Lições de Janet Malcolm — quatro perguntas a Otavio Frias Filho

Quatro perguntas

24.05.11

No núme­ro mais recen­te da revis­ta ser­ro­te, o jor­na­lis­ta e dire­tor de reda­ção da Folha de S. Paulo, Otavio Frias Filho, publi­cou um ensaio sobre o livro O jor­na­lis­ta e o assas­si­no, de Janet Malcolm.

Recém-edi­ta­do no Brasil pela Companhia das Letras, o livro tra­ta da rela­ção entre o médi­co Jeffrey MacDonald, acu­sa­do de matar a mulher e as duas filhas, e o jor­na­lis­ta Joe McGinniss, encar­re­ga­do de escre­ver sobre o caso.

McGinniss con­quis­tou a con­fi­an­ça do médi­co, que abriu cami­nho para a repor­ta­gem e deu aces­so a sua inti­mi­da­de. Quatro anos mais tar­de, quan­do o livro veio à tona, o médi­co era apre­sen­ta­do do iní­cio ao fim como um assas­si­no psi­co­pa­ta.

Em O jor­na­lis­ta o assas­si­no, Malcolm par­te des­se caso para ana­li­sar as impli­ca­ções da rela­ção entre jor­na­lis­ta e fon­te: em seu enten­der, a fon­te é sem­pre o lado frá­gil da rela­ção.

Na entre­vis­ta abai­xo, Frias Filho res­pon­de a qua­tro ques­tões for­mu­la­das pelo blog do IMS sobre o livro de Malcolm. Na edi­ção impres­sa da ser­ro­te, veja a ínte­gra de seu ensaio.

Janet Malcolm afir­ma em O jor­na­lis­ta e o assas­si­no que o jor­na­lis­mo é uma ati­vi­da­de moral­men­te inde­fen­sá­vel. É uma fra­se de efei­to, como o senhor mes­mo diz no tex­to, mas, ain­da assim, seria pos­sí­vel extrair des­sa sen­ten­ça uma espé­cie de guia no intui­to de evi­tar os exces­sos da pro­fis­são?

Parece-me uma fra­se de efei­to, mas ao mes­mo tem­po uma adver­tên­cia dura sobre a qual todo jor­na­lis­ta faria bem em medi­tar. Um dos prin­ci­pais pro­ble­mas da ati­vi­da­de jor­na­lís­ti­ca é a arro­gân­cia que ela cos­tu­ma ense­jar em quem escre­ve. Quase sem­pre sabe­mos pou­co sobre o assun­to a ser foca­li­za­do e mes­mo assim temos pro­pen­são a che­gar facil­men­te a todo tipo de cer­te­zas, que por sua vez refle­tem nos­sos hábi­tos adqui­ri­dos de pen­sa­men­to. A fra­se de Janet Malcolm, com seu alcan­ce drás­ti­co, deve­ria ser um con­vi­te a pen­sar con­tra nos­sos hábi­tos, con­tra nos­sas ten­dên­ci­as e impul­sos.

O prin­cí­pio da rela­ção entre fon­te e jor­na­lis­ta impli­ca sem­pre des­con­fi­an­ça? Malcolm defen­de que a fon­te sem­pre sai per­den­do. Mas o desa­fio para o jor­na­lis­mo hoje não é o opos­to, quer dizer, man­ter-se crí­ti­co e não ceder sem­pre aos inte­res­ses das fon­tes?

Malcolm cos­tu­ma abor­dar, em seus ensai­os, a luta entre ver­sões nar­ra­ti­vas em tor­no da memó­ria de gran­des escri­to­res do pas­sa­do ou de pro­ces­sos judi­ci­ais intrin­ca­dos. Ela diz pou­co ou nada sobre o jor­na­lis­mo noti­ci­o­so, que se vol­ta para reve­la­ções de notó­rio inte­res­se públi­co, rela­ta­das em regi­me de urgên­cia e capa­zes de inte­res­sar qual­quer adul­to alfa­be­ti­za­do. Nesse tipo de jor­na­lis­mo é fre­quen­te que as fon­tes dis­po­nham de gran­de poder e este­jam no polo mani­pu­la­dor da rela­ção com o jor­na­lis­ta.

Janet Malcolm recor­re diver­sas vezes à psi­ca­ná­li­se para des­cre­ver a rela­ção entre jor­na­lis­ta e fon­te. Em seu tex­to, ao iden­ti­fi­car esse tra­ço no livro, o senhor afir­ma que, em alguns casos, “jor­na­lis­ta e ana­lis­ta atu­am em dire­ções exa­ta­men­te opos­tas”. Poderia des­do­brar a afir­ma­ção?

Jornalista e psi­ca­na­lis­ta atu­am em dire­ções opos­tas, nes­se con­tex­to, por­que enquan­to ao pri­mei­ro cabe tor­nar a nar­ra­ti­va mais inte­res­san­te, res­sal­tan­do tudo o que ela con­ti­ver de espe­ta­cu­lar e inu­su­al, cabe ao segun­do decompô-la, bus­can­do sua “bana­li­da­de”, aqui­lo que a apro­xi­ma da vida da gran­de mai­o­ria das pes­so­as.

Malcolm é repre­sen­tan­te de um tipo de jor­na­lis­mo — o jor­na­lis­mo lite­rá­rio — que encon­tra inte­res­se reno­va­do no Brasil, com revis­tas dedi­ca­das à prá­ti­ca, cole­ções lan­ça­das por gran­des edi­to­ras e encon­tros lite­rá­ri­os que se dedi­cam a dis­cu­ti-lo. Isso tem trans­for­ma­do o tipo de jor­na­lis­mo fei­to pela gran­de impren­sa? Em outros ter­mos: quais os ganhos e arma­di­lhas por trás des­sa con­cep­ção de jor­na­lis­mo?  

Os ganhos, a meu ver, decor­rem de um exa­me jor­na­lís­ti­co mais deti­do, mais ela­bo­ra­do, menos super­fi­ci­al que o cos­tu­mei­ro. Em alguns casos, pode-se atin­gir uma qua­li­da­de lite­rá­ria que tem valor em si. As limi­ta­ções são duas, na minha opi­nião. A gran­de mai­o­ria dos lei­to­res não tem tem­po, paci­ên­cia nem trei­na­men­to para con­su­mir o cha­ma­do jor­na­lis­mo lite­rá­rio. E este pode, às vezes, res­va­lar para o irre­le­van­te, o frí­vo­lo, o ines­sen­ci­al.

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