Kafka, ano zero

Literatura

22.09.12

A his­tó­ria da lite­ra­tu­ra, assim como as outras his­tó­ri­as (as que retra­çam a tra­je­tó­ria dos povos, das ciên­ci­as, das artes e até mes­mo das ini­qui­da­des e dos espor­tes), é fei­ta de gui­na­das radi­cais. Um úni­co momen­to deci­si­vo sobre­pu­ja sécu­los de monó­to­na con­ti­nui­da­de. Na his­tó­ria lite­rá­ria do sécu­lo XX nada pare­ce supe­rar a noi­te de 22 para 23 de setem­bro de 1912 quan­do — entre 22h e 6 da manhã — o jovem advo­ga­do pra­guen­se Franz Kafka escre­veu de um só fôle­go O vere­dic­to e cris­ta­li­zou, ao fim des­sa jor­na­da exaus­ti­va, o seu esti­lo de nar­rar.

Kafka ano­tou com deta­lhes nos Diários sobre a incrí­vel pro­e­za, sobre as per­nas que for­mi­ga­vam, amor­te­ci­das depois de uma noi­te intei­ra sen­ta­do em seu gabi­ne­te, sobre sua emo­ção em tate­ar (e qua­se tocar fisi­ca­men­te) seu pró­prio meio de expres­são. A nar­ra­ti­va des­se momen­to inau­gu­ral é qua­se a antí­te­se da lite­ra­tu­ra, ou daqui­lo que nos habi­tu­a­mos a enten­der como o tra­ba­lho lite­rá­rio. Há labor nes­sa noi­te de setem­bro um sécu­lo atrás, mas algo tão con­cen­tra­do que pare­ce per­ten­cer a outro domí­nio. Aparentemente esta­mos pisan­do em move­di­ço ter­re­no eso­té­ri­co. Uma noi­te de escri­ta que ter­mi­na com o pon­to final em ple­no alvo­re­cer. Não é pre­ci­so mui­to mais para escre­ver­mos uma vida de São Kafka.

Nada mais equi­vo­ca­do. Se em Kafka a lite­ra­tu­ra é menos o pro­ces­so lite­rá­rio e mais os diver­sos movi­men­tos e recu­os em dire­ção à escri­ta (e o cará­ter frag­men­tá­rio e mes­mo ina­ca­ba­do de sua obra é tes­te­mu­nho dis­so), isso se dá por­que, jus­ta­men­te, o que lhe empres­ta potên­cia são esses momen­tos iso­la­dos, des­con­tí­nu­os. Narrativas mais lon­gas como O cas­te­lo e O pro­ces­so nos pare­cem tão sig­ni­fi­ca­ti­vas e fér­teis (inclu­si­ve emo­ci­o­nal­men­te) por­que seu autor leva essa inse­gu­ran­ça con­tro­la­da para o inte­ri­or do roman­ce, gêne­ro por exce­lên­cia do autor empe­nha­do. Nos tex­tos mais bre­ves, e a par­tir de O vere­dic­to, a ten­são per­ma­nen­te des­sa escri­ta em movi­men­to pare­ce cin­ti­lar em cada fra­se.

O vere­dic­to é um momen­to espe­ci­al na vida e no ama­du­re­ci­men­to men­tal de Kafka como escri­tor por­que pela pri­mei­ra vez dis­pu­nha de uma his­tó­ria — o ances­tral con­fli­to entre pais e filhos — e a ela­bo­ra­va com o auxí­lio de uma metá­fo­ra pode­ro­sa: o jul­ga­men­to. A comé­dia fami­li­ar não lhe era estra­nha, como se sabe. O minu­e­to som­brio dan­ça­do por aque­les que têm laços de san­gue é leva­do às ulti­mas con­sequên­ci­as na his­tó­ria de Georg Bendemann, o jovem comer­ci­an­te que está pres­tes a se casar e man­tém uma cor­res­pon­dên­cia estra­nha com um ami­go que vive na Rússia ao mes­mo tem­po em que pare­ce velar o pró­prio pai em vida.

A figu­ra da noi­va não está ali por aca­so. O vere­dic­to é dedi­ca­do a Felice Bauer, a ber­li­nen­se que Kafka conhe­ce­ra no mês ante­ri­or e com quem iria con­trair noi­va­do duas vezes (em 1914 e 1917) — sem no entan­to jamais con­du­zir a pobre­zi­nha para o altar.  Aliás, nada na his­tó­ria é por aca­so. Quase tudo pare­ce sair da per­so­na que expe­ri­men­ta­va a escri­ta e ten­ta­va com­pre­en­der todos os aspec­tos da vida nos Diários. Mesmo o momen­to cul­mi­nan­te de vira­da (pater­na, gené­ti­ca, his­tó­ri­ca, dra­má­ti­ca) que é a mal­di­ção joga­da sobre Georg pelo pró­prio pai exaus­to (“Por isso sai­ba ago­ra: eu o con­de­no a mor­te por afo­ga­men­to”), pare­ce ser refle­xo da con­vi­vên­cia de Kafka, naque­le perío­do, com os melo­dra­má­ti­cos enre­dos domés­ti­cos do tea­tro iídi­che. No recen­te Kafka’s Jewish Languages, David Suchoff gas­ta um capí­tu­lo para ana­li­sar a pre­sen­ça tra­gicô­mi­ca das pra­gas iídi­ches na obra de Kafka e em espe­ci­al em O vere­dic­to.

Em setem­bro de 1912, essa “mal­di­ção” atra­ves­sou pri­mei­ro uma noi­te. E depois um sécu­lo intei­ro.

* Leandro Sarmatz é autor do livro Uma fome (Record, 2010). Em 2012, foi elei­to um dos vin­te melho­res jovens escri­to­res bra­si­lei­ros pela revis­ta Granta.

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