Jia Zhang-ke e a poética dos escombros

No cinema

11.09.15

Por que o chi­nês Jia Zhang-ke é um dos cine­as­tas fun­da­men­tais de nos­so tem­po? A rigor, só os dez lon­gas e dez cur­tas que com­põem até ago­ra sua fil­mo­gra­fia podem res­pon­der a essa per­gun­ta, mas o docu­men­tá­rio Jia Zhang-ke, um homem de Fenyang, de Walter Salles, for­ne­ce cha­ves ines­ti­má­veis para enten­der e apre­ci­ar uma obra tão esplên­di­da e mul­ti­fa­ce­ta­da.

A ideia do fil­me, sua “pla­ta­for­ma”, é enga­no­sa­men­te sim­ples e modes­ta, como aliás o pró­prio Jia: acom­pa­nhar o dire­tor em uma visi­ta aos luga­res de sua infân­cia e juven­tu­de em Fenyang, no nor­te da China, e às loca­ções de seus prin­ci­pais tra­ba­lhos. Nessa jor­na­da, que tem um tan­to de “vol­ta do filho pró­di­go” e um tan­to de balan­ço auto­crí­ti­co, vai fican­do cada vez mais cla­ra a com­ple­xa inte­ra­ção do artis­ta com o seu país, a sua cul­tu­ra, o seu tem­po.

China em trans­for­ma­ção

Emerge daí um retra­to (pes­so­al e par­ci­al, ine­vi­ta­vel­men­te) dos bas­ti­do­res de um cine­ma que expres­sa ao mes­mo tem­po as ver­ti­gi­no­sas trans­for­ma­ções da China nas últi­mas déca­das e o efei­to des­se pro­ces­so nos cora­ções e men­tes dos indi­ví­du­os que o vivem, sobre­tu­do na região natal do cine­as­ta.

Mineiros, ope­rá­ri­os, pros­ti­tu­tas, bal­co­nis­tas, empre­sá­ri­os, ladrões, polí­ti­cos, todos res­pi­ram, agem e se expres­sam como seres con­tra­di­tó­ri­os, dese­jan­tes, e não como “tipos”, nes­sa fil­mo­gra­fia que, a des­pei­to de sua hete­ro­ge­nei­da­de de temas e esti­los nar­ra­ti­vos, pare­ce sem­pre trans­mi­tir a sen­sa­ção de um país em escom­bros, onde cada um ten­ta se virar como pode.

Talvez este­ja aí a pro­xi­mi­da­de entre Jia e Rosselini, obser­va­da pelo pró­prio Walter Salles no livro O mun­do de Jia Zhang-ke, de Jean-Michel Frodon (Cosac Naify, 2014). Assim como o mes­tre ita­li­a­no, Jia, mes­mo lan­çan­do um olhar inci­si­va­men­te crí­ti­co à rea­li­da­de soci­al, não se colo­ca aci­ma de seus per­so­na­gens, não os jul­ga – com a pos­sí­vel exce­ção do ignó­bil homem que agri­de uma pros­ti­tu­ta com maços de dinhei­ro em Um toque de peca­do (2013), uma rara “for­ça­da de mão” do dire­tor.

O minu­to e o milê­nio

São par­ti­cu­lar­men­te sig­ni­fi­ca­ti­vos os tre­chos de Um homem de Fenyang que revi­si­tam os fil­mes O mun­do (2004), e Em bus­ca da vida (2006). O pri­mei­ro, cuja prin­ci­pal loca­ção é um par­que temá­ti­co de Pequim onde se repro­du­zem locais céle­bres do pla­ne­ta, encer­ra uma iro­nia amar­ga: uma das civi­li­za­ções mais anti­gas e ricas do mun­do con­tem­pla cacos de outras cul­tu­ras (em geral pos­te­ri­o­res) que ali retor­nam sob a for­ma do kits­ch. No segun­do, mos­tra-se uma cida­de qua­se fan­tas­ma do cen­to-sul da China, Fengjie, que será des­truí­da por uma imen­sa bar­ra­gem. Talvez em nenhum outro momen­to a esté­ti­ca dos escom­bros de Jia Zhang-ke tenha atin­gi­do uma cla­re­za tão pun­gen­te.

Cena de Jia Zhang-ke, um homem de Fenyang, de Walter Salles

Outro momen­to tocan­te é aque­le em que a voz do dire­tor se embar­ga, pela pri­mei­ra vez, ao relem­brar o pai, per­se­gui­do pelas san­di­ces da Revolução Cultural maois­ta e pre­o­cu­pa­do com os des­ti­nos do filho numa China pere­ne­men­te sub­me­ti­da à tira­nia. Os sola­van­cos da his­tó­ria e seus efei­tos na cons­ti­tui­ção das famí­li­as chi­ne­sas não são, aliás, um dado secun­dá­rio no cine­ma de Jia Zhang-ke, artis­ta ínte­gro e gene­ro­so, sem­pre aten­to ao minu­to sem per­der de vis­ta o milê­nio.

Cabe espe­rar que outras pra­ças sigam o exem­plo do Instituto Moreira Salles do Rio e apro­vei­tem a dei­xa para exi­bir os fil­mes de Jia Zhang-ke.

Um fil­me fran­cês

Num regis­tro mui­to mais modes­to, entrou nas bre­chas do nos­so cru­el cir­cui­to exi­bi­dor outro lon­ga-metra­gem que exa­la a cada foto­gra­ma a pai­xão pelo cine­ma: Um fil­me fran­cês, de Cavi Borges.

Sua tra­ma é exí­gua: Cleo (Patricia Niedermeier), uma jovem cine­as­ta, pre­pa­ra seu pri­mei­ro fil­me, uma his­tó­ria de amor pro­ta­go­ni­za­da pelos igual­men­te jovens Michel (Erom Cordeiro) e Patricia (Juliana Terra). As loca­ções são pon­tos icô­ni­cos do Rio de Janeiro (lagoa Rodrigo de Freitas, Museu de Arte Moderna, flo­res­ta da Tijuca, pon­ta do Arpoador etc.) onde ato­res e dire­to­ra se encon­tram para ensai­ar, rodar as cenas, con­ver­sar, namo­rar.

Trata-se, des­de o títu­lo, de uma decla­ra­ção de amor e humor ao cine­ma fran­cês, em espe­ci­al à Nouvelle Vague. O tri­ân­gu­lo cen­tral mime­ti­za ou glo­sa cenas famo­sas de clás­si­cos do movi­men­to, como Jules e Jim, de Truffaut, e Banda à par­te, de Godard. A foto­gra­fia em pre­to e bran­co subli­nha a refe­rên­cia. Mas é tam­bém um fil­me pro­fun­da­men­te cari­o­ca, pela pai­sa­gem, pelo sota­que, pelo humor, pelo espí­ri­to solar. É como se Cavi Borges e sua tur­ma acli­ma­tas­sem aos tró­pi­cos – e aos nos­sos tem­pos – a ener­gia e as inqui­e­ta­ções da Nouvelle Vague.

É um fil­me de gran­de fres­cor e leve­za, roda­do em pre­to e bran­co com bai­xís­si­mo orça­men­to e aber­to às imper­fei­ções da vida. É impos­sí­vel dis­so­ciá-lo da figu­ra de seu dire­tor, Cavi Borges, um dos mais ati­vos e sin­gu­la­res pro­du­to­res inde­pen­den­tes do cine­ma bra­si­lei­ro atu­al, que­ri­dís­si­mo no meio, per­so­ni­fi­ca­ção de um amor incon­di­ci­o­nal ao cine­ma.

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