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Cinema

14.09.12

Até pou­co tem­po atrás, a bio­gra­fia era um gêne­ro que qua­se não me inte­res­sa­va. Minhas úni­cas lei­tu­ras na área tinham sido decep­ci­o­nan­tes: nun­ca esque­ce­rei a frus­tra­ção que foi enca­rar a exten­sa bio­gra­fia de François Truffaut escri­ta por Antoine de Baecque e Serge Toubiana. Talvez até seja um óti­mo livro, mas, em 2003, me pare­ceu uma obra dre­na­da de sen­ti­men­tos, des­ti­tuí­da de qual­quer cari­nho pela pes­soa radi­o­gra­fa­da. A impres­são que res­tou é que os auto­res tive­ram aces­so a uma quan­ti­da­de absur­da de infor­ma­ções, e deci­di­ram for­rar o tex­to de docu­men­tos, datas e excer­tos de car­tas nun­ca antes publi­ca­das. Em algum lugar naque­le ema­ra­nha­do de dados esta­va enter­ra­da a figu­ra do cine­as­ta vio­len­ta­men­te apai­xo­na­do pela séti­ma arte, que se per­gun­ta­va o que era mais impor­tan­te, o cine­ma ou a vida.

Meu inte­res­se pelo gêne­ro res­sur­giu no ano pas­sa­do, quan­do come­cei a pes­qui­sar a vida de Orson Welles para ten­tar escre­ver um roman­ce. Uma sim­ples bus­ca no Google (e na Amazon) por bio­gra­fi­as do dire­tor me fez depa­rar com uma ava­lan­che de dife­ren­tes livros sobre ele. Os títu­los não pode­ri­am ser mais vari­a­dos: Rosebud, Orson Welles: a bio­graphy, Orson Welles, In my father’s sha­dow: a daugh­ter remem­bers Orson Welles, What ever hap­pe­ned to Orson Welles?: A por­trait of an inde­pen­dent care­er e Citizen Welles: a bio­graphy of Orson Welles. Não duvi­do que exis­tam mais algu­mas dis­po­ní­veis no mer­ca­do, que outras, escri­tas quan­do o dire­tor ain­da esta­va vivo, tenham sido esque­ci­das etc. É uma vida (e uma car­rei­ra) que não se esgo­ta em um só livro.

Toda bio­gra­fia é uma obra de fic­ção, diria (ou insi­nu­a­ria) algum filó­so­fo fran­cês cujo nome ago­ra me esca­pa. A bio­gra­fia é um recor­te, e todo recor­te esco­lhe o que irá mos­trar. A bio­gra­fia, além dis­so, não se res­trin­ge à lis­ta­gem de fatos e datas, ela depen­de de inter­pre­ta­ção.

De cer­ta manei­ra, pode-se, com base no títu­lo da bio­gra­fia, espe­cu­lar sobre o modo que o bió­gra­fo lida com o obje­to ana­li­sa­do. Foi o que me ocor­reu hoje de manhã, olhan­do para o tijo­lão na estan­te inti­tu­la­do James Joyce, de Richard Ellmann, livro que é con­si­de­ra­do por mui­tos como “a melhor bio­gra­fia já escri­ta” e que, por fal­ta de tem­po, aca­bei aban­do­nan­do na meta­de. Não há dúvi­das: é pre­ci­so de mui­ta cora­gem para dar um títu­lo des­ses para uma bio­gra­fia. Ao bati­zar o volu­me ape­nas com o nome do bio­gra­fa­do, Ellmann (ou o edi­tor — nun­ca se sabe quem deu o títu­lo final) suge­re que aque­le repre­sen­ta o tex­to defi­ni­ti­vo: a vida do indi­ví­duo está con­den­sa­da naque­las cen­te­nas de pági­nas. Tal ousa­dia tam­bém está pre­sen­te em outra bio­gra­fia con­si­de­ra­da exem­plar: Scott Fitzgerald, de Andrew Turnbull.

Compare estes títu­los com a recen­tís­si­ma bio­gra­fia que D. T. Max escre­veu acer­ca do escri­tor nor­te-ame­ri­ca­no David Foster Wallace: Every love story is a ghost story: a life of David Foster Wallace. Traduzindo tos­ca­men­te: toda his­tó­ria de amor é uma his­tó­ria de fan­tas­mas: a vida de David Foster Wallace. Esta não é uma tra­du­ção pre­ci­sa — a esco­lha por bati­zar a bio­gra­fia de “a life”, em vez de “the life”, suge­re que o que está sen­do nar­ra­do é “uma vida”. Uma vida, um ângu­lo, uma inter­pre­ta­ção. Muito dis­tan­te da pre­ten­são de com­por o tex­to final e defi­ni­ti­vo. “Ainda bem”, pro­va­vel­men­te diria Daniel Pellizzari, que se decep­ci­o­nou com o livro de D. T. Max e afir­mou, no site Good Reads, que “[Every love story is a ghost story] na melhor das hipó­te­ses ser­ve como estru­tu­ra para uma bio­gra­fia mais car­nu­da, inte­li­gen­te e cui­da­do­sa”.

Afinal, pre­ten­sões à par­te, não há tex­to defi­ni­ti­vo. Rosebud, uma das mui­tas bio­gra­fi­as de Welles, usa este títu­lo em alu­são à pala­vra que, em uma lei­tu­ra sim­plis­ta de Cidadão Kane, dá sen­ti­do a toda a vida do mag­na­ta Charles Foster Kane. Porém, nenhu­ma vida é assi­mi­lá­vel. Não li ain­da Rosebud, mas difi­cil­men­te incor­po­ra­rá o (tris­te) ângu­lo da filha de Welles, Chris, que em In my father’s sha­dow reve­la o lado nar­ci­sis­ta, mulhe­ren­go do pai ausen­te que era Orson. Como diria o jor­na­lis­ta Thompson, pro­ta­go­nis­ta ocul­to de Cidadão Kane, “Acho que nenhu­ma pala­vra pode expli­car a vida de um homem. Não. Acho que Rosebud é ape­nas outra peça do que­bra-cabe­ça — uma peça fal­tan­te”. Acredito, meu caro Thompson, que as peças são infi­ni­tas.

* Antônio Xerxenesky é reda­tor do site do IMS.

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