Japão, Ucrânia, compaixão, brutalidade

No cinema

15.05.15

Dois fil­mes vin­dos do les­te – um do Japão, outro da Ucrânia – inun­dam as telas bra­si­lei­ras com a dor huma­na. Ambos são de dire­to­res estre­an­tes e foram pre­mi­a­dos em impor­tan­tes fes­ti­vais inter­na­ci­o­nais (o japo­nês em Berlim, o ucra­ni­a­no em Cannes). E as coin­ci­dên­ci­as param por aí. Não pode­ria haver dois fil­mes mais con­tras­tan­tes que O dese­jo da minha alma, de Masakazu Sugita, e A gan­gue, de Miroslav Slaboshpitsky, sobre­tu­do na manei­ra como enca­ram e expõem o duro des­ti­no de seus per­so­na­gens.

O fil­me de Sugita é um dra­ma deli­ca­do cujos pro­ta­go­nis­tas são uma meni­na de uns dez anos, Haruna (Ayane Ohmori) e seu irmão mais novo, Shota, que per­de­ram os pais num ter­re­mo­to. A ação come­ça jus­ta­men­te entre os escom­bros da casa da famí­lia. A catás­tro­fe já acon­te­ceu, e o que acom­pa­nha­re­mos a seguir será o modo como cada um dos irmãos vai ela­bo­rá-la inter­na­men­te.

Eis aí a dis­cre­ta pro­e­za de Sugita (que viven­ci­ou, aos 14 anos, o ter­re­mo­to de Hanshin, em 1995): embo­ra toda a nar­ra­ti­va seja obje­ti­va, exte­ri­or, expo­si­ti­va, é pelos olhos das cri­an­ças que vemos a dolo­ro­sa rea­co­mo­da­ção da vida, como quem obser­va pla­cas tectô­ni­cas se rea­jus­tan­do depois de um cata­clis­mo.

Eterno reco­me­ço

São cenas do dia a dia de um reco­me­ço: uma via­gem de bar­co até a cida­de dos tios que os aco­lhe­rão como filhos; o pri­mei­ro dia na esco­la; a divi­são dos espa­ços na nova casa; a rela­ção pro­ble­má­ti­ca com o pri­mo um pou­co mais velho, até então “filho úni­co”. Tudo vis­to como que de sos­laio, por uma fres­ta de por­ta. E aque­la facul­da­de de con­tem­pla­ção da pai­sa­gem físi­ca e huma­na (as esta­ções, os ele­men­tos, as ocu­pa­ções) de que os japo­ne­ses pare­cem mes­tres ina­tos – em algu­ma medi­da, todos filhos de Yasujiro Ozu.

Cena de O desejo da minha alma, de Masakazu Sugita

A dor irre­pa­rá­vel da per­da, a soli­dão abso­lu­ta, a angús­tia do que é inco­mu­ni­cá­vel, tudo isso pare­ce ganhar ain­da mais pun­gên­cia pelo modo sin­ge­lo e silen­ci­o­so como é mos­tra­do. Ao mes­mo tem­po, uma sere­ni­da­de a um pas­so da resig­na­ção pare­ce pai­rar sobre o dra­ma, sua­vi­zan­do-o. Talvez seja isso a tão bus­ca­da cons­ci­ên­cia zen de flu­xo con­tí­nuo da exis­tên­cia.

A gan­gue

A com­pai­xão (enten­di­da como “par­ti­ci­pa­ção espi­ri­tu­al na infe­li­ci­da­de alheia”) que trans­bor­da de cada pla­no de O dese­jo da minha alma pare­ce total­men­te ausen­te de A gan­gue. Aqui, pre­do­mi­na um retra­to cru e impla­cá­vel das pio­res carac­te­rís­ti­cas do com­por­ta­men­to huma­no em soci­e­da­de. Com uma sin­gu­la­ri­da­de que refor­ça o aspec­to de pará­bo­la do rela­to: tudo se pas­sa entre sur­dos-mudos de um inter­na­to.

A ausên­cia abso­lu­ta de diá­lo­gos (tudo se comu­ni­ca pela lin­gua­gem dos sinais) e de músi­ca cria um incô­mo­do exa­cer­ba­do pela dura­ção dos pla­nos, des­de o pri­mei­ro, um enqua­dra­men­to fixo em que vemos o ado­les­cen­te Sergei (Grigoriy Fesenko) pedir num pon­to de ôni­bus infor­ma­ções sobre como che­gar ao inter­na­to. A ima­gem é per­tur­ba­da pelos car­ros e ôni­bus que pas­sam entre a câme­ra e os per­so­na­gens, bem como pelo ruí­do dos moto­res. Uma senho­ra aju­da com ace­nos o rapaz – e este é pra­ti­ca­men­te o úni­co ges­to de gen­ti­le­za que vere­mos no fil­me.

A par­tir do momen­to em que Sergei ingres­sa no inter­na­to, mer­gu­lha­mos num mun­do de rela­ções vici­o­sas em que estão pre­sen­tes os pro­ble­mas crô­ni­cos da soci­e­da­de con­tem­po­râ­nea: vio­lên­cia, cor­rup­ção, rou­bo, trá­fi­co, pros­ti­tui­ção – tudo isso poten­ci­a­li­za­do pelo con­fi­na­men­to e pela con­di­ção espe­ci­al dos per­so­na­gens. A vio­lên­cia segue num cres­cen­do qua­se insu­por­tá­vel.

Paroxismo de bru­ta­li­da­de

A ideia de cons­truir um micro­cos­mo defor­ma­do da soci­e­da­de huma­na como pesa­de­lo ou ale­go­ria faz pen­sar em fil­mes como Também os anões come­ça­ram peque­nos (1970), de Werner Herzog, ou Os meni­nos (1976), de Narciso Ibáñez Serrador. Mas há algo que soa dema­si­a­do arti­fi­ci­al em A gan­gue. Depois do espan­to das pri­mei­ras cenas, a mudez dos per­so­na­gens – não ape­nas dos inter­nos, mas tam­bém das pes­so­as com quem se rela­ci­o­nam extra­mu­ros – come­ça a reve­lar-se pou­co mais que um tru­que, um estra­ta­ge­ma con­ce­bi­do para isso mes­mo, para cau­sar espan­to.

Cena de A gangue, de Miroslav Slaboshpitsky

Do mes­mo modo, a sime­tria do rela­to, evi­den­te na sequên­cia final, que obser­va meti­cu­lo­sa­men­te um paro­xis­mo de bru­ta­li­da­de, pare­ce trair no míni­mo uma indi­fe­ren­ça, no máxi­mo um sadis­mo, dian­te do des­ti­no dos per­so­na­gens. Mas tal­vez esta apre­ci­a­ção crí­ti­ca este­ja con­ta­mi­na­da pelos sen­ti­men­tos sus­ci­ta­dos pelo outro fil­me, o japo­nês. Paciência. Os fil­mes são vasos comu­ni­can­tes, e a emo­ção de um pode vazar para outro, como o som de uma sala inva­de às vezes a sala vizi­nha.

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