O cineasta João Pedro Rodrigues

O cineasta João Pedro Rodrigues

Todas as formas de desejo

Cinema

04.04.17

O pon­to de par­ti­da para esta nos­sa revi­são da obra do rea­li­za­dor por­tu­guês João Pedro Rodrigues é o lan­ça­men­to bra­si­lei­ro do seu mais recen­te fil­me, O orni­tó­lo­go, que estre­ou em agos­to últi­mo na com­pe­ti­ção do Festival de Locarno. A des­co­ber­ta des­se fil­me um tan­to bio­ló­gi­co e car­nal, sacro e aven­tu­rei­ro, nos suge­re ofe­re­cer esta opor­tu­ni­da­de de (re)descobrir em sala de cine­ma a obra com­ple­ta de um dos gran­des auto­res con­tem­po­râ­ne­os.

João Pedro Rodrigues ope­ra a par­tir de uma ideia ini­ci­al de cine­ma de Portugal, mas que se desen­vol­ve rumo à leve­za, não ape­nas na liber­da­de de pen­sar e ser da natu­re­za huma­na, mas que dese­ja o mun­do, mui­tas vezes a par­tir de Lisboa. Vale res­sal­tar que sua obra tem des­ta­que, como já defen­de­mos aci­ma, no cine­ma atu­al como um todo, mas é pos­sí­vel tam­bém pen­sá-la como blo­cos de enor­me inte­res­se numa cine­ma­to­gra­fia por­tu­gue­sa nes­se momen­to his­tó­ri­co pós-João Cesar Monteiro (1939–2003) e, em espe­ci­al, Manoel de Oliveira (1908–2015), que, para o bem e para o mal, exer­ci­am o papel de astros de pri­mei­ra gran­de­za nas ima­gens e idei­as fil­ma­das em Portugal.

O pro­gra­ma que orga­ni­za­mos no IMS che­ga tam­bém num momen­to em que João Pedro tem exa­tos 50 anos. Sua tra­je­tó­ria, que come­çou no final dos anos 1980, é mar­ca­da por um trân­si­to cons­tan­te pelo mul­ti­for­ma­to, e mui­to nos agra­da poder exi­bir fil­mes de dife­ren­tes dura­ções, tan­to em cópi­as 35 mm como em digi­tal. Afirmo isso pois se tor­na cada vez mais difí­cil a pro­gra­ma­ção de cópi­as em pelí­cu­la, por isso tam­bém uma das nos­sas defe­sas cons­tan­tes nes­se tra­ba­lho de cura­do­ria e difu­são do cine­ma na segun­da déca­da dos 2000.

O flu­xo de cin­co lon­gas-metra­gens de JPR até ago­ra é mar­ca­do pela cons­tân­cia do cur­ta-metra­gem e do que alguns cha­mam de “média”, apa­ren­te­men­te sem as pre­o­cu­pa­ções e os aban­do­nos fre­quen­tes dos for­ma­tos mais cur­tos (e menos “nobres”), obser­va­dos na mai­or par­te dos rea­li­za­do­res no mun­do. De fato, os fil­mes de cur­ta dura­ção de João Pedro Rodrigues guar­dam cha­ves tão impor­tan­tes para obser­var a sua obra como os lon­gas, que ine­ga­vel­men­te fize­ram o seu nome a par­tir de estrei­as pres­ti­gi­o­sas em Veneza, Cannes (Quinzena dos Realizadores, Un Certain Regard) e Locarno.

Como pode ocor­rer em pri­mei­ros fil­mes (mui­tos deles cur­tas-metra­gens), seu segun­do cur­ta, Parabéns! (1997), traz coor­de­na­das para enten­der o pon­to de vis­ta mar­ca­do des­se autor. Em Parabéns!, um rapaz rece­be no dia de seu ani­ver­sá­rio uma amo­ro­sa cha­ma­da telefô­ni­ca da namo­ra­da, mas logo ele pró­prio per­ce­be que há um homem na sua cama.

Como geral­men­te ocor­re em lotes de fil­mes mos­tra­dos jun­tos, cone­xões tor­nam-se pos­sí­veis, como asso­ci­ar Parabéns! à cha­ma­da telefô­ni­ca de O que arde cura (fil­me de João Rui Guerra da Mata de 2012, com quem rea­li­zou a boa vibe que é o cur­ta China, China). Rui é o par­cei­ro artís­ti­co de João Pedro, e é JPR quem atua ao tele­fo­ne em O que arde cura. Esse tele­fo­ne­ma exis­te não ape­nas como comu­ni­ca­ção de afe­to, mas como expres­são de um amor bru­to por Lisboa, num momen­to his­tó­ri­co e sim­bó­li­co do bair­ro do Chiado.

Sabe-se que O fan­tas­ma, o pri­mei­ro lon­ga-metra­gem (2000) de JPR, com base afe­ti­va de Louis Feuillade, teve impac­to no cine­ma por­tu­guês pelo pio­nei­ris­mo de abor­dar com fran­que­za um per­so­na­gem homos­se­xu­al. Sérgio vaga por uma Lisboa cla­ra­men­te asso­ci­a­da ao lixo. Seria isso fru­to de um autor que des­bra­va­va ter­ri­tó­rio vir­gem não ape­nas no seu cine­ma, mas nas ima­gens pro­du­zi­das na sua cida­de e no seu país?

Os fil­mes de João Pedro não pare­cem encai­xar-se tão facil­men­te no rótu­lo que­er. Essa obra pare­ce ir ain­da mais lon­ge, com fil­mes mar­ca­dos pelo melo­dra­ma, o pop, o feti­che e ques­tões de gêne­ro. Um fil­me pé na por­ta, e bru­to, que é O fan­tas­ma nos leva­ria a Odete (2005), a obser­va­ção de uma mulher, cai­xa de super­mer­ca­do e fil­ma­da com patins de rodi­nhas nos pés, que pas­sa a crer num tipo de trans­mi­gra­ção da alma pelo cor­po a par­tir da mor­te de um homem e da pro­xi­mi­da­de com o com­pa­nhei­ro do mor­to. A atmos­fe­ra de uma esco­la lite­rá­ria român­ti­ca remi­xa­da com o toque incon­fun­dí­vel de um autor moder­no aju­dou a sedi­men­tar João Pedro como um rea­li­za­dor que já pare­cia com­ple­to, e que viu em Morrer como um homem (2008) uma expan­são ain­da mai­or dos seus super­ta­len­tos.

Se temos o homem lutan­do con­tra seu cor­po em Morrer como um homem (“Eu vivi como uma mulher e que­ro mor­rer como um homem”), a per­so­na­gem, enve­ne­na­da por sili­co­ne vaza­do no orga­nis­mo, e o fil­me pare­cem fugir com gos­to das pró­pri­as con­ven­ções de um cine­ma nor­mal­men­te que­er, da afir­ma­ção fácil de uma iden­ti­da­de. No mes­mo tema, veja O cor­po de Afonso (2012), um fil­me sen­sa­ci­o­nal sobre his­tó­ria e a ima­gem mas­cu­li­na, cujo fato de ter sido fei­to sob enco­men­da (Fundação da Cidade de Guimarães) nos diz algu­mas coi­sas sobre JPR.

E quan­do essas obser­va­ções nos levam a um mer­ca­do de ani­mais em Macau (Alvorada ver­me­lha, 2011) ou à crô­ni­ca fan­tás­ti­ca de uma fes­ta popu­lar de rua trans­for­ma­da numa espé­cie de eston­te­an­te zom­bie movie (Manhã de Santo António, 2012), as ima­gens de João Pedro Rodrigues ganham a lar­ga expan­são con­fir­ma­da em O orni­tó­lo­go, em que pela pri­mei­ra vez usa tela lar­ga CinemaScope. Esse fil­me de aven­tu­ra rio abai­xo e flo­res­ta aden­tro man­tém sua ori­gem luso-ibé­ri­ca em cada qua­dro, e enri­que­ce essa fil­mo­gra­fia úni­ca, cuja escri­ta deve ser des­co­ber­ta sem­pre.

, , ,