Democracia de baixa intensidade militariza gestão social” — quatro perguntas para Paulo Arantes

Quatro perguntas

20.06.14

Paulo Arantes é pro­fes­sor apo­sen­ta­do do depar­ta­men­to de Filosofia da USP, autor de 11 livros e diri­ge as cole­ções Zero à Esquerda, da Editora Vozes, e Estado de Sítio, da Boitempo. Ele foi um dos mais impor­tan­tes inte­lec­tu­ais liga­dos ao PT, mas em 2003, logo no iní­cio do gover­no Lula, rom­peu rui­do­sa­men­te com o par­ti­do.

Seu livro mais recen­te, O novo tem­po do mun­do (Boitempo, R$ 52, 460 págs.), reú­ne nove arti­gos (sen­do o pri­mei­ro e o últi­mo iné­di­tos) em que tece crí­ti­cas às velhas orga­ni­za­ções de esquer­da, empol­ga-se com eclo­sões popu­la­res como as de junho de 2013 e afir­ma que vive­mos uma épo­ca de expec­ta­ti­vas rebai­xa­das, na qual já não é pos­sí­vel apren­der com exem­plos his­tó­ri­cos. Mas tam­bém é o pri­mei­ro livro do autor em que é pos­sí­vel notar um cer­to oti­mis­mo, qua­se um entu­si­as­mo dian­te da recen­te “toma­da de cons­ci­ên­cia” do povo bra­si­lei­ro.

Em entre­vis­ta por email ao Blog do IMS, o filó­so­fo comen­ta dois junhos: o de 2013 e o des­te ano. E afir­ma, pre­o­cu­pa­do, que o mai­or lega­do da Copa serão meca­nis­mos de repres­são mais efi­ci­en­tes. Segundo ele, a “nos­sa demo­cra­cia de bai­xa inten­si­da­de” está mili­ta­ri­zan­do a ges­tão soci­al. O apro­fun­da­men­to da repres­são con­tra movi­men­tos popu­la­res, diz Arantes, tem sido colo­ca­do pelos gover­nos como uma “ino­va­ção de ges­tão”. Ele tam­bém fala sobre a for­ma como a dita­du­ra mili­tar ven­ceu ao con­ven­cer seus opo­si­to­res de que foi der­ro­ta­da, ain­da que o gros­so de sua base de sus­ten­ta­ção con­ti­nue ope­ran­do no Brasil. 

 

1. Em seu livro, o senhor fala sobre o fim da era das gran­des espe­ras, de ciclos em que as soci­e­da­des oci­den­tais se man­ti­ve­ram na expec­ta­ti­va de uma gran­de mudan­ça para o futu­ro, quer fos­se uma guer­ra, uma revo­lu­ção, algo que alte­ra­ria a ordem das coi­sas pro­fun­da­men­te. Hoje nin­guém pare­ce acre­di­tar em uma mudan­ça radi­cal, pare­ce que o futu­ro está fada­do a ser uma ver­são reme­di­a­da do pre­sen­te. Por outro lado, você demons­tra empol­ga­ção com movi­men­tos como as mani­fes­ta­ções de junho do ano pas­sa­do. Esse tipo de eclo­são não seria meio esva­zi­a­da de sen­ti­do uma vez que nem seus pró­pri­os agen­tes pare­cem ambi­ci­o­nar uma mudan­ça radi­cal?

Depende do que enten­der­mos por mudan­ça radi­cal. Se for na mes­ma linha das gran­des expec­ta­ti­vas moder­nas que duran­te dois sécu­los ali­men­ta­ram o ima­gi­ná­rio dito pro­gres­sis­ta de soci­e­da­de ori­en­ta­das para o futu­ro, segun­do a lógi­ca do cres­ci­men­to inde­fi­ni­do, está cla­ro que as mani­fes­ta­ções de junho não assi­na­lam nenhu­ma daque­las revi­ra­vol­tas his­tó­ri­cas pelas quais des­de sem­pre nos habi­tu­a­mos a espe­rar nos momen­tos cru­ci­ais de uma con­jun­tu­ra em tran­se. Como em 1964. O ter­mo de com­pa­ra­ção obvi­a­men­te não caiu do céu. Ou melhor, caiu sim: quis o des­ti­no, no caso, o feti­chis­mo das datas redon­das, que os 50 anos da Ditadura que mudou radi­cal­men­te o Brasil tenham caí­do em junho, mais exa­ta­men­te entre dois junhos, o his­tó­ri­co, do ano pas­sa­do, e o que está trans­cor­ren­do ago­ra. Salta aos olhos o quan­to o tem­po bra­si­lei­ro mudou de lá para cá. Ou por outra, o quan­to o tem­po bra­si­lei­ro pas­sou a rit­mar-se pelo novo tem­po do mun­do, um regi­me polí­ti­co de espe­ras que não com­por­ta mais des­fe­chos con­clu­si­vos, embo­ra a con­ta­gem regres­si­va reco­me­ce a cada roda­da. Há um ano se diz que o Brasil nun­ca mais será o mes­mo depois de junho, mas a situ­a­ção con­fli­ti­va que se abriu então está mui­to lon­ge da ter­ra em tran­se anun­ci­a­da por Glauber Rocha. Me expli­co. A deno­mi­na­ção cor­ren­te Jornadas de Junho é cla­ra­men­te uma remi­nis­cên­cia do Dezoito Brumário, de Marx — como se há de recor­dar, o escri­to magis­tral em que Marx sim­ples­men­te inven­tou a aná­li­se mate­ri­a­lis­ta de con­jun­tu­ra, no caso, a que arras­tou a Revolução de 1848 ao gol­pe de Luis Napoleão Bonaparte, uma nar­ra­ti­va de cor­te bal­za­qui­a­no cujo decur­so, mes­mo no regis­tro paró­di­co, é tão tea­tral­men­te dra­má­ti­co quan­to as incon­tá­veis e memo­rá­veis jor­na­das insur­re­ci­o­nais da Grande Revolução. Mesmo des­con­ta­do o des­pro­pó­si­to gri­tan­te da com­pa­ra­ção, nin­guém se aven­tu­ra­ria a redes­cre­ver junho naque­les ter­mos clás­si­cos. E, no entan­to, des­de que o mun­do é mun­do, não há agru­pa­men­to de esquer­da que não prin­ci­pie uma reu­nião com uma aná­li­se de con­jun­tu­ra naque­les mes­mís­si­mos mol­des clás­si­cos. Junho não cou­be mais nes­sa roti­na, sal­vo para ser suma­ri­a­men­te des­car­ta­do como esquer­dis­mo de clas­se média. Por isso mes­mo soa ain­da mais paté­ti­co o sinal de alar­me, não menos roti­nei­ro nes­sas cir­cuns­tân­ci­as de deso­be­di­ên­cia civil com a esquer­da ins­ti­tu­ci­o­nal de pas­sa­gem pelo gover­no: não façam maro­la que o espec­tro de 64 está à sol­ta — não que a direi­ta não este­ja sali­van­do por con­ta de uma mudan­ça de guar­da imi­nen­te. Mas jus­ta­men­te o Golpe de 64 foi des­fe­cha­do depois de uma esca­la­da de três anos ace­le­ra­dos num cam­po de bata­lha no qual a fren­te popu­lar che­gou desar­ma­da no últi­mo ato. Foi nos­sa últi­ma catás­tro­fe, a ori­gem do Brasil con­tem­po­râ­neo que ago­ra está mudan­do de pele. Quer dizer, a ver­são de ago­ra do Brasil-potên­cia de 50 anos atrás se rea­pre­sen­tou num tem­po emer­gen­ci­al em que o futu­ro per­deu seu cará­ter de evi­dên­cia pro­gres­sis­ta, cada vez mais Segurança e menos Desenvolvimento, para evo­car o binô­mio sinis­tro da Ditadura, que hoje cor­re pelo tri­lho “paci­fi­ca­dor” da ges­tão secu­ri­tá­ria do soci­al, do encar­ce­ra­men­to em mas­sa aos pro­gra­mas de trans­fe­rên­ci­as mone­tá­ri­as con­di­ci­o­na­das. O Brasil vive assim num cli­ma de emer­gên­cia de mão dupla. Numa delas, requen­ta a paro­la­gem arri­vis­ta do cat­ching up apoi­a­da na pre­da­ção regi­o­nal ope­ra­da por suas mul­ti­na­ci­o­nais. Noutra, mul­ti­pli­ca todo tipo de saí­da de emer­gên­cia — por exem­plo, a vira­ção do cha­ma­do empre­en­de­do­ris­mo dos pobres. Numa hora em que o capi­ta­lis­mo é para pou­cos, sele­ci­o­na­dos entre a mas­sa tra­ba­lha­do­ra des­so­ci­a­li­za­da pelo medo da eli­mi­na­ção, não faz mes­mo mui­to sen­ti­do espe­rar por mudan­ças soci­ais em pro­fun­di­da­de, como se dizia no tem­po em que a luta de clas­ses ain­da dis­pu­nha de um poder ins­ti­tuin­te capaz de fre­ar a desa­gre­ga­ção ine­ren­te à guer­ra soci­al capi­ta­lis­ta, que pas­sou então a ser repre­sa­da por outros dis­po­si­ti­vos “paci­fi­ca­do­res”. Nesse andar supe­ri­or da domi­na­ção ges­ti­o­ná­ria não pode haver futu­ro que não seja a pro­je­ção line­ar de um pre­sen­te sem mai­o­res ambi­ções que a segu­ran­ça como um fim em si mes­mo.

Na zona de des­con­for­to dos pro­tes­tos mun­do afo­ra, toda­via, há novi­da­des. E indu­zi­da jus­ta­men­te pelo “pre­sen­tis­mo” emer­gen­ci­al que rege o novo tem­po do mun­do. Quando o futu­ro se apro­xi­ma na for­ma de colap­sos anun­ci­a­dos, e o pas­sa­do se resu­me a um amon­to­a­do de des­gra­ças, cuja memó­ria pres­si­o­na quan­do mui­to por retra­ta­ção, nos­sa rela­ção alte­ra­da com o tem­po soci­al muda por com­ple­to a expe­ri­ên­cia da polí­ti­ca. Enquanto no topo da cadeia de coman­do e espo­li­a­ção, admi­nis­tra-se a per­cep­ção cole­ti­va de que a decom­po­si­ção da ordem capi­ta­lis­ta não encer­ra mais nenhu­ma pro­mes­sa, na base pare­ce que se rea­pren­de a espe­rar sem con­tar mais com o míti­co “dia que virá”, com se dizia nas can­ções de resis­tên­cia à Ditadura. A novi­da­de que pre­ci­sa ser sau­da­da — daí sua impres­são de “empol­ga­ção” — é o sur­gi­men­to, depois de qua­se duas déca­das de latên­cia, de uma esquer­da desa­tre­la­da da mira­gem pro­gres­sis­ta e seus cus­tos cobra­dos ante­ci­pa­da­men­te. Não é pou­ca coi­sa — a rigor uma pro­fa­na­ção —, num país com encon­tro mar­ca­do com o futu­ro, segun­do o seu mito de ori­gem, para ser mais pre­ci­so, num país que nas­ceu como uma comu­ni­da­de ima­gi­na­da de expec­ta­ti­vas, pou­co impor­ta se regu­lar­men­te frus­tra­das, ou tal­vez por isso mes­mo, decla­rar, e agir em con­for­mi­da­de, nas pala­vras de um ati­vis­ta de junho, que a fami­ge­ra­da mar­cha do pro­gres­so pode e deve ser inter­rom­pi­da e que, sen­do o pre­sen­te into­le­rá­vel, será pre­ci­so sus­pen­der o futu­ro para que jus­ti­ça seja fei­ta. Delirante ou sen­sa­ta, pode fal­tar tudo nes­sa visão, menos o desa­len­to que a seu ver trans­pa­re­ce na fal­ta de ambi­ção trans­for­ma­do­ra na explo­são de junho. De fato, nada menos épi­co do que a revo­ga­ção de um aumen­to de 20 cen­ta­vos, para vol­tar a falar nos tre­ze dias que muda­ram, não o mun­do, mas a vida na cida­de de São Paulo. E no entan­to, uma esquer­da “sem futu­ro” — enten­da­mos,  uma esquer­da à altu­ra de uma ida­de de expec­ta­ti­vas decres­cen­tes, enca­ra­da tal muta­ção de épo­ca como um dado de rea­li­da­de da domi­na­ção e não como um equí­vo­co filo­só­fi­co — sim­ples­men­te pro­vo­cou a capi­tu­la­ção da mai­or con­cen­tra­ção urba­na de poder polí­ti­co e econô­mi­co do país, levan­do jun­to no nau­frá­gio a esquer­da “com futu­ro” que apa­ren­ta­va con­du­zir o bar­co com o tiro­cí­nio da tal cor­re­la­ção de for­ças que só os velhos mari­nhei­ros pos­su­em. Daí o fal­so pro­ble­ma do sem­pre lem­bra­do nes­sas horas “fôle­go cur­to” das revol­tas popu­la­res de junho, que obvi­a­men­te só exis­te se medi­do pelo metro enfer­ru­ja­do da lon­ga dura­ção da esquer­da “com futu­ro”, cujo fôle­go, este sim, cla­ra­men­te se esgo­tou e por isso sua fal­ta de ar se tor­nou um pro­ble­ma real de mor­te por asfi­xia, o que não é o caso da nova esquer­da anti­ca­pi­ta­lis­ta, que no entan­to res­pi­ra à von­ta­de na mes­ma atmos­fe­ra rare­fei­ta de emer­gên­cia e gover­no de exce­ção na qual ingres­sa­mos. Pois se tra­ta de um tem­po novo, aliás nem tão novo assim — na França e na Inglaterra, por exem­plo, está com­ple­tan­do 30 anos ou mais —, de insur­rei­ções explo­si­vas que se suce­dem segun­do uma lógi­ca rea­ti­va e anti­po­lí­ti­ca que se extin­guem sem dei­xar outro ras­tro além da memó­ria dos res­sen­ti­men­tos acu­mu­la­dos para a pró­xi­ma explo­são. Aqui a coi­sa nova e ruim da qual deve par­tir um esquer­da “sem futu­ro” — coi­sa nova e ruim que a outra, sua ante­ces­so­ra no exer­cí­cio do poder, qual­quer poder, já ope­ra faz algum tem­po. É que no capi­ta­lis­mo de desas­tre e suas cor­res­pon­den­tes tera­pi­as de cho­que — para falar como Naomi Klein —, cons­ti­tuiu-se um con­ti­nu­um de públi­cos-alvo — nin­guém pode ficar de fora —, alter­na­da ou con­co­mi­tan­te­men­te, soci­al e puni­ti­vo. Assim como se cadas­tra um sem-teto que pres­si­o­ne o sufi­ci­en­te, depois de bater mui­to e con­ter, se “inclui” no cadas­tro da segu­ran­ça os amo­ti­na­dos da rua. Esta sim­bi­o­se entre polí­cia e polí­ti­ca defi­ne bem o novo tem­po bra­si­lei­ro que os suces­so­res da Ditadura pas­sa­ram a ope­rar des­de o iní­cio dos anos 90 sob o nome de Pacificação. Mudança radi­cal, para vol­tar ao seu mote, seria encon­trar a por­ta de saí­da de engre­na­gens como essa, ao invés de aper­fei­çoá-la com novas “con­quis­tas”. 

2. No arti­go em que tra­ta da Ditadura, o senhor diz que estão ten­tan­do encur­tar a dura­ção do regi­me e abran­dá-lo em um revi­si­o­nis­mo à bra­si­lei­ra. Você acha que a ten­dên­cia é que o regi­me mili­tar seja rela­ti­vi­za­do e per­ca impor­tân­cia na nar­ra­ti­va da his­tó­ria bra­si­lei­ra? Se isso se con­cre­ti­zar, qual a con­sequên­cia espe­ra­da? Quem são os agen­tes des­se revi­si­o­nis­mo?

A Ditadura só mudou o país de alto a bai­xo por­que ven­ceu em toda linha. E ven­ceu tão ina­pe­la­vel­men­te que nos fez acre­di­tar que a der­ro­ta­mos. Talvez tenha sido esta sua mai­or vitó­ria. Esse é o mito fun­da­dor do Brasil con­tem­po­râ­neo, o de uma demo­cra­cia nova que emer­giu vito­ri­o­sa do tra­ta­men­to de cho­que de um regi­me de ani­qui­la­ção sis­te­má­ti­ca de seu ini­mi­gos de clas­se, aliás cui­da­do­sa­men­te sele­ci­o­na­dos — não se repri­mia e desa­pa­re­cia a esmo. Não que não hou­ves­se resis­tên­cia e luta. Houve, e mui­ta, des­de a pri­mei­ra hora. Mas onde há resis­tên­cia, tam­bém há cola­bo­ra­ção, que foi abun­dan­te, para não falar na imen­sa ter­ra de nin­guém dos resig­na­dos e adap­ta­dos. Trinta anos de Terror Branco no Cone Sul e na América Central resul­tou por toda a par­te em demo­cra­ci­as de bai­xa inten­si­da­de, para ain­da fal­ta na lín­gua da Guerra mui­to pou­co Fria que deu régua e com­pas­so ao nos­so Estado de Segurança Nacional, como pode ser abre­vi­a­da­men­te redes­cri­to um regi­me que sou­be com­bi­nar desen­vol­vi­men­tis­mo em mar­cha for­ça­da e o tra­ba­lho sujo pres­cri­to pela cha­ma­da Doutrina da Guerra Revolucionária, que os mili­ta­res fran­ce­ses der­ro­ta­dos em Dien-Bien-Phu trou­xe­ram da Indochina na mochi­la e apli­ca­ram na Argélia. Decididamente não foi ape­nas domés­ti­co o acer­to de con­tas, que de res­to ain­da não se encer­rou. O pro­ces­so de “paci­fi­ca­ção” em que esta­mos enter­ra­dos até o pes­co­ço, por defi­ni­ção, não tem pra­zo para aca­bar. Só que ago­ra o ini­mi­go é outro, embo­ra a guer­ra con­ti­nue inter­na, impul­si­o­na­da pela pere­ne ansi­e­da­de das clas­ses pro­pri­e­tá­ri­as: será que o Golpe foi sufi­ci­en­te­men­te assus­ta­dor para apa­gar de vez até a memó­ria de que um dia hou­ve incon­for­mis­mo de ver­da­de no país? Na dúvi­da, melhor cul­ti­var o temor reve­ren­ci­al dos mili­ta­res. E o “revi­si­o­nis­mo” da esquer­da, con­ven­ci­da de que der­ro­tou a Ditadura por­que sou­be reen­con­trar enfim a Democracia con­tra a qual aten­ta­ra no pas­sa­do, pro­vo­can­do a com­pre­en­sí­vel embo­ra des­pro­por­ci­o­nal rea­ção dos apa­re­lhos coer­ci­ti­vos encar­re­ga­dos de garan­tir a lei e a ordem. A inten­si­da­de do Golpe foi tal que aba­lou até o equi­va­len­te his­to­ri­o­grá­fi­co da proi­bi­ção do inces­to, a inter­di­ção do ana­cro­nis­mo, peca­do mor­tal, como sabe qual­quer his­to­ri­a­dor. O revi­si­o­nis­mo vive dis­so: a evi­dên­cia ins­ti­tu­ci­o­nal de hoje — extor­qui­da todos sabe­mos a que pre­ço — retro­a­ge até o pas­sa­do, que pas­sa a ser jul­ga­do a reve­lia num pro­ces­so ins­truí­do por um tri­bu­nal, que se for o da his­tó­ria, só pode ser a dos ven­ce­do­res.

Todavia a vira­da revi­si­o­nis­ta não teria conhe­ci­do a difu­são avas­sa­la­do­ra atu­al sem a muta­ção no regi­me his­tó­ri­co da espe­ra pela qual come­ça­mos nos­sa con­ver­sa. Como ele é cen­tral, bas­ta um exem­plo. Durante meio sécu­lo, o ima­gi­ná­rio pro­gres­sis­ta bra­si­lei­ro, da esquer­da revo­lu­ci­o­ná­ria aos libe­rais desen­vol­vi­men­tis­tas (uma pecu­li­ar hibri­da­ção local), dei­xou-se iman­tar por uma úni­ca expec­ta­ti­va, a de supe­rar o fla­ge­lo soci­al do sub­de­sen­vol­vi­men­to, do qual pas­sa­mos a ter uma cons­ci­ên­cia catas­tró­fi­ca a par­tir dos anos 30 do sécu­lo pas­sa­do, nas pala­vras de Antonio Candido. Essa é a cor­ren­te prin­ci­pal ao lon­go da qual fluía um tem­po que só nes­tes ter­mos era naci­o­nal, ape­sar do anta­go­nis­mo de fun­do, que alar­ga­va de tal modo seu hori­zon­te comum que o limi­ar a ser ultra­pas­sa­do tan­to pode­ria ser uma rup­tu­ra soci­al como uma deco­la­gem moder­ni­za­do­ra igual­men­te deses­ta­bi­li­za­do­ra — é só pen­sar no escân­da­lo polí­ti­co da mode­ra­da Sudene. A pala­vra à esquer­da para esta linha de espe­ra era Revolução Brasileira, uma noção de expec­ta­ti­va máxi­ma que a nin­guém ocor­re­ria ante­ci­par a fisi­o­no­mia, embo­ra cons­tas­se de nos­sa cer­ti­dão de nas­cen­ça. Pois era tão for­te sua irra­di­a­ção que o Golpe, em prin­cí­pio des­fe­cha­do para bar­rá-la, ado­tou-a com a natu­ra­li­da­de de um sen­so comum his­tó­ri­co, não se aca­nhan­do de se apre­sen­tar como uma “revo­lu­ção”, ain­da que rea­ci­o­ná­ria, na con­tra­mão de tudo e todos, menos da geo­cul­tu­ra legi­ti­ma­do­ra do Desenvolvimento. Na ver­da­de, uma con­trar­re­vo­lu­ção pre­ven­ti­va, no caso, como os seus ideó­lo­gos foram os pri­mei­ros a recla­mar aber­ta­men­te. Seja como for, um con­cei­to de movi­men­to, como seu par anti­té­ti­co, que afi­nal não che­ga­ra sequer a sair da pran­che­ta, embo­ra o cam­po popu­lar se agi­tas­se des­de que con­se­gui­ra abor­tar o ensaio geral do gol­pe em 1961. Esse é o pon­to cego do revi­si­o­nis­mo e uma das razões pelas quais demo­rou tan­to tem­po para sair do armá­rio. Não cons­ta­va do reper­tó­rio de épo­ca — e esta­mos falan­do do anti­go tem­po do mun­do —, a favor ou con­tra, Estado de Direito, Democracia etc. e asse­me­lha­dos, noções que não abrem tem­po­ral­men­te para nada, pelo menos segun­do os para­dig­mas polí­ti­cos daque­le sécu­lo que espe­rou e temeu revo­lu­ção, guer­ra e cata­clis­mo nucle­ar. Deu-se então a gran­de trans­for­ma­ção de nos­sa épo­ca — len­do ape­nas o pai­nel do sis­mó­gra­fo, no cen­tro do qual se encon­tra a redes­co­ber­ta do mal abso­lu­to, o Holocausto, que os 30 anos de cres­ci­men­to do pós-guer­ra rele­ga­ra ao segun­do pla­no de uma tra­gé­dia par­ti­cu­lar. Para fren­te, até onde a vis­ta alcan­ça, ape­nas segu­ran­ça, pre­cau­ção e esta­do de aler­ta como razões de gover­no nor­mais e per­ma­nen­tes, enquan­to às nos­sas cos­tas um pas­sa­do de des­gra­ças e vio­la­ções não ces­sa de cres­cer e ate­mo­ri­zar, tor­nan­do o pre­sen­te um úni­co sinal de alar­me entre duas catás­tro­fes. Pensando bem, o revi­si­o­nis­mo no fun­do é ape­nas um deles, vin­do da mes­ma esquer­da que pas­sou a fazer o inven­tá­rio das vio­la­ções da demo­cra­cia por não con­se­guir mais ima­gi­nar a vida depois do capi­ta­lis­mo.  

3. Você cri­ti­ca bas­tan­te a cha­ma­da esquer­da tra­di­ci­o­nal, que já não seria capaz de com­pre­en­der e inter­vir nes­se novo tem­po de que tra­ta seu novo livro. Por outro lado, sua foto de autor no fim do volu­me é com um mega­fo­ne na mão, duran­te uma aula públi­ca orga­ni­za­da pelo Movimento Passe Livre. No meio de toda aque­la mani­fes­ta­ção, os fóruns mais amplos que o MPL con­vo­cou não eram deba­tes, assem­bléi­as com o res­to do movi­men­to soci­al, com as pes­so­as que esta­vam na rua, mas aulas públi­cas. É for­te essa ima­gem da orga­ni­za­ção que cha­ma para si a res­pon­sa­bi­li­da­de de edu­car. O tem­po intei­ro eles dis­se­ram abdi­car da fun­ção de lide­rar, mas não abdi­ca­ram des­sa posi­ção pro­fes­so­ral de ensi­nar. Quando foram ao Roda Viva, man­da­ram um repre­sen­tan­te que era pro­fes­sor, o tem­po todo bus­ca­ram fili­a­ção com pro­fes­so­res, a exem­plo do senhor. Isso não demons­tra uma visão ain­da mais sec­tá­ria do que a dos sin­di­ca­lis­tas e seus car­ros de som, a visão de um movi­men­to que ado­ta um tom pro­fes­so­ral em rela­ção a seus pares que estão nas ruas?

À pri­mei­ra vis­ta, um mega­fo­ne de fato não reco­men­da mui­to o autor. Talvez nem a uma segun­da vis­ta. Em todo o caso, não cus­ta uma visi­ta ao YouTube, onde o lei­tor pode ele mes­mo veri­fi­car o even­tu­al estra­go. Na cir­cuns­tân­cia, foi um expe­di­en­te dian­te da pane no sis­te­ma de som. Tampouco o micro­fo­ne ate­nua mui­to a des­con­fi­an­ça. Seja como for, o mega­fo­ne é um ances­tral do fami­ge­ra­do car­ro de som e como tal um dis­po­si­ti­vo que em prin­cí­pio apro­xi­ma­ria seu usuá­rio, mes­mo oca­si­o­nal, da exe­cra­da nomen­cla­tu­ra do ciclo que está se encer­ran­do. Como nun­ca fui um scho­lar de ver­da­de, a ima­gem de ora­dor de cen­tro aca­dê­mi­co não repre­sen­ta pro­pri­a­men­te uma que­da. Quanto à aula públi­ca, outro dis­po­si­ti­vo clás­si­co de mobi­li­za­ção, sen­do a exten­são de uma rela­ção natu­ral­men­te desi­gual entre quem fala de cáte­dra e quem ouve lite­ral­men­te par­ter­re, é por defi­ni­ção um mul­ti­pli­ca­dor de hie­rar­qui­as soci­ais. Novamente só me res­ta suge­rir con­fir­mar ou não sua má impres­são recor­ren­do ao úni­co regis­tro dis­po­ní­vel.

Dito isso, pas­se­mos ao MPL. Tenho lido e ouvi­do mui­tas res­tri­ções, mas a sua é par­ti­cu­lar­men­te bizar­ra. Nunca me ocor­re­ria e, no entan­to, é qua­se uma evi­dên­cia. Como o nome indi­ca, um movi­men­to pelo pas­se-livre só pode­ria ter nas­ci­do num ambi­en­te ori­gi­nal­men­te estu­dan­til que, por sua vez, não se com­pre­en­de sem a pre­sen­ça (ou melhor, sem a ausên­cia) de pro­fes­so­res. Que tenham se dei­xa­do con­ta­mi­nar pelo vírus pro­fes­so­ral é uma hipó­te­se plau­sí­vel, mas não me pare­ce ser o caso, ain­da que tenham de fato dado uma aula de polí­ti­ca à ban­ca­da do Roda Viva. Não che­ga­ria ao extre­mo de dizer que seri­am hoje o sal da ter­ra, como outro­ra os estu­dan­tes rus­sos que povo­am os roman­ces de Turgueniev e Dostoievski, mui­to menos que ensai­am uma “ida ao povo” simi­lar. De qual­quer modo, o que não fal­tam são afi­ni­da­des pró­xi­mas ou remo­tas, alu­ci­na­das ou razoá­veis, que não toquem o cora­ção vete­ra­no do modes­to radi­ca­lis­mo de clas­se média que, segun­do Antonio Candido, mol­dou o espí­ri­to anti­o­li­gár­qui­co da Faculdade em que me for­mei. Resta a pre­ten­são de edu­car os demais movi­men­tos soci­ais, que você lhe atri­bui. Acho que estão jus­ta­men­te na exa­ta con­tra­mão des­sa mais do que entra­nha­da e per­ni­ci­o­sa ambi­ção do homem cul­to bra­si­lei­ro, man­dar e des­man­dar — e ponha man­dar nis­so — em nome do escla­re­ci­men­to do povo miú­do, a mar­cha do pro­gres­so de que falá­va­mos há pou­co. O cri­me fun­da­dor de Canudos que o diga: “O bri­lho da civi­li­za­ção atra­vés do cla­rão das des­car­gas”, escre­veu Euclides, antes de pas­sar ao capí­tu­lo da dego­la dos pri­si­o­nei­ros, obri­ga­dos a dar vivas á República, como pre­ci­sou lem­brar não faz mui­to Willi Bolle, estu­dan­do no Sertão de Guimarães Rosa a guer­ra per­ma­nen­te que move nos­sa máqui­na de moer gen­te.

4. Passando para o junho des­te ano, você diz no livro que o ver­da­dei­ro espó­lio da Copa será um apro­fun­da­men­to de apa­ra­tos coer­ci­ti­vos de vigi­lân­cia e puni­ção que, em oca­siões futu­ras, pode­rão ser aci­o­na­dos com mais efi­cá­cia do que hoje. Fora os mega­e­ven­tos de aten­ção inter­na­ci­o­nal, que pare­cem jus­ti­fi­car aos olhos da opi­nião média bra­si­lei­ra que o Estado sus­pen­da a nor­ma­li­da­de para maqui­ar o país de seus pro­ble­mas, que outras situ­a­ções pode­ri­am aci­o­nar esses meca­nis­mos de exce­ção?

Em toda e qual­quer situ­a­ção em que o novo ini­mi­go se apre­sen­te. Lembrando que no Brasil o ini­mi­go é sem­pre inter­no. Salvo a “mal­di­ta guer­ra” para­guaia e nos­sa pre­sen­ça ape­nas coad­ju­van­te na cam­pa­nha da Itália, como os demais lati­no-ame­ri­ca­nos, lem­brou cer­ta vez um estu­di­o­so euro­peu, fomos pou­pa­dos dos hor­ro­res da guer­ra inter­na­ci­o­nal de gran­de esca­la, mas ao pre­ço de pade­cer­mos o infer­no nas mãos de nos­sas pró­pri­as for­ças arma­das. E, por isso, não con­ta­mos ao lon­go do sécu­lo XX com um dos prin­ci­pais recur­sos de que dis­pu­se­ram os cida­dãos euro­peus e ame­ri­ca­nos para exi­gir a con­tra­par­ti­da dos direi­tos e do reco­nhe­ci­men­to soci­al, as guer­ras da nação con­tra seus ini­mi­gos exter­nos. Barganha sinis­tra que, no entan­to, pesou na deci­são dos paí­ses cen­trais, che­ga­da a hora de avan­çar sobre as con­quis­tas soci­ais pas­sa­das, deci­são de supri­mir o ser­vi­ço mili­tar e pro­fis­si­o­na­li­zar o “tra­ba­lho da guer­ra”, trans­for­man­do-o em mais um pos­to assa­la­ri­a­do reser­va­do de res­to, sobre­tu­do nos Estados Unidos, aos seus naci­o­nais de segun­da ou ter­cei­ra linha, os filhos da desi­gual­da­de, como se diz por lá. Por essas e por outras, nun­ca fomos uma soci­e­da­de pro­pri­a­men­te naci­o­nal-mili­tar, e por exten­são, sala­ri­al, nas quais os con­fli­tos soci­ais de fun­do aca­bam se acer­tan­do num real cam­po de bata­lha. Com o ini­mi­go inter­na­li­za­do des­de sem­pre, todo cui­da­do é pou­co ao falar­mos na mili­ta­ri­za­ção em cur­so no Brasil.

Pois é dis­so que tam­bém esta­mos falan­do ao dizer que, mega­ne­gó­ci­os à par­te, o real lega­do da Copa será um upgra­ding dos apa­re­lhos coer­ci­ti­vos. Ou ino­va­ção de ges­tão, como pre­fe­rem dizer as auto­ri­da­des encar­re­ga­das de todo esse fes­ti­val de vio­la­ções, gaban­do-se, por exem­plo, de que com os Centros de Integração de Comando e Controle, Secretaria Extraordinária de Segurança Pública para Grandes Eventos, e con­gê­ne­res, o “lega­do de ges­tão públi­ca já é rea­li­da­de na segu­ran­ça”, jar­gão para inte­gra­ção das vari­a­das for­ças de segu­ran­ça e des­tas com as Forças Armadas, para não men­ci­o­nar o apa­ra­to tec­no­ló­gi­co anti­dis­túr­bi­os con­tra­ta­do sem limi­tes orça­men­tá­ri­os jun­to aos for­ne­ce­do­res de sem­pre, Israel, Alemanha, etc. Um outro capí­tu­lo seria a tão influ­en­te quan­to dis­cre­ta e prós­pe­ra indús­tria béli­ca local, refor­ça­da ulti­ma­men­te pela entra­da das mes­mas emprei­tei­ras dos mega­pro­je­tos nes­te ramo de negó­cio, cuja quin­qui­lha­ria não expor­ta­da des­ti­na-se ao con­tro­le inter­no das “for­ças opo­nen­tes” elen­ca­das pelo recen­te Manual de Garantia da Lei e da Ordem. Como lem­brou o ex-pre­si­den­te do STF Cezar Peluso, “vive­mos de fato uma guer­ra inter­na no país”. Que, no entan­to, não é mais a da Ditadura. Nunca será demais insis­tir que o ini­mi­go ago­ra é outro. Sendo um peri­to em recur­sos huma­nos, o sub­ver­si­vo clás­si­co de ontem é hoje um ges­tor estra­té­gi­co pre­ci­o­so. Assim como o prin­ci­pal ris­co hoje é soci­al. Por isso mul­ti­pli­cam-se os públi­cos-alvo, e alvos exis­tem para serem atin­gi­dos por algum pro­jé­til, ou pro­je­to, como se quei­ra. Por mais inten­so e devas­ta­dor que tenha sido o tra­ta­men­to de cho­que da Ditadura, ela não che­gou pro­pri­a­men­te a mili­ta­ri­zar a ges­tão soci­al. A segu­ran­ça públi­ca por cer­to, mas é um caso de figu­ra tri­vi­al. Deixou esta tare­fa his­tó­ri­ca para a nos­sa demo­cra­cia de bai­xa inten­si­da­de, heran­ça mai­or que trans­mi­tiu aos seus adver­sá­ri­os de ontem, que por sua vez a defen­dem, tal “demo­cra­cia raci­o­na­da”, com um zelo puni­ti­vo redo­bra­do. Sobretudo na iden­ti­fi­ca­ção do novo ini­mi­go: ini­mi­go do povo — de cuja cha­ci­na pos­su­em a reser­va de mer­ca­do; ini­mi­go das últi­mas con­quis­tas soci­ais e da PM que as garan­te; ini­mi­go do desen­vol­vi­men­to, em todas as suas moda­li­da­des; ini­mi­go da paci­fi­ca­ção e sua “guer­ra ao con­trá­rio” ao cri­me orga­ni­za­do e seu duplo, o fan­tas­ma do neo­li­be­ra­lis­mo que nos assom­bra de qua­tro em qua­tro anos. E por aí vamos, pois a cons­tru­ção soci­al do ini­mi­go é inter­mi­ná­vel como a guer­ra sem fim que se tra­va mun­do afo­ra des­de que o capi­ta­lis­mo saci­ou sua his­tó­ri­ca fome cani­na pelo tra­ba­lho, tor­nan­do-se um negó­cio para pou­cos.

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