John Berger (1926-2017)

John Berger (1926-2017)

Liberdade e luta

Artes

10.01.17

Devo ter lido Modos de ver pela pri­mei­ra vez na déca­da de 1980. Não me recor­do das cir­cuns­tân­ci­as exa­tas, mas é capaz de ter sido pou­co antes de ingres­sar no mes­tra­do em his­tó­ria da arte. Lembro-me ape­nas de tê-lo devo­ra­do, com a vora­ci­da­de de quem jun­ta a fome com a von­ta­de de comer. Os anos pas­sa­ram. Recomendei o livro para mui­tos alu­nos e ori­en­tan­dos. Listei-o em inú­me­ras bibli­o­gra­fi­as. Aos pou­cos, como acon­te­ce com os auto­res que mais nos influ­en­ci­am, assi­mi­lei tão com­ple­ta­men­te suas idei­as que esque­ci de onde as havia tira­do. Mais do que um tex­to que eu citas­se, Modos de ver se tor­nou par­te do meu modo de ser e de pen­sar.

Quando John Berger fale­ceu na sema­na pas­sa­da, cons­ta­tei com sur­pre­sa que já não recor­da­va mais qua­se nenhum deta­lhe do livro. Afora uma vaga lem­bran­ça de peças de publi­ci­da­de jus­ta­pos­tas a qua­dros famo­sos da arte euro­peia e de um míti­co ensaio em ima­gens sem pala­vras, não con­se­guia citar uma úni­ca fra­se ou afir­mar com cer­te­za que tal ou tal obra cons­tas­se do volu­me. Tive que vol­tar à fon­te para escre­ver este tex­to. Descobri, pas­mo, que minha dívi­da com ele é ain­da mai­or do que ima­gi­na­va. Modos de ver me levou a ler Walter Benjamin e dali para Aby Warburg, Claude Lévi-Strauss, Maurice Merleau-Ponty, Pierre Bourdieu e de vol­ta ao pró­prio Berger, cuja obra irre­qui­e­ta abran­ge poe­sia, roman­ces, rotei­ros de cine­ma e peças de tea­tro, além dos ensai­os de arte que fize­ram sua fama mun­di­al. Publicou mais de cin­quen­ta livros, de abran­gên­cia e fôle­go impres­si­o­nan­tes, em pou­co mais de meio sécu­lo de ati­vi­da­de.

Berger não se con­ten­ta­va com pou­co. Aliás, pou­co se con­ten­ta­va. Ponto final. Mesmo depois de ganhar o mai­or prê­mio lite­rá­rio de seu país e vei­cu­lar um pro­gra­ma em sua prin­ci­pal rede de tele­vi­são, ambos em 1972, con­ti­nu­ou a viver em auto­e­xí­lio da Inglaterra, cujo esti­lo de vida ele des­pre­za­va. Desde seu com­ba­ti­vo, e deli­ci­o­so, pri­mei­ro livro de ensai­os crí­ti­cos – Permanent Red, de 1960 –, até o últi­mo lan­ça­do em 2016, nun­ca dei­xou de denun­ci­ar a ganân­cia por poder, dinhei­ro e cele­bri­da­de que põe em peri­go os valo­res mais essen­ci­ais da huma­ni­da­de. Nunca pou­pou, tam­pou­co, as mano­bras de um meio cul­tu­ral que bus­ca enre­dar a arte em tra­mas e dis­cur­sos capa­zes de esva­ziá-la de seu sen­ti­do crí­ti­co e ali­nhá-la com os inte­res­ses de quem o con­tro­la. Tal pro­ce­di­men­to, ele nome­a­va, em alto e bom som mar­xis­ta, como ‘mis­ti­fi­ca­ção’. Arte, para Berger, era liber­da­de e luta. Instituições cul­tu­rais, por melho­res que fos­sem, eram sem­pre ins­ti­tui­ções. Mais afei­tas à lógi­ca que rege ban­cos e empre­sas e minis­té­ri­os do que aos impul­sos ques­ti­o­na­do­res que geram a cri­a­ção.

Berger era um radi­cal, sem dúvi­da, no melhor sen­ti­do do ter­mo. Sua ação mais con­tes­ta­do­ra foi falar hones­ta­men­te sobre arte e ima­gem, em lin­gua­gem aces­sí­vel, o que logrou fazer em Modos de ver, que antes de ser livro foi uma série de pro­gra­mas na BBC. De repen­te, num con­tex­to acos­tu­ma­do a ouvir cul­tu­ra dis­cu­ti­da por senho­res engra­va­ta­dos, de fala empo­la­da, com pala­vre­a­do difí­cil e con­cei­tos filo­só­fi­cos abs­tru­sos, irrom­pia na teli­nha um jovem de cabe­los revol­tos que fala­va de fren­te para a câme­ra, mui­tas vezes com clo­se no seu olhar pene­tran­te, ges­ti­cu­lan­do con­tra um fun­do azul de chro­ma key. Logo na aber­tu­ra do pri­mei­ro pro­gra­ma, ele se apro­xi­ma de um qua­dro na pare­de da National Gallery, de Londres – Vênus e Marte, de Botticelli – e usa um esti­le­te para recor­tar um qua­dra­do cor­res­pon­den­te à cabe­ça pin­ta­da de Vênus. A ence­na­ção não é bem o que pare­ce. O qua­dro que ele recor­tou era uma cópia, cla­ro. O jovem ico­no­clas­ta não era tão novo assim (35 anos), e tam­pou­co um out­si­der ao meio artís­ti­co (a essa altu­ra, já atu­a­va como crí­ti­co de arte, havia mais de uma déca­da). A vetus­ta ins­ti­tui­ção, por sua vez, já não era mais tão tra­di­ci­o­na­lis­ta – tan­to que a cena foi fil­ma­da, com a devi­da auto­ri­za­ção, den­tro da National Gallery.

Anos depois, numa entre­vis­ta, Berger se quei­xou que a BBC não con­fi­a­va no pro­gra­ma e, por isso, de iní­cio só o vei­cu­lou em horá­rio alter­na­ti­vo. Hoje, sem dúvi­da, nenhu­ma emis­so­ra de tele­vi­são des­con­fi­a­ria. Teria cer­te­za. Jamais um rotei­ro tão decla­ra­da­men­te incen­diá­rio em seus pro­pó­si­tos, tão antagô­ni­co aos inte­res­ses comer­ci­ais de tudo e todos, encon­tra­ria espa­ço em qual­quer rede de tele­vi­são aber­ta do mun­do, mes­mo públi­ca. Naquele momen­to his­tó­ri­co – auge da ali­an­ça entre impren­sa e movi­men­tos pro­gres­sis­tas que levou à que­da do pre­si­den­te Nixon e ao fim da Guerra do Vietnã – Berger e seus com­pa­nhei­ros de pro­du­ção mal podi­am ima­gi­nar o quan­to esse equi­lí­brio de for­ças seria trans­for­ma­do nas déca­das seguin­tes. Ao con­trá­rio, viam na tele­vi­são um ins­tru­men­to para ata­car o esta­blish­ment cor­po­ra­ti­vo e esta­tal que o livro iden­ti­fi­ca como o novo foco de poder das clas­ses diri­gen­tes.

O pri­mei­ro epi­só­dio de Ways of seeing [Modos de ver], da BBC
 

Modos de ver cau­sou rebu­li­ço por con­ta de suas posi­ções polí­ti­cas. O capí­tu­lo em que Berger ana­li­sa a pin­tu­ra de nus foi um dos pri­mei­ros tex­tos a ado­tar uma pers­pec­ti­va femi­nis­ta para dis­cu­tir ques­tões de his­tó­ria da arte. Outro capí­tu­lo, sobre a rela­ção entre pin­tu­ra e pos­se e cole­ci­o­nis­mo, abor­da a mate­ri­a­li­da­de da arte como mer­ca­do­ria, sujei­tan­do qua­dros de Holbein, Ruisdael e Gainsborough, entre outros, a uma aná­li­se antro­po­ló­gi­ca. Naquela épo­ca, tais pro­ce­di­men­tos ain­da cho­ca­vam as sen­si­bi­li­da­des de um públi­co de arte acos­tu­ma­do a olhar para os gran­des mes­tres com uma vene­ra­ção qua­se reli­gi­o­sa. O intui­to de Berger era des­ban­car, jus­ta­men­te, essa fal­sa pie­da­de e apro­xi­mar seus lei­to­res dos artis­tas como são de fato: pes­so­as inse­ri­das na soci­e­da­de, sujei­tas às mes­mas pres­sões e cir­cuns­tân­ci­as que os outros. O alvo decla­ra­do de sua fúria era a cas­ta de crí­ti­cos, cura­do­res e experts que se pos­tam como guar­diães des­sa pseu­do-reli­gião. Sendo ele mes­mo um pin­tor que deci­di­ra aban­do­nar a pin­tu­ra pela crí­ti­ca, Berger não supor­ta­va a pre­sun­ção com que cer­tas auto­ri­da­des se arvo­ram em donos de um artis­ta ou de uma obra. Queria abrir o cená­cu­lo da arte para todos.

Alguns dos posi­ci­o­na­men­tos polí­ti­cos em Modos de ver podem soar ultra­pas­sa­dos. Passaram-se qua­ren­ta e tan­tos anos, afi­nal, e o mun­do de hoje é qua­se irre­co­nhe­cí­vel para a mai­o­ria das pes­so­as que per­ten­cem à gera­ção de Berger, que mor­reu com 90 anos com­ple­tos. A his­tó­ria da arte tam­bém mudou, revo­lu­ci­o­na­da nas déca­das de 1980 e 1990 por uma gera­ção de estu­di­o­sos que teve a opor­tu­ni­da­de de ler Modos de ver ou, até mes­mo, de assis­tir à série na tele­vi­são quan­do eram jovens. Em seu sen­ti­do mai­or, no entan­to, o livro con­ti­nua não somen­te atu­al como tam­bém afi­a­do. Para ver­go­nha e tris­te­za nos­sa, ain­da não avan­ça­mos em diver­sas fren­tes aber­tas por Berger em 1972. Em outras, che­ga­mos a regre­dir. Um aspec­to espe­ci­al­men­te cati­van­te para quem estu­da ima­gens é o modo sem cerimô­nia como o livro com­pa­ra obras de arte con­sa­gra­das a peças grá­fi­cas ou de publi­ci­da­de. Passado o boom dos estu­dos de cul­tu­ra visu­al nos anos 1990 e 2000, sub­sis­te ain­da uma resis­tên­cia incom­pre­en­sí­vel a esse tipo de abor­da­gem em mui­tos cur­sos uni­ver­si­tá­ri­os, ins­ti­tui­ções expo­si­ti­vas e mes­mo edi­to­ras.

O esno­bis­mo de quem quer man­ter a arte como foro pri­vi­le­gi­a­do de espe­ci­a­lis­tas e ini­ci­a­dos, apar­ta­da da vida como ela é, tem se mos­tra­do recal­ci­tran­te. Faríamos bem em aten­tar para as pala­vras com que Berger con­clui o pri­mei­ro ensaio de Modos de ver:

A arte do pas­sa­do não exis­te mais do mes­mo modo. Sua auto­ri­da­de foi per­di­da. Em seu lugar, há uma lin­gua­gem ima­gé­ti­ca. O que impor­ta ago­ra é quem usa essa lin­gua­gem e para quais pro­pó­si­tos. Isso diz res­pei­to a ques­tões de direi­to de repro­du­ção das ima­gens, a quem são os pro­pri­e­tá­ri­os das edi­to­ras de arte, à polí­ti­ca glo­bal de gale­ri­as e museus de arte públi­cos.

Hoje, cla­ro, deve-se acres­cen­tar que diz res­pei­to tam­bém aos mei­os de comu­ni­ca­ção que vei­cu­lam a arte como pro­du­to e entre­te­ni­men­to. Parece ter fica­do para trás, na déca­da de 1970, a res­pon­sa­bi­li­da­de de tor­nar aces­sí­veis os bens cul­tu­rais, per­mi­tin­do assim que novas gera­ções se sin­tam incluí­das nos valo­res que são patrimô­nio cole­ti­vo. O obje­ti­vo de for­mar o públi­co por meio da tele­vi­são – sim­bo­li­za­do pelo suces­so inter­na­ci­o­nal de Modos de ver – foi esque­ci­do na cor­ri­da desen­fre­a­da pela audi­ên­cia. O espí­ri­to con­fron­ta­dor de Berger nos obri­ga a per­gun­tar se esse esque­ci­men­to é cir­cuns­tan­ci­al ou estra­té­gi­co.

 

MAIS JOHN BERGER NO IMS

Pietà, o dra­ma moral de W. Eugene Smith — tex­to publi­ca­do na ZUM 6.

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