Livros de colorir

Colunistas

27.05.15

Uma ami­ga me envia um e-mail no meio da noi­te. Está indig­na­da: “Não é pos­sí­vel que você não tenha nada a dizer sobre os livros de colo­rir!”.  Ela vem me infer­ni­zan­do faz sema­nas, des­de que des­co­briu que os livros de colo­rir entra­ram para as lis­tas de best-sel­lers. Mas ago­ra, segun­do ela, são seis entre os dez livros mais ven­di­dos. Minha ami­ga vai explo­dir, mas eu con­ti­nuo sem ver qual é o pro­ble­ma e sem con­se­guir com­par­ti­lhar sua indig­na­ção, por mai­or que seja minha sim­pa­tia por ela e por mai­or que seja minha aver­são aos livros de colo­rir.

Jardim secreto inaugurou a moda dos livros de colorir para adultos

Ao con­trá­rio do que pen­sa minha ami­ga, os livros de colo­rir não são tão dife­ren­tes de outros títu­los que cos­tu­mam fre­quen­tar as lis­tas de best-sel­lers. Eles são ape­nas uma radi­ca­li­za­ção dos livros rela­xan­tes, des­ti­na­dos a entre­ter e dis­trair o lei­tor do estres­se e do caos da vida diá­ria. No balan­ço de ven­das anun­ci­a­do com orgu­lho no final das fei­ras e bie­nais do livro figu­ram sem­pre as revis­ti­nhas, os livros de auto­a­ju­da e os de pro­se­li­tis­mo reli­gi­o­so.

Há uma dife­ren­ça entre livros e lite­ra­tu­ra. Mas há sobre­tu­do uma dife­ren­ça entre quem fala de livros e quem fala de lite­ra­tu­ra. No ano pas­sa­do, fiquei abis­ma­do ao assis­tir ao vídeo do encon­tro entre Juergen Boos, dire­tor da Feira de Frankfurt, e Paulo Coelho, no Frankfurt Business Center. Paulo Coelho exal­ta­va a Amazon e o futu­ro do livro na inter­net, con­tra as edi­to­ras tra­di­ci­o­nais, o que é coe­ren­te para um autor que vive na lis­ta dos best-sel­lers. Paulo Coelho não pre­ci­sa das edi­to­ras; elas é que pre­ci­sam dele. Ele não esta­va dizen­do nada erra­do além de se pro­mo­ver com aque­le jei­to que a mui­tos pare­ce detes­tá­vel. Mas Boos não con­se­guia con­ter o des­lum­bra­men­to de estar ao lado de um autor com 160 milhões de exem­pla­res ven­di­dos no mun­do. Podia ser quem quer que fos­se, con­tan­to que tives­se ven­di­do 160 milhões de exem­pla­res. Boos pare­cia uma cri­an­ça no colo de Papai Noel. Aquilo me eno­jou. Um ami­go bel­ga com quem comen­tei a minha indig­na­ção me per­gun­tou espan­ta­do: “Mas você que­ria o quê? Ele é o dire­tor da Feira de Frankfurt!”

Quem está inte­res­sa­do na ven­da de livros não pre­ci­sa estar inte­res­sa­do em lite­ra­tu­ra e, como ago­ra pro­vam heroi­ca­men­te os livros de colo­rir, nem mes­mo em pala­vras. No fun­do, os livros de colo­rir pres­tam um gran­de ser­vi­ço de escla­re­ci­men­to a quem ain­da não tinha com­pre­en­di­do o fun­ci­o­na­men­to do mer­ca­do de livros. O inte­res­se de quem quer ven­der livros por lite­ra­tu­ra é cola­te­ral, secun­dá­rio.

Uma coi­sa inte­res­san­te nis­so tudo é o lugar do edi­tor. Pra que ser­ve um edi­tor? Quando Paulo Coelho faz o elo­gio da Amazon, em Frankfurt, con­tra as edi­to­ras, sob os olha­res embe­ve­ci­dos do dire­tor da Feira, ele fala em nome do opor­tu­nis­ta que segue a favor do ven­to, para onde quer que o ven­to sopre. Divide os livros entre “conhe­ci­men­to” e “entre­te­ni­men­to” e, ide­al­men­te, con­ce­be uma com­bi­na­ção entre os dois, mas sem levar em con­ta a pos­sí­vel con­tra­di­ção aí embu­ti­da: que conhe­ci­men­to supõe o des­co­nhe­ci­do e que, embo­ra haja pra­zer no conhe­ci­men­to, nin­guém se ati­ra ao des­co­nhe­ci­do por pra­zer. É cla­ro que lite­ra­tu­ra é entre­te­ni­men­to, mas o des­co­nhe­ci­do supõe coi­sas que tal­vez você não quei­ra ouvir e que tal­vez (mui­to pro­va­vel­men­te) con­tra­ri­em suas idei­as e suas cer­te­zas. Não é fácil nem engra­ça­do sair da sua zona de con­for­to. É duro con­ce­ber que a Terra gire em tor­no do sol depois de uma vida acre­di­tan­do que era o sol que gira­va em tor­no da Terra.

Além de entre­te­ni­men­to e conhe­ci­men­to, Paulo Coelho esque­ceu de se refe­rir à resis­tên­cia de uma lite­ra­tu­ra que vai con­tra a cor­ren­te, por­que está inte­res­sa­da jus­ta­men­te no des­co­nhe­ci­do. Tanto os livros de Paulo Coelho como os de colo­rir estão inte­res­sa­dos em man­ter o lei­tor na sua zona de con­for­to. São livros rela­xan­tes. Os de Paulo Coelho, fazen­do o lei­tor acre­di­tar que está des­co­brin­do, como péro­las de sabe­do­ria, aqui­lo que no fun­do ele sem­pre pen­sou. São livros que, no lugar do conhe­ci­men­to (que pres­su­põe o ris­co de se per­der, o ris­co de resis­tir ao sen­so comum para se aven­tu­rar no incer­to), con­fir­mam o lugar-comum. Se ele pode fazer o elo­gio da gra­tui­da­de na inter­net e da Amazon, con­tra a obso­les­cên­cia das edi­to­ras, é por­que repro­duz o mes­mo, o que todo mun­do vai ler de qual­quer jei­to, pagan­do ou não, pelo con­for­to e pela tran­qui­li­da­de de chan­ce­lar a sua com­pre­en­são pré­via do mun­do.

Paulo Coelho está no seu papel. Não há nada erra­do com ele, assim como não há nada erra­do com livros de colo­rir. Mas eles con­fron­tam os edi­to­res com o seu papel. E já não era sem tem­po. Se, como diz Paulo Coelho, os livros ser­vem tam­bém para o conhe­ci­men­to (e se o conhe­ci­men­to supõe esse esfor­ço de ir con­tra a cor­ren­te, mui­tas vezes con­tra o que se quer ouvir ou ler, rumo a um alar­ga­men­to da com­pre­en­são do mun­do, no qual a meu ver se inse­re a lite­ra­tu­ra) então – e a ima­gem do embe­ve­ci­men­to do dire­tor da Feira de Frankfurt dian­te das ven­das de Paulo Coelho é um sím­bo­lo cons­tran­ge­dor – tal­vez já não haja mes­mo neces­si­da­de de edi­to­res no mun­do. Desses edi­to­res, pelo menos.

, , ,