Luiz Gonzaga dormiu lá em casa

Música

22.03.12

Se há um cen­te­ná­rio de nas­ci­men­to que me emo­ci­o­na é o de Luiz Gonzaga, a mim, que guar­do esta his­to­ri­nha com o rei do baião, embo­ra não tenha sido eu coad­ju­van­te no sen­ti­do exa­to do ter­mo.

Das lem­bran­ças mais ale­gres da minha infân­cia, guar­do a da fes­ta de  ani­ver­sá­rio de cin­co anos de meu irmão, Francisco. De pre­sen­te, ele  ganhou um car­ro gran­de, em que podia entrar e pegar o volan­te, aper­tar o pedal e tudo, que, naque­le tem­po, não era de plás­ti­co, mas  de alu­mí­nio. Sentado no ban­co úni­co, ele tes­ta­va o brin­que­do que, em 1957, no inte­ri­or do Ceará, era um luxo: ver­de mus­go, com uma estre­la no capô, car­ro de herói em guer­ra, que meu irmão diri­gia ao som do baião Que nem jiló, de 1950. No rit­mo tre­pi­dan­te do fole de Luiz Gonzaga, na gra­va­ção da RCA Victor, que lan­ça­ria qua­se a sua obra intei­ra, a gen­te nem se dava con­ta da sau­da­de que pun­gia nos ver­sos de Humberto Teixeira, autor da letra. Não sei expli­car, mas a ver­da­de é que não se conhe­cia jiló na região, e de sau­da­de, eu, aos dez anos de ida­de, ain­da não enten­dia nada. Mas não impor­ta­va; o rit­mo do baião era tudo, ou qua­se tudo: era a ale­gria nos acor­des sim­ples, nas estru­tu­ras repe­ti­ti­vas. Além dis­so, a can­ção tinha um fecho de espe­ran­ça: Mas nin­guém pode dizer que me viu tris­te a chorar/ Saudade, o meu remé­dio é can­tar. Era esse can­tar, no som pro­lon­ga­do da melo­dia, que entra­va nos nos­sos cora­ções de cri­an­ça.

Naquela noi­te, meu irmão apru­ma­va (ou desa­pru­ma­va) o car­ro e ensai­a­va cur­vas teme­rá­ri­as na varan­da late­ral da casa. Na sala, a Tetezinha, afi­lha­da de meus pais que aju­dou minha mãe a cri­ar os qua­tro filhos, per­ma­ne­cia ao lado da gran­de cai­xa ver­me­lha, espé­cie de esto­jo onde era guar­da­da a vitro­la, ain­da de cor­da, já que só tínha­mos luz por pou­co mais de duas horas: era liga­da às sete e des­li­ga­da às nove e meia da noi­te. Sentada no chão, pés des­cal­ços, lar­gos, por­ti­na­ri­a­nos, que o ves­ti­do dei­xa­va à vis­ta, ela abria a tam­pa da cai­xa, de onde saía o som, encai­xa­va a mani­ve­la, que a gen­te cha­ma­va bra­ço, e não por aca­so esco­lhia o 78 rota­ções Baião, par­ce­ria de Luiz Gonzaga com Humberto Teixeira, para abrir a fes­ta. Naquele micro­cos­mo fami­li­ar de Mombaça, onde nas­ci, no ser­tão cen­tral do esta­do, a can­ção con­ser­va­va o mar­co ino­va­dor que lhe era ine­ren­te des­de 1946, quan­do foi gra­va­da pelo con­jun­to  Quatro Ases e um Coringa e arre­ba­tou o país. Só em 1949 Luiz Gonzaga gra­va­ria a sua ver­são. De um jei­to ou de outro, o novo rit­mo não só  assen­tou na alma nor­des­ti­na, de onde se ori­gi­na­va, como tomou o Brasil de pon­ta a pon­ta e entrou até mes­mo no high soci­ety do sudes­te, nos cas­si­nos, indis­tin­ta­men­te, ao lado de Nat King Cole e as big bands. Entrou para mudar defi­ni­ti­va­men­te a his­tó­ria da músi­ca popu­lar bra­si­lei­ra, na qual pas­sou a cons­ti­tuir gêne­ro dos mais pres­ti­gi­a­dos.

Está cla­ro que não sabía­mos nada dis­so. O que sabía­mos era que na fes­ta não  podia fal­tar Asa bran­ca, com o mes­mo selo da RCA Victor que temos aqui no IMS, na bibli­o­te­ca José Ramos Tinhorão.

 

 

E quan­do a voz do can­tor come­ça­va a der­ra­par em Espero a chu­va cai­i­ir de noo­vo­oo, des­ca­rac­te­ri­zan­do a melo­dia, a Tetezinha rapi­da­men­te agar­ra­va o bra­ço da vitro­la e dava cor­da com vigor. Era a DJ da fes­ta e fã abso­lu­ta do Gonzagão.

Tetezinha foi das pes­so­as mais ele­gan­tes que conhe­ci. Elegância fran­cis­ca­na, que é a legí­ti­ma. Falava pou­co e bai­xo, movia-se deva­gar,  fazia-se res­pei­tar pela  nobre­za de cará­ter e de ges­tos. Quando dizia “hum, hum!”, que sig­ni­fi­ca­va “não”, nenhum de nós ousa­va deso­be­de­cer. Nunca foi à esco­la, minha mãe ensi­nou-lhe a ler e escre­ver. Adulta, tinha dois cader­nos: o de recei­tas e o das letras das can­ções de Luiz Gonzaga, copi­a­das com a letri­nha lim­pa e bem dese­nha­da.

Muito jus­to que vies­se a ser anfi­triã do com­po­si­tor, o que acon­te­ce­ria em 1966, quan­do eu já era alu­na da Faculdade de Letras, em Fortaleza, e a vitro­la da casa ser­ta­ne­ja tinha sido subs­ti­tuí­da por uma radi­o­la, toca-dis­cos elé­tri­co, o fino! Desde o final da déca­da de 1950, com o adven­to da bos­sa-nova, e depois da jovem guar­da, a extra­or­di­ná­ria popu­la­ri­da­de de Luiz Gonzaga come­ça­ra a entrar em declí­nio. Os dez anos de gló­ria do baião, de 1946 a 1956, tinham che­ga­do ao fim. O jei­to foi vol­tar à estra­da e fazer shows pelo inte­ri­or. Se o can­tor se afas­ta­va das mul­ti­dões que o con­sa­gra­ram, rea­pro­xi­ma­va-se da sua gen­te, tra­zen­do nos bra­ços, além da san­fo­na, a bio­gra­fia O san­fo­nei­ro do ria­cho da Brígida: vida e andan­ças de Luiz Gonzaga, o rei do Baião, de Sinval Sá, publi­ca­da naque­le mes­mo ano de 1966. Era o pró­prio bio­gra­fa­do que a divul­ga­va ser­tão aden­tro.

Tetezinha me con­tou que numa tar­de quen­te e igual a todas as outras, viu Luiz Gonzaga sen­ta­do debai­xo do pé de jua­zei­ro, na pra­ça da cida­de. No calor de 38 graus a que já era  acos­tu­ma­do, mas nem por isso dei­xa­va de pade­cer, ele espe­ra­va, resig­na­do, que a d. Lozinha, pro­pri­e­tá­ria da úni­ca pen­são da cida­de, lavas­se o quar­to que ele deve­ria ocu­par.

Aquilo não era tra­ta­men­to que se des­se a um rei. A Tetezinha, que nun­ca inter­ce­dia em favor de alguém que não fos­se um de nós, os filhos da madri­nha, em par­te seus tam­bém, vol­tou pra casa às pres­sas, encheu-se de cora­gem e pediu a meu pai que hos­pe­das­se o can­tor. Teve de pedir ao padri­nho, sim, por­que cabia a ele tomar as deci­sões mais impor­tan­tes. Desconfio que papai sor­riu satis­fei­to mais por aten­der a um pedi­do dela do que mes­mo por rece­ber o hós­pe­de ilus­tre.

Foi assim que o per­nam­bu­ca­no Luiz Gonzaga do Nascimento, nas­ci­do em 13 de dezem­bro de 1912, na fazen­da Caiçara, muni­cí­pio de Exu, che­gou à nos­sa casa. Certamente a Tetezinha não ia dizer como Acmena, per­so­na­gem que Tônia Carrero inter­pre­tou em Um deus dor­miu lá em casa, peça de Guilherme Figueiredo que deu a Paulo Autran, no papel de Júpiter, o prê­mio de autor reve­la­ção, em 1949. A cer­ta altu­ra,  Tônia, lin­dís­si­ma, se ajo­e­lha aos pés de Autran, lin­dís­si­mo, e diz: “A pou­cas mulhe­res cabe a gló­ria de rece­ber um deus sob seu teto”.

Derramamentos não com­bi­nam com o agres­te. Longe do cená­rio faus­to­so da peça, rei­na­vam a sobri­e­da­de do ser­tão e da anfi­triã, que tra­tou logo de pro­vi­den­ci­ar um banho fres­qui­nho para o recém-che­ga­do. Não se tra­ta­va de um deus. Era mais. Era o  intér­pre­te das emo­ções mais genuí­nas, as mais ale­gres e as mais tris­tes que nos impreg­na­vam naque­le uni­ver­so desa­len­ta­do. Se Asa bran­ca caiu no gos­to de quem nun­ca viveu a temá­ti­ca des­sa toa­da, que dirão os que viven­ci­a­ram o “bra­sei­ro”, a “for­naia”, a “fal­ta d’água” e, final­men­te, a migra­ção? Era tudo natu­ral e com­ple­ta­men­te nos­so, mas a músi­ca de Luiz Gonzaga transpôs o regi­o­nal e se uni­ver­sa­li­zou de tal modo, que se como­vem com Dezessete légua e meia até mes­mo aque­les que nun­ca bota­ram o pé num ter­rei­ro de bar­ro bati­di­nho pra sen­tir pul­sar um cora­ção cola­do ao seu.

Nosso hós­pe­de tomou um banho, ves­tiu o slack bran­co e sen­tou-se na rede, na varan­da da fren­te da casa. Talvez não se sur­pre­en­des­se, e abriu o sor­ri­so lar­go quan­do viu a pilha dos 78rpm de sua auto­ria. Foi assim que meus dois irmãos o encon­tra­ram quan­do che­ga­ram da esco­la.

Lembra ain­da o Francisco que Luiz Gonzaga não quis comer nada antes do show, que foi às 19 horas, no Ginásio Castro Alves, espé­cie de Carnegie Hall de Mombaça — é ain­da meu irmão quem con­ta. Tetezinha teve direi­to de levar quan­tas pes­so­as qui­ses­se. Assim, foi acom­pa­nha­da da d. Celina, a lava­dei­ra, d. Vicença, a reza­dei­ra que mui­tas vezes rezou minha gar­gan­ta com um rami­nho de man­gi­ro­ba, e outras con­vi­da­das não menos impor­tan­tes. Quando os ingres­sos esgo­ta­ram, Luiz Gonzaga come­çou o show. Em meio aos pri­mei­ros acor­des, meio can­tan­do, meio falan­do, orde­nou que a tur­ma do sere­no entras­se. Ninguém ficou do lado de fora.  Meu irmão mais novo, Geraldo, não aguen­tou o rojão e dor­miu no colo da Tetezinha, mas nem por isso Gonzagão dei­xou de agra­de­cer tam­bém, no pal­co, aos dois meni­nos da casa que o aco­lhia.

Só depois da apre­sen­ta­ção é que ele quis jan­tar. Sem bebi­da alcoó­li­ca. Na sobre­me­sa, expe­ri­men­tou mais de uma das com­po­tas fei­tas por minha mãe. E eram mui­tas. Podia ter dor­mi­do na cama de uma de nós, minha ou da minha irmã, que está­va­mos em Fortaleza, mas pre­fe­riu a rede. Como tivés­se­mos, as moças da casa, direi­to a um quar­to com camas e outro com redes, ele ficou no nos­so quar­to, sim, mas no das redes, na mais alva e mais ren­da­da, como mere­cia.

Avisou que sai­ria às cin­co da manhã. A Tetezinha acor­dou mui­to cedo (terá dor­mi­do?), fez tapi­o­ca de coco, cus­cuz de milho, ser­viu o café da manhã e lá se foi o Lua, dei­xan­do um exem­plar auto­gra­fa­do da bio­gra­fia de Sinval Sá, que guar­do com cari­nho. Não ima­gi­na­va ele que, dois anos depois, em 1968, Carlos Imperial inven­ta­ria que os Beatles pla­ne­ja­vam gra­var Asa bran­ca, o que já bas­tou para que a popu­la­ri­da­de do com­po­si­tor subis­se de novo. Mais um pou­co, e em 1971, na mes­ma Londres de onde o con­jun­to inglês encan­tou o mun­do, Caetano Veloso, então exi­la­do, gra­vou Asa bran­ca, àque­la altu­ra já um clás­si­co, como pro­fe­ti­za­ra Humberto Teixeira pou­co depois da gra­va­ção, em 1947, con­tes­tan­do o vio­lo­nis­ta Canhoto, que acha­va a can­ção pare­ci­da com “músi­ca de cego” — con­ta Luiz Gonzaga em entre­vis­ta.

Que nada! No colé­gio da Imaculada Conceição, em Fortaleza, vira e mexe sur­gia a Glória, minha cole­ga, com sua san­fo­na para tocar as can­ções de Gonzaga nas fes­tas, assim como era fre­quen­te um san­fo­nei­ro letra­do se exi­bir nas reu­niões em casa de ami­gos. Graças a Luiz Gonzaga a san­fo­na se apro­xi­mou do pia­no e pas­sou a fazer par­te da edu­ca­ção do jovem nor­des­ti­no naque­la déca­da de 1950. Minha irmã, Laís, ganhou a sua Scandalli ver­me­lha, que em pou­co tem­po aban­do­nou, assim como eu não demo­rei a tro­car o pia­no pelos cur­sos da Aliança Francesa e da Cultura Inglesa. Faltou-nos talen­to musi­cal.

A pre­sen­ça de Luiz Gonzaga ia além da músi­ca e da dan­ça: o nos­so voca­bu­lá­rio coti­di­a­no incor­po­ra­va as expres­sões, que se popu­la­ri­za­vam na sua voz: “Respeita o Januário”, dizia, igno­ran­do o gêne­ro, uma mulher do inte­ri­or que se sen­tia ofen­di­da. “No Ceará não tem dis­so não”, de Guio de Moraes que Gonzaga gra­vou, ser­viu a mui­tos cea­ren­ses atin­gi­dos de algu­ma for­ma nos seus bri­os. E quan­tas outras…

Talvez pos­sa dizer que, na ado­les­cên­cia, quan­do tinha conhe­ci­do e me apai­xo­na­do pelo mar, em Fortaleza, encon­tra­va em Assum pre­to a tra­du­ção do apri­si­o­na­men­to que eu expe­ri­men­ta­va quan­do vol­ta­va ao ser­tão. Mas é con­tra­di­tó­rio. Se eu me iden­ti­fi­ca­va tan­to com a bri­sa da capi­tal e não com o mor­ma­ço do inte­ri­or, por que, até hoje me emo­ci­o­no tan­to ao ouvir o cla­mor de Vozes da seca, hino de dig­ni­da­de nor­des­ti­na na par­ce­ria de Gonzaga com Zé Dantas, de 1953? “Seu doutô os nordestinos/ Têm mui­ta gratidão/ Pelo auxí­lio dos sulistas/ Nessa seca do sertão/ Mas doutô uma esmola/ A um homem que é são/ ou lhe mata de vergonha/ Ou vicia o cida­dão.” Talvez por­que tenham se fixa­do para sem­pre na minha memó­ria os olha­res cons­tran­gi­dos dos cas­sa­cos — com a, como cha­má­va­mos os fla­ge­la­dos — a quem nós, cri­an­ças, dis­tri­buía­mos fari­nha e rapa­du­ra, na fren­te da casa, em anos de seca.

 

* Elvia Bezerra é coor­de­na­do­ra de lite­ra­tu­ra do Instituto Moreira Salles

 

* Na ima­gem que ilus­tra a aber­tu­ra do post: o com­po­si­tor Luiz Gonzaga (Coleção Tinhorão — IMS)

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