Jango, Hitler, Berlusconi — política é o fim?

No cinema

19.07.13

Jango, Hitler, Berlusconi - política é o fim?

O gover­na­dor do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, no intui­to de des­qua­li­fi­car os pro­tes­tos dian­te de sua casa, dis­se dias atrás que eles tinham “cará­ter polí­ti­co”. Descobriu a pól­vo­ra. Da mis­sa do papa à para­da gay, da mar­cha das vadi­as ao show de funk, da pas­se­a­ta evan­gé­li­ca ao pas­seio ciclís­ti­co, tudo é polí­ti­ca, pois reve­la uma posi­ção dos indi­ví­du­os e gru­pos no con­ví­vio com o outro, com os outros, com a polis.

Nestes tem­pos con­tur­ba­dos, nem o cine­ma é um refú­gio segu­ro para quem qui­ser esca­par da polí­ti­ca. Se, ao menos vir­tu­al­men­te, todo fil­me é polí­ti­co, há aque­les em que a polí­ti­ca é o cer­ne, o ner­vo, a subs­tân­cia. É o caso de três títu­los em car­taz nos cine­mas: Dossiê Jango, Hannah Arendt e A bela que dor­me.

O pri­mei­ro é um docu­men­tá­rio bra­si­lei­ro diri­gi­do por Paulo Henrique Fontenelle e pro­du­zi­do pelo Canal Brasil. Essa ori­gem tele­vi­si­va é res­pon­sá­vel pelo for­ma­to de gran­de repor­ta­gem do fil­me, e tal­vez expli­que tam­bém a esca­la­ção de Cacá Diegues, Luiz Carlos Barreto e Zelito Vianna — figu­rões do refe­ri­do canal — para dizer pla­ti­tu­des logo no iní­cio da nar­ra­ção.

http://www.youtube.com/watch?v=29XzBNAxgTk

Mas depois o docu­men­tá­rio engre­na, com pre­ci­o­sas ima­gens de arqui­vo e depoi­men­tos de quem de fato tem o que dizer sobre o assun­to: paren­tes do bio­gra­fa­do (em espe­ci­al o filho, João Vicente Goulart, ver­da­dei­ro con­du­tor da repor­ta­gem), asses­so­res, jor­na­lis­tas que cobri­am o cen­tro do poder e até agen­tes clan­des­ti­nos da fami­ge­ra­da Operação Condor, tene­bro­sa ação con­jun­ta dos gover­nos mili­ta­res do Cone Sul para eli­mi­nar opo­si­to­res.

O obje­ti­vo expres­so do fil­me é for­çar a rea­ber­tu­ra das inves­ti­ga­ções sobre a mor­te do ex-pre­si­den­te João Goulart, a par­tir da sus­pei­ta de que ele pode não ter mor­ri­do “de mor­te mor­ri­da” em sua fazen­da na Argentina, mas sido víti­ma de um meti­cu­lo­so assas­si­na­to, dig­no de um fil­me de dete­ti­ve. Missão cum­pri­da: saí­mos do cine­ma no míni­mo com a pul­ga atrás da ore­lha.

O clí­max do docu­men­tá­rio é a con­fron­ta­ção, numa pri­são bra­si­lei­ra, entre João Vicente Goulart, sob o dis­far­ce de repór­ter da TV Senado, e o ex-agen­te uru­guaio da Operação Condor Mario Barreiro Neira, que par­ti­ci­pou da espi­o­na­gem e do cer­co a Jango na Argentina. A sur­pre­sa cons­tran­gi­da de Barreiro quan­do João Vicente reve­la sua iden­ti­da­de é um momen­to de alta den­si­da­de dra­má­ti­ca, daque­les que a fic­ção rara­men­te alcan­ça.

No mais tra­ta-se de uma pro­du­ção bas­tan­te con­ven­ci­o­nal, na linha dos docu­men­tá­ri­os polí­ti­cos de Silvio Tendler, com uma con­du­ção uní­vo­ca (de todos os depoi­men­tos, só um, o do his­to­ri­a­dor Moniz Bandeira, refu­ta a tese do assas­si­na­to) e o uso abu­si­vo da músi­ca para indu­zir emo­ção.

Banalidade do mal

Mais sóbrio e pro­ble­ma­ti­za­do, para­do­xal­men­te, é o retra­to fic­ci­o­nal que Margarethe von Trotta faz da pen­sa­do­ra ale­mã Hannah Arendt no fil­me que leva o nome des­ta.

A nar­ra­ti­va se des­lo­ca entre dois polos: a refle­xão de Hannah (a extra­or­di­ná­ria Barbara Sukowa) sobre a bana­li­da­de do mal, fei­ta a par­tir de sua obser­va­ção do jul­ga­men­to do cri­mi­no­so nazis­ta Adolf Eichmann em Israel, e sua con­tro­ver­ti­da rela­ção amo­ro­sa com o filó­so­fo Martin Heidegger (Klaus Pohl), ele pró­prio sim­pa­ti­zan­te do nazis­mo.

http://www.youtube.com/watch?v=2SG9ZlXdUDY

É admi­rá­vel o modo como a vete­ra­na dire­to­ra de Rosa Luxemburgo e Os anos de chum­bo con­ci­lia a expres­são da suti­le­za e da ambi­gui­da­de dos per­so­na­gens com um esti­lo nar­ra­ti­vo sóli­do e ine­xo­rá­vel, daque­les em que um pla­no pare­ce “exi­gir” o pla­no seguin­te — numa espé­cie de tele­o­lo­gia nar­ra­ti­va que tem raí­zes em Fritz Lang.

Do ínti­mo ao polí­ti­co

O tam­bém vete­ra­no Marco Bellocchio, que sem­pre bus­cou o lugar geo­mé­tri­co entre Eros e a polis, ou entre o sexo e a polí­ti­ca, atin­ge o ápi­ce da matu­ri­da­de éti­ca e artís­ti­ca com o esplên­di­do A bela que dor­me. Em tor­no do epi­só­dio real da jovem ita­li­a­na Eluana Englaro, que levou duran­te 17 anos uma vida vege­ta­ti­va, até que os apa­re­lhos que a ali­men­ta­vam foram des­li­ga­dos, o cine­as­ta tece uma teia de situ­a­ções-limi­te nas quais se tra­ta sem­pre de deci­dir sobre a vida ou a mor­te de uma pes­soa.

Além da polê­mi­ca reli­gi­o­sa, o caso Eluana pro­du­ziu uma cri­se polí­ti­co-ins­ti­tu­ci­o­nal pro­fun­da na Itália, pois o então pri­mei­ro-minis­tro Silvio Berlusconi ten­tou mudar a cons­ti­tui­ção para pas­sar por cima da deci­são da Suprema Corte de per­mi­tir o des­li­ga­men­to dos apa­re­lhos, soli­ci­ta­do pelo pai da moça.

http://www.youtube.com/watch?v=BXw749IkU4A

Se a ques­tão saiu do foro ínti­mo para a esfe­ra públi­ca, pro­vo­can­do uma con­fla­gra­ção que divi­diu a Itália e reper­cu­tiu em todo o mun­do, o que Bellocchio faz, de cer­to modo, é devol­vê-la ao âmbi­to pri­va­do, que é por defi­ni­ção o espa­ço da éti­ca e das con­vic­ções pes­so­ais.

A pro­e­za do cine­as­ta é con­cen­trar suas múl­ti­plas ações em dois dias e duas noi­tes, ten­do como fio con­du­tor a cober­tu­ra oni­pre­sen­te da mídia do caso Eluana e como pano de fun­do a som­bra opres­si­va do Vaticano. As diver­sas situ­a­ções para­le­las apre­sen­ta­das per­mi­tem-lhe exa­mi­nar qua­se como um ento­mó­lo­go o sen­ti­men­to da com­pai­xão, sem per­der de vis­ta o que ele con­tém de vai­da­de e, even­tu­al­men­te, de sado­ma­so­quis­mo. Um gran­de fil­me, em suma.

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