vamos acu­sar Janaína de hipo­cri­sia ou de má-fé, por­que a vee­mên­cia do seu dis­cur­so alo­pra­do lhe garan­te a vera­ci­da­de dos mís­ti­cos e dos pas­to­res. Agradecemos que nos tenha pro­por­ci­o­na­do bons momen­tos de diver­são, mas é pre­ci­so escla­re­cer alguns pon­tos antes que seja tar­de. Não é Deus quem com­ba­te a cor­rup­ção. Se fos­se assim, a cor­rup­ção sim­ples­men­te ine­xis­ti­ria e as igre­jas seri­am espa­ços ima­cu­la­dos, de lisu­ra e reti­dão. Não são. A cor­rup­ção é obra dos homens e deve ser com­ba­ti­da pelos homens, em nome da jus­ti­ça entre os homens. É teme­ro­so quan­do juris­tas dei­xam de enten­der isso. É quan­do, fas­ci­na­dos pelo cla­mor das ruas, con­fun­dem os prin­cí­pi­os de jus­ti­ça e igual­da­de com o direi­to divi­no, do qual se arvo­ram em por­ta-vozes, sal­va­do­res da pátria que, por esta­rem à fren­te de legiões de fiéis, falan­do em nome de Deus, jamais esta­rão sujei­tos à cor­rup­ção do dia­bo ou de cobras que ganham asas. Conhecemos a his­tó­ria. Desta vez, é só pia­da, né?

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