Japonês da pátria filho

Literatura

18.12.12

Haruki Murakami, o mai­or escri­tor japo­nês vivo, é bem peque­ni­ni­nho. De cor­po com­pac­to e maci­ço, não che­ga ao metro e seten­ta. Aparenta menos de que seus 63 anos, mas sem aque­la tez acrí­li­ca dos botox da vida. Afável e poli­do, é visi­vel­men­te tími­do. Para deli­ne­ar o per­fil dele, recor­ro a uma arti­ma­nha: seguir as miga­lhas de pão seme­a­das nos mean­dros da flo­res­ta das suas 47 obras — jazz, humor, lite­ra­tu­ra poli­ci­al, Scott Fitzgerald, expa­tri­a­men­to.  No fim, a empa­tia vai ser tan­ta que cru­za­re­mos a meta ombro a ombro e a para­da será resol­vi­da no pho­to­fi­nish. Aliás, Murakami é mara­to­nis­ta (per­dão, ultra­ma­ra­to­nis­ta — a ultra­ma­ra­to­na impli­ca 100 quilô­me­tros de cor­ri­da. Bem, aí ces­sam as empa­ti­as, devi­do à emba­ra­ço­sa dife­ren­ça dos piques).

Tímido não quer dizer tíbio. Esse tam­pi­nha per­fi­la­do à minha fren­te, com um sor­ri­so ine­vi­ta­vel­men­te ama­re­lo engas­ta­do no ros­to jovi­al, desa­fi­ou um dos esta­blish­ments cul­tu­rais mais sedi­men­ta­dos do mun­do e aguen­tou o tran­co: riu por últi­mo e melhor. Traduzido para 40 lín­guas, é arroz de fes­ta nas apos­tas anu­ais para o Nobel. A publi­ca­ção de cada títu­lo dele é pre­ce­di­da de sali­va­ção e fogue­tó­rio pla­ne­tá­ri­os, dig­nos do lan­ça­men­to de uma nova gerin­gon­ça moder­no­sa da Apple. No final do ano pas­sa­do, na vés­pe­ra da dis­tri­bui­ção de seu roman­ce mais recen­te, 1Q84, milha­res de tie­tes per­noi­ta­ram na cal­ça­da das prin­ci­pais livra­ri­as de Nova York, como suce­dâ­ne­os adul­tos dos tie­tes de Harry Potter. É impos­sí­vel pen­sar em outro escri­tor con­tem­po­râ­neo cujas estrei­as se trans­fi­gu­rem em even­tos cul­tu­rais nos seis con­ti­nen­tes (com a pos­sí­vel exce­ção da Antártida).

Uma das idi­os­sin­cra­si­as da obra de Murakami é a com­bi­na­ção ino­pi­na­da de rea­lis­mo meti­cu­lo­so e fan­ta­sia qua­se dadaís­ta, em doses mais ou menos cava­la­res. Quando a gen­te refle­te melhor, cai a ficha: tem tudo a ver com o Japão, um país onde os oxi­mo­ros andam de bra­ço dado (a pró­pria pala­vra ?oxí­mo­ro’ soa japo­ne­sa…). Em Tóquio, por exem­plo, a tra­di­ção fos­si­li­za­da con­vi­ve com o futu­ris­mo visi­o­ná­rio. Bairros povo­a­dos por tipos mais fleu­má­ti­cos do que um mor­do­mo vito­ri­a­no con­fi­nam com encla­ves bar­ras-pesa­das (como Kabuki-Cho, api­nha­do de cafe­tões, mere­tri­zes e mafi­o­sos com pin­ta de nin­jas). Introspectivos, os japo­ne­ses ido­la­tram a pri­va­ci­da­de e o espa­ço indi­vi­du­al — mes­mo no metrô, em cujos vagões da hora do rush não cabe nem mais um quark. Em con­tra­par­ti­da, nas metró­po­les nipô­ni­cas pro­li­fe­ram sig­nos lúdi­co-pue­ris, como os ina­cre­di­tá­veis gati­nhos e demais bes­tiá­rio dos semá­fo­ros (as his­tó­ri­as em qua­dri­nhos impreg­nam todo o coti­di­a­no japo­nês). Ou a emble­má­ti­ca e bre­guís­si­ma está­tua do cão Akita, per­to da esta­ção Hachi e do shop­ping Shibuya, um dos pon­tos de encon­tro mais popu­la­res da capi­tal japo­ne­sa. Consta que o totó exis­tiu de ver­da­de, e per­ma­ne­ceu naque­le local anos a fio, espe­ran­do com fide­li­da­de cani­na o dono que já mor­re­ra. A mai­o­ria dos japo­ne­ses acha essa his­to­ri­nha tão subli­me como a mais fabu­lo­sa das cos­mo­lo­gi­as.

Embora não se redu­za a ela, Murakami é um pro­du­to sin­gu­lar des­sa lam­ban­ça antro­po­ló­gi­ca, um ava­tar do baby boom do Japão pós-guer­ra, com sua poro­ro­ca de ame­ri­ca­nis­mo galo­pan­te e ances­tra­li­da­de mile­nar. Seu avô era um sacer­do­te budis­ta, mas tan­to o pai quan­to a mãe leci­o­na­vam lite­ra­tu­ra japo­ne­sa. Durante os fani­qui­tos pro­ver­bi­ais da ado­les­cên­cia, Haruki deu uma bana­na para a cul­tu­ra nipô­ni­ca, per­fi­lhan­do cons­ci­en­te­men­te a influên­cia oci­den­tal, sobre­tu­do a made in USA. O inglês dele tem o tim­bre dia­man­ti­no de Oxbridge (tra­du­ziu Fitzgerald, um de seus mais for­tes fra­qui­nhos), com léxi­co e pro­nún­cia impe­cá­veis, mes­mo nos temí­veis erres em que os ori­en­tais cos­tu­mam der­ra­par.

O pró­prio Murakami entre­ga o ouro: “Quando era jovem, não liga­va abso­lu­ta­men­te nada para os fic­ci­o­nis­tas japo­ne­ses. Queria fugir da nos­sa cul­tu­ra, que con­si­de­ra­va con­for­mis­ta e tedi­o­sa. Apaixonei-me pela cul­tu­ra oci­den­tal: jazz, Dostoiévski, Raymond Chandler, Kafka. Essa é que era a minha praia, a minha ter­ra da fan­ta­sia. Agora qual­quer um vai para os Estados Unidos, mas nos anos 60 a con­ver­sa era outra. Assim, eu via­jei para a América pri­mei­ro atra­vés da músi­ca e da lite­ra­tu­ra. Absorvi até o tuta­no o esti­lo dos escri­to­res oci­den­tais.”

Negligenciei a dica de um ami­go (não por sovi­ni­ce mas por sim­ples dis­tra­ção), para que levas­se uma lem­bran­ci­nha às duas secre­tá­ri­as de Murakami e apa­re­ci de mãos aba­nan­do. Apesar dis­so, ele se man­te­ve um amor de pes­soa, mes­mo quan­do men­ci­o­nei dois de seus desa­fe­tos entre os pares japo­ne­ses. O pri­mei­ro é Mishima, que come­teu sep­pu­ku em 1970, depois de uma des­tram­be­lha­da ten­ta­ti­va de gol­pe de Estado, que aca­bou mal e por­ca­men­te. Mishima era ao mes­mo tem­po ultra­na­ci­o­na­lis­ta e maca­ca de audi­tó­rio da lite­ra­tu­ra fran­ce­sa. Murakami detes­ta-o cor­di­al­men­te. O outro é o Nobel da lite­ra­tu­ra Kenzaburo Oe, que bai­xou o sar­ra­fo nos pri­mei­ros roman­ces de Murakami, bran­din­do o aná­te­ma de “escri­tor pop” — ou seja, um pas­tel de ven­to, com a pro­fun­di­da­de de um dedal. Murakami com­pre­en­si­vel­men­te não engo­liu o sapo, mas, por outro lado, nun­ca auto­ri­zou a tra­du­ção dos seus dois pri­mei­ros títu­los para o inglês. Para bom enten­de­dor, meio ide­o­gra­ma bas­ta.

Não obs­tan­te meu mico diplo­má­ti­co, o meu inter­lo­cu­tor não arque­ou uma sobran­ce­lha nem pipo­cou. Toco o bon­de: “Com seu pri­mei­ro livro (não edi­ta­do em por­tu­guês), ganhou um prê­mio logo de cara. Ficou ami­go de outros escri­to­res japo­ne­ses?” “Não.” “Não tem nenhum ami­go do ramo a quem mos­tre seus manus­cri­tos?” “Nenhum. Mostro-os à minha mulher. Yoko. Ela está para mim como Zelda esta­va para Scott Fitzgerald.” Recordo-me de que Zelda mor­reu num manicô­mio, doi­da var­ri­da, e faço figa para que não acon­te­ça o mes­mo à mada­me Murakami.  Mas con­ti­nuo cutu­can­do a onça com vara cur­ta: “Nunca se sen­tiu par­te de uma comu­ni­da­de de escri­to­res?” “Jamais. Sou um lobo soli­tá­rio. Desagradam-me os cená­cu­los, cape­li­nhas, cas­tas e tri­bos lite­rá­ri­as. Em Princeton, havia uma espé­cie de lan­cho­ne­te, onde eu cos­tu­ma­va tomar as refei­ções. Joyce Carol Oates e Toni Morrison apa­re­ci­am por lá, e eu fica­va tão inti­mi­da­do com a pre­sen­ça delas que não con­se­guia dar uma gar­fa­da. Saía de fini­nho, mor­ren­do de fome…”

Murakami tem um escri­tó­rio em Tóquio, onde faz con­ta­tos edi­to­ri­ais, escre­ve oca­si­o­nal­men­te e espo­ra­di­ca­men­te rece­be a impren­sa — nun­ca, jamais, em tem­po algum a tele­vi­si­va, que con­si­de­ra excre­men­tí­cia e não quer ver nem pin­ta­da. Fica no sex­to andar de um edi­fí­cio atar­ra­ca­do e vetus­to na rua prin­ci­pal de Aoyama, um bair­ro fer­vi­lhan­te de buti­ques, que os nati­vos gos­tam de com­pa­rar ao SoHo nova-ior­qui­no (uma ana­lo­gia esta­pa­fúr­dia).

Continuo com a pul­ga atrás da ore­lha por cau­sa da sim­bi­o­se Oriente-Ocidente na obra de Murakami. Os japo­ne­ses são tão cio­sos de sua iden­ti­da­de que têm até um alfa­be­to espe­cí­fi­co para pala­vras impor­ta­das, o kata­ka­na. Ou me enga­no mui­to, ou é aí que mora o peri­go. Será?  “Já é um lugar-comum os crí­ti­cos o des­cre­ve­rem como o mais oci­den­tal dos escri­to­res ori­en­tais. De uma vez por todas, como enca­ra sua rela­ção com a cul­tu­ra de seu país? “Nunca me pas­sou pela cabe­ça escre­ver sobre estran­gei­ros ou paí­ses estran­gei­ros. Meus per­so­na­gens são japo­ne­ses, assim como o cená­rio onde nas­cem, vivem e mor­rem. Admito que meus livros podem ser bas­tan­te aces­sí­veis aos oci­den­tais, porém minhas his­tó­ri­as não são oci­den­ta­li­zan­tes. E inú­me­ras refe­rên­ci­as que soam oci­den­tais aos lei­to­res ame­ri­ca­nos ou euro­peus — os Beatles, por exem­plo — já são tam­bém par­te inte­gran­te da cul­tu­ra japo­ne­sa. Quando escre­vo sobre pes­so­as comen­do um Big Mac num McDonald’s, os lei­to­res oci­den­tais estra­nham: “Mas por que esse per­so­na­gem está comen­do ham­búr­guer em vez de tofu?” Esquecem que comer ham­bur­guers é nor­ma­lís­si­mo para nós, um hábi­to coti­di­a­no…”

Não vi como era nos anos 60, mas hoje os japo­ne­ses são cra­ques no sin­cre­tis­mo cul­tu­ral. Nas tar­des de domin­go, no jar­dim Meiji em Harajuku, um for­mi­guei­ro de jovens e coro­as pra­ti­ca o “cos­play”, uma arte per­for­má­ti­ca na qual os par­ti­ci­pan­tes ves­tem fan­ta­si­as e aces­só­ri­os estram­bó­li­cos para repre­sen­tar um deter­mi­na­do per­so­na­gem, cujas fon­tes prin­ci­pais são os man­gá, os hen­tai e as his­tó­ri­as em qua­dri­nhos de modo geral. Ora, a pou­cos metros dali, outra tri­bo sara­co­teia ale­gre­men­te para­men­ta­da de roc­ka­billys (a fusão de rock e coun­try, cujo padro­ei­ro é Johnny Cash). Tudo pací­fi­co — tan­to que vol­ta e meia uns exa­mi­nam os outros de sos­laio e tro­cam de lugar numa pro­mis­cui­da­de edê­ni­ca.

Pouco antes de ter­mi­nar os estu­dos, Murakami abriu um café em Tóquio — à noi­te, a sim­pá­ti­ca espe­lun­ca vira­va um clu­be de jazz, cha­ma­do Peter Cat. Lá, o futu­ro escri­tor asso­bi­a­va e chu­pa­va cana: “Eu cor­ta­va cebo­la em rode­las fini­nhas como péta­las — e não cho­ra­va nun­ca! Também fazia coque­téis e ape­ri­ti­vos. E de vez em quan­do dava uns toques no pia­no. Ainda hoje escre­vo como quem toca.” Ele pode não subs­cre­ver Paul Valéry, segun­do o qual toda arte aspi­ra à músi­ca — mas é fis­su­ra­do num acor­de. Muitos de suas obras têm desig­na­ções ou temas deri­va­dos da músi­ca clás­si­ca, como as três seções de Crônica do pás­sa­ro de cor­da: a pega ladra (como a ópe­ra de Rossini), O pás­sa­ro enquan­to pro­fe­ta (de uma peça para pia­no de Schumann) e O caça­dor de pas­sa­ri­nhos (per­so­na­gem de Mozart em A flau­ta mági­ca). Outros títu­los da “mura­ka­mia” reme­tem ao uni­ver­so pop, como nos roman­ces Dance, Dance, Dance (alu­são a uma can­ção dos The Dells, como me garan­tiu o autor, e não a um suces­so dos Beach Boys, como se pre­su­me por aí), Norwegian Wood (a par­tir da músi­ca dos Beatles) e A sul da fron­tei­ra, A oes­te do Sol (refe­rên­cia a um hit de Nat King Cole). Um dos seus con­tos mais fas­ci­nan­tes inti­tu­la-se A garo­ta de Ipanema 1963–1982 (eis o come­ci­nho, em tra­du­ção dile­tan­te):

“Em 1963 a garo­ta de Ipanema con­tem­pla­va o mar. E ago­ra, em 1982,  obser­va o mar do mes­mo jei­to. Ela não enve­lhe­ceu des­de então. Está con­fi­na­da numa ima­gem e flu­tu­an­do no oce­a­no do tem­po. Se hou­ves­se enve­lhe­ci­do, teria hoje qua­se qua­ren­ta anos. Claro que é pos­sí­vel que não este­ja tão velha, mas pode não já não ser uma coi­sa tão lin­da e cheia de gra­ça como cos­tu­ma­va ser. Talvez tenha três filhos. O bron­ze­a­do não é bom para a pele.Talvez ain­da pos­sa ser con­si­de­ra­da uma bel­da­de, porém não tão viço­sa quan­to há vin­te anos.”

Nem pen­sem que a ques­tão pas­sa­rá bati­da. “Do pon­to de vis­ta lite­rá­rio, o que sig­ni­fi­ca para o senhor o jazz e a músi­ca em geral?”Uma influên­cia mui­to, mui­to for­te. Ouço jazz e outros gêne­ros des­de os tre­ze anos. Quis ser músi­co, mas não toca­va real­men­te bem nenhum ins­tru­men­to, por isso me tor­nei escri­tor. Escrever um livro é como tocar uma músi­ca: pri­mei­ro abor­do o tema, depois impro­vi­so, em segui­da há uma con­clu­são de algum tipo. Além do jazz, tam­bém gos­to de músi­ca clás­si­ca, espe­ci­al­men­te bar­ro­ca. Ah, e no meu roman­ce Kafka na praia, o jovem pro­ta­go­nis­ta ouve Radiohead e Prince. Fiquei espan­ta­do ao saber que alguns mem­bros dos Radiohead gos­tam dos meus livros…”

Murakami estu­dou Teatro na Universidade de Tóquio. É um pré­dio insí­pi­do, ama­re­lo-bana­na, com uma tor­re meti­da a bes­ta e jane­las ogi­vais. Pertinho dali, a um tiri­co de gar­ru­cha (nem dez minu­tos a pé), fica o alo­ja­men­to pri­va­do de estu­dan­tes onde o escri­tor viveu nos anos aca­dê­mi­cos. Outro edi­fí­cio boro­coxô, com uma facha­da envi­dra­ça­da de aquá­rio. Não mudou uma vír­gu­la em qua­ren­ta anos. Para inú­me­ros jovens japo­ne­ses, aqui­lo é um san­tuá­rio. Trata-se do cená­rio de Norwegian Wood, que a inér­cia de alguns crí­ti­cos bati­zou de “O Apanhador no cam­po de cen­teio de Haruki Murakami”. OK, o fato de Murakami ter tra­du­zi­do para o japo­nês o clás­si­co nii­lis­ta de J. D. Salinger foi uma mão na roda. Norwegian Wood tur­bi­nou Murakami de autor cult a best-sel­ler gor­go­le­jan­te. A obra foi edi­ta­da em dois volu­mes sepa­ra­dos, mas ven­di­dos em con­jun­to — um de capa ver­me­lha e o outro de capa ver­de. Tendo em con­ta o núme­ro de cópi­as ven­di­das, é como se cada lar no Japão pos­suís­se exem­plar.

Acossado pela ambi­va­lên­cia da noto­ri­e­da­de, o escri­tor deci­diu esfri­ar a morin­ga. Sem cho­ro nem vela, via­jou pela Europa e se ins­ta­lou nos Estados Unidos, como “fel­low” da Universidade de Princeton, onde acam­pou duran­te cin­co anos. Foi ali que escre­veu A sul da fron­tei­ra, a oes­te do Sole Crônica do pás­sa­ro de cor­da(para mim seu melhor livro até ago­ra). Levanto a fami­li­ar bola do expa­tri­a­men­to, uma assis­tên­cia per­fei­ta para ele cor­tar. “Como é escre­ver no estran­gei­ro?” “Bem, vivi vári­os anos nos EUA como um estra­nho. Esse ?estra­nha­men­to’ sem­pre me seguiu como uma som­bra, e o mes­mo acon­te­ce ao pro­ta­go­nis­ta de Crônica do Pássaro de Corda. Quando pen­so no assun­to, con­cluo que, se o livro fos­se escri­to no Japão,  seria uma obra mui­to dife­ren­te. O mais engra­ça­do é que a estra­nhe­za que sen­tia na América é dife­ren­te da estra­nhe­za que sin­to ain­da hoje no Japão. Lá, essa sen­sa­ção era mui­to mais óbvia e cla­ra, e isso me pro­por­ci­o­nou mui­to mais acui­da­de na per­cep­ção de mim mes­mo. De cer­ta for­ma, escre­ver aque­le livro foi um pro­ces­so de auto­des­nu­da­men­to, um strip-tea­se onto­ló­gi­co.”

Na últi­ma déca­da, Murakami ente­sou­rou prê­mi­os bada­la­dos em tudo quan­to é can­to — fora o Nobel, no qual ele con­ti­nua baten­do na tra­ve. No ano pas­sa­do, embol­sou o pres­ti­gi­o­so prê­mio Internacional da Catalunha. Antes, já rece­be­ra o prê­mio Kafka, em Praga, e os dou­to­ra­men­tos hono­ris cau­sa das Universidades de Liége e Princeton. Durante a cerimô­nia na Catalunha (onde ocor­reu o meu segun­do encon­tro com o autor), Murakami con­de­nou a polí­ti­ca nucle­ar do Japão, invo­can­do o desas­tre nos rea­to­res de Fukushima. Se a mai­or par­te dos jovens japo­ne­ses não sabe, não quer saber e tem rai­va de quem sabe do que acon­te­ceu em Hiroxima e Nagasaki, não é por fal­ta de peda­gó­gi­cos pitis do escri­tor. Em Barcelona, Murakami recor­dou o holo­caus­to dos “hiba­kusha” (como são conhe­ci­das as víti­mas de Hiroxima e Nagasaki) e botou a boca no trom­bo­ne: “Em vez de as pes­so­as se ques­ti­o­na­rem sobre a segu­ran­ça da ener­gia nucle­ar, des­car­tam como ?sonha­do­res irre­a­lis­tas’ aque­les que se opõem a ela.“E não ficou só no ber­rei­ro: doou os 80 mil euros do prê­mio aos desa­bri­ga­dos que o cata­clis­mo gerou.

Por vezes acu­sa­do de ven­der sua alma ao Belzebu oci­den­tal, o patri­o­tis­mo de Murakami não per­de uma opor­tu­ni­da­de de bater o pon­to. Ele resol­veu encer­rar o auto­e­xí­lio e regres­sar à base quan­do sou­be do ter­re­mo­to de Kobe, em 2005, logo segui­do do ata­que ter­ro­ris­ta da sei­ta Aum Shinrikyo con­tra o metrô de Tóquio, com gás Sarin. Escreveu uma obra de não fic­ção ins­pi­ra­da pelo segun­do epi­só­dio, Underground. É um livro magis­tral e excru­ci­an­te (só há edi­ção por­tu­gue­sa), ali­nha­va­do em entre­vis­tas com algu­mas víti­mas e mem­bros da sei­ta.

O patri­o­tis­mo de Murakami não tem um grão de chau­vi­nis­mo. Ele dá uma no cra­vo e outra na fer­ra­du­ra dos trau­mas cole­ti­vos. Se em Undergroundtrans­pa­re­ce um amor res­sa­bi­a­do e sofri­do pelo Japão, em Crônica do pás­sa­ro de cor­da o escri­tor pas­sa a pen­te fino — ain­da que num regis­tro roma­nes­co e não his­to­ri­o­grá­fi­co — o melin­dro­so epi­só­dio dos cri­mes de guer­ra japo­ne­ses em Manchukuo, no nor­des­te da China, duran­te a II Guerra Mundial. Por essas e outras, o autor de Norwegian Wood aca­bou assu­min­do, deva­gar e sem­pre, o esta­tu­to de cons­ci­ên­cia naci­o­nal do Japão. Nada mal para quem, no iní­cio da car­rei­ra, amar­ga­va o rótu­lo de escri­tor pop.

Essa dimen­são supra-lite­rá­ria de Murakami pas­sou por uma pro­va dos nove quan­do, em 2009, lhe foi atri­buí­do o Jerusalém Prize — pou­co depois de Israel bom­bar­de­ar a Faixa de Gaza. Para nume­ro­sos auto­res, a hon­ra­ria pode­ria sig­ni­fi­car uma rou­ba­da daque­las. Houve pro­tes­tos no Japão e em mui­tos outros paí­ses, incluin­do ame­a­ças de boi­co­te à sua obra, se acei­tas­se a dis­tin­ção. Murakami com­prou a bri­ga e via­jou para Jerusalém, se tor­nan­do o pri­mei­ro escri­tor não euro­peu a ganhar o prê­mio. Durante seu dis­cur­so de quin­ze minu­tos, expli­cou que com­pa­re­ceu à cerimô­nia “por que falar é melhor do que calar.” E con­de­nou a polí­ti­ca de Israel para a Palestina, nas bar­bas dos mais pro­e­mi­nen­tes e cris­pa­dís­si­mos dig­ni­tá­ri­os isra­e­len­ses. Consta que o silên­cio na sala era tan­to que dava para ouvir o tique-taque dos reló­gi­os de pul­so. No final, foi ova­ci­o­na­do pela esma­ga­do­ra mai­o­ria das sete­cen­tas pes­so­as pre­sen­tes. Claro que tem sem­pre um cha­to­nil­do: Murakami ain­da esta­va dobran­do as folhas do dis­cur­so quan­do um homem ido­so se levan­tou intem­pes­ti­va­men­te, voci­fe­ran­do que se sen­tia ultra­ja­do com as pala­vras do pre­mi­a­do e que este cus­pia no pra­to que comia. Murakami con­si­de­rou que já tinha ven­di­do o seu pei­xe e se abs­te­ve de rodar a bai­a­na.

Voltando à vaca fria, peço ao meu inter­lo­cu­tor que des­cre­va um típi­co dia na vida de Haruki Murakami. “Quando enga­to a pri­mei­ra para escre­ver um roman­ce, acor­do às qua­tro da manhã e tra­ba­lho duran­te umas seis horas segui­das. À tar­de, cor­ro dez quilô­me­tros ou nado 1500 metros — ou, ain­da, faço as duas coi­sas. Depois leio e ouço músi­ca. Vou dor­mir às nove da noi­te. Mantenho essa roti­na todo san­to dia, sem falhar um. A pró­pria repe­ti­ção des­se ritu­al é impor­tan­te — uma for­ma de auto­su­ges­tão. Obviamente, para con­ser­var essa dis­ci­pli­na duran­te um perío­do rela­ti­va­men­te lon­go — de seis meses a um ano -, é neces­sá­ria for­ça men­tal e físi­ca. Nesse sen­ti­do, escre­ver cor­res­pon­de a uma espé­cie de trei­no de sobre­vi­vên­cia. Pode pare­cer esqui­si­to, mas para mim a sen­si­bi­li­da­de artís­ti­ca impli­ca vita­li­da­de físi­ca.”

Penso com os meus botões que Mishima tam­bém era entu­si­as­ta do ades­tra­men­to cor­po­ral: malha­va mais do que um des­ses tro­glo­di­tas bur­ral­dos do Big Brother e Fazenda, con­fun­din­do cul­tu­ra com cul­tu­ris­mo. Mas a rela­ção de Murakami com os exer­cí­ci­os físi­cos é desen­ca­na­da e tera­pêu­ti­ca. Mais até: algo como as duas faces de uma mes­ma moe­da de yen: uma lite­rá­ria e outra espor­ti­va.

Ele se com­praz em con­tar a his­tó­ria de sua epi­fa­nia voca­ci­o­nal, duran­te um jogo de base­ball entre o Yakult Swallows e o Hiroxima Carp, no Jingu Stadium. No pre­ci­so momen­to em que o reba­te­dor ame­ri­ca­no Dave Hilton atin­giu a bola com o taco, as musas ater­ris­sa­ram em Murakami de mala e cuia. Ele desem­bes­tou para o com­pu­ta­dor arqui­ban­ca­das abai­xo, com o pri­mei­ro roman­ce qui­can­do na pon­ta da lín­gua. Nunca mais parou de cor­rer, tan­to em sen­ti­do figu­ra­do como lite­ral. Aos 33 anos, virou mara­to­nis­ta e até ultra­ma­ra­to­nis­ta, par­ti­ci­pan­do da pro­va de 100 quilô­me­tros em redor do lago Saroma, em Hokkaido. Em 2008, já era um papa-léguas tão cale­ja­do que publi­cou o ensaio De que fala­mos quan­do fala­mos de cor­ri­da, uma obra que só de folhe­ar a gen­te fica com cãi­bras. Depois dis­so, o tri­a­tlo pare­cia can­ja e não deu outra: ele se tor­nou tam­bém um tri­a­tle­ta.

Vamos nes­sa que é bom à beça: “O senhor come­çou a cor­rer para com­ba­ter o pro­ver­bi­al seden­ta­ris­mo dos escri­to­res?” “Você acer­tou na mos­ca: a pri­mei­ra moti­va­ção foi por que não que­ria embo­lo­rar e empe­nar, como tan­tos escri­to­res. Mas depois a ati­vi­da­de físi­ca inten­sa se enre­dou umbi­li­cal­men­te na minha cri­a­ti­vi­da­de artís­ti­ca. Tome os casos de Michael Jordan ou Roger Federer, por exem­plo. Claro que o talen­to ina­to con­ta, mas são neces­sá­ri­as mui­tís­si­mas horas de prá­ti­ca para que esse dom se des­ti­le em ver­da­dei­ra gran­de­za. No pro­ces­so cri­a­ti­vo acon­te­ce mais ou menos a mes­ma coi­sa. Além do talen­to, a cri­a­ção de um gran­de roman­ce requer outro fator cru­ci­al que é o foco, a capa­ci­da­de de con­cen­trar­mos todas as nos­sas apti­dões e ener­gi­as num deter­mi­na­do obje­ti­vo num deter­mi­na­do momen­to. Mas uma ter­cei­ra vir­tu­de deci­si­va é a resis­tên­cia. Se você não con­se­gue cum­prir a asce­se de escre­ver qua­tro horas por dia e con­ser­var o foco duran­te um ano ou dois, pode tirar o cava­li­nho da chu­va e mudar de pro­fis­são. Muito do que apren­di sobre a escri­ta, apren­di enquan­to cor­ria. São lições bem prá­ti­cas. Até onde pos­so me pres­si­o­nar? Quanto des­can­so é apro­pri­a­do, e quan­to é exces­si­vo? Tenho cer­te­za abso­lu­ta de que, se não fos­se um cor­re­dor de lon­gas dis­tân­ci­as, a minha obra teria sido com­ple­ta­men­te dife­ren­te.”

Ainda estou de olho na recei­ta do bolo. “O senhor faz mui­tas revi­sões nos manus­cri­tos dos roman­ces?” “Obsessivamente. O pri­mei­ro ras­cu­nho é uma bagun­ça com­ple­ta. Corrijo e cor­ri­jo. Faço umas cin­co ou seis ver­sões. Acho que o padrão é mais ou menos este: seis meses escre­ven­do a pri­mei­ra ver­são, depois mais um seis ou sete meses escre­ven­do as seguin­tes que forem neces­sá­ri­as. Creio que sou até bas­tan­te rápi­do. Mas me alheio total­men­te de tudo que não seja a escri­ta.”

1Q84, o últi­mo roman­ce de Murakami, ecoa a dis­to­pia canô­ni­ca de George Orwell: em japo­nês, 1Q84 se pro­nun­cia “ichi kyu hachi yon”, a mes­mís­si­ma arti­cu­la­ção de 1984. Conta a his­tó­ria de Aomane, uma pro­fes­so­ra de artes mar­ci­ais que é assas­si­na nas horas vagas e aca­ba res­va­lan­do para uma espé­cie de outra dimen­são quân­ti­ca, e de Tengo, que leci­o­na mate­má­ti­ca e dá uma mão­zi­nha a uma jovem de 17 anos na dis­pu­ta de um prê­mio lite­rá­rio. As rotas de Aomane e de Tengo con­ver­gem numa his­tó­ria de amor de ying e yang.

Por falar em Aomane, como é a repre­sen­ta­ção do mulhe­rio na obra de Murakami? Será que ele é capaz — ou se inte­res­sa — do tra­ves­tis­mo lite­rá­rio, como Chico Buarque ao assu­mir per­so­nas femi­ni­nas nas can­ções? Murakami cru­za os bra­ços no pei­to (uma ati­tu­de defen­si­va, segun­do a vul­ga­ta psi­co­ló­gi­ca). “Na minha pro­sa, as mulhe­res são médiuns.” Engulo em seco e gague­jo men­tal­men­te: será que ele quer dizer médium como, sei lá, Chico Xavier? Mas o escri­tor entre­ga o ouro: “A fun­ção de uma médium é fazer algo se mani­fes­tar atra­vés dela. O pro­ta­go­nis­ta é con­du­zi­do a um deter­mi­na­do momen­to do des­ti­no pela médium, e as visões que ele des­cor­ti­na lhe são apre­sen­ta­das por ela. Repare: em minha opi­nião, o sexo é uma espé­cie de auto­com­pro­me­ti­men­to. Se o sexo é bom, suas feri­das serão cura­das e sua ima­gi­na­ção é revi­go­ra­da. Trata-se de um rito de pas­sa­gem para um pata­mar mais ele­va­do e mais gra­ti­fi­can­te. É nes­se sen­ti­do que nas minhas his­tó­ri­as as mulhe­res são médiuns, arau­tos de um mun­do vir­tu­al. E é por isso que elas sem­pre vão até o meu pro­ta­go­nis­ta, em vez de o meu pro­ta­go­nis­ta ir até elas.”

A mulhe­ra­da é um assun­to dema­si­a­do sério para os homens — daí, pro­va­vel­men­te, o tom sole­ne e hie­rá­ti­co, qua­se litúr­gi­co, da res­pos­ta aci­ma. Felizmente, em seus livros Murakami é bem mais irre­ve­ren­te e bur­les­co, con­tras­tan­do com os outros escri­to­res japo­ne­ses, que ten­dem a ser gra­ves ou mes­mo lúgu­bres, quan­do não pati­bu­la­res. Confidencialmente, creio que o segre­do dele é não se levar mui­to a sério, ao con­trá­rio de seus cole­gas (nipô­ni­cos ou não),  que geral­men­te se jul­gam demiur­gos. “Ah, ado­ro escre­ver diá­lo­gos cômi­cos — é uma delí­cia. Porém, se todos os meus per­so­na­gens fos­sem humo­rís­ti­cos, des­cam­ba­ri­am na cha­ti­ce. Para mim, os per­so­na­gens cômi­cos fun­ci­o­nam como um esta­bi­li­za­dor. Você pre­ci­sa estar cal­mo para ser espi­ri­tu­o­so — se esti­ver ner­vo­so, será tem­pes­tu­o­so. Por outro lado, quan­do você é sério, você pode ser ins­tá­vel- e esse é o pro­ble­ma da seri­e­da­de. Mas, quan­do é humo­rís­ti­co, é está­vel. O que não impe­de que com­ba­ta uma guer­ra com um sor­ri­so nos lábi­os. Gosto que meus lei­to­res riam de vez em quan­do. Muitos dos meus lei­to­res japo­ne­ses leem meus livros no trem, quan­do vão da casa para o tra­ba­lho ou vice-ver­sa. O tra­ba­lha­dor médio pas­sa duas horas por dia num trem, e ocu­pa essas horas len­do. É por isso que no Japão os meus livros são edi­ta­dos em dois volu­mes — um úni­co volu­me seria pou­co pesa­do para trans­por­tar.  Há lei­to­res que me escre­vem con­tan­do que deram gar­ga­lha­das no trem len­do uma obra minha — e con­fes­sam que fica­ram enver­go­nha­dos. São as minhas car­tas favo­ri­tas! A cada dez pági­nas, ten­to fazer cóce­gas no lei­tor.”

1Q84 tem caco­e­tes de roman­ce poli­ci­al. E, no melhor esti­lo Columbo (o per­so­na­gem da série de TV cal­ci­fi­ca­do por Peter Falk, que esgri­mia a per­gun­ta deci­si­va e des­mas­ca­ra­do­ra quan­do já esta­va indo embo­ra), me des­pe­ço de Murakami assun­tan­do sobre a influên­cia da lite­ra­tu­ra poli­ci­al na obra dele. “Avassaladora. Apaixonei-me pelo gêne­ro quan­do ain­da era estu­dan­te. O pri­mei­ro livro que li em inglês foi The Name Is Archer, de Ross MacDonald. Aprendi mui­tís­si­mo com essas obras. Ao mes­mo tem­po, lia Tolstói e Dostoiévski. Portanto, para mim no fun­do eram a mes­ma coi­sa. Dostoiévski e Raymond Chandler. Até hoje, o meu ide­al na fic­ção é jun­tar Dostoiévski e Chandler em um só roman­ce.”

No caso dele, o cri­me com­pen­sa. Pois seus cúm­pli­ces cha­mam-se lei­to­res. E os seus lei­to­res são milhões: mais conhe­ci­dos como  ter­rá­que­os.

* Paulo Nogueira é escri­tor e crí­ti­co, autor do roman­ce O amor é um lugar comum.

Contraponto: leia a crí­ti­ca de Kelvin Falcão Klein ao roman­ce 1Q84.

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