Macau à flor da pele

Correspondência

06.02.12

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Chico,

 

Menos ami­gos, menos pro­gra­mas, menos angús­tia, menos eufo­ria: menos sede. Você me pare­ce bas­tan­te hidra­ta­do em sua roti­na, tem­po para ler, foco, cal­ma. Eu, ao con­trá­rio, sigo doman­do leões no Rio ou do outro lado do mun­do. Eu que­ro ser Chico Mattoso em 2013.

Macau até ago­ra? Nunca tive um jet leg tão des­trui­dor. Se não des­can­so no quar­to, quan­do saio meu cére­bro é que não para. Isso aqui é um peque­no e sim­bó­li­co apên­di­ce de ter­ra onde tudo está na sua cara: um quar­tei­rão resu­me sécu­los de colo­ni­a­lis­mo e uns pou­cos e sel­va­gens anos de glo­ba­li­za­ção em arra­nha-céus de néon empa­re­lha­dos com sobra­dos por­tu­gue­ses e rue­las medi­e­vais. E ain­da tem a China, e a gra­na da China no topo, só pro pano­ra­ma ficar com­ple­to. Se eu tives­se que resu­mir a Terra para um mar­ci­a­no, fala­ria de Macau.

E o lugar não só é uma aula da his­tó­ria, mas uma aula sobre o con­tem­po­râ­neo e o simu­la­cro. Aqui há uma imi­ta­ção da imi­ta­ção de Veneza que exis­te em Las Vegas. Fica no Venezian, que é o mai­or cas­si­no do mun­do e fatu­ra o mes­mo que Las Vegas intei­ra a cada ano. É a sex­ta mai­or cons­tru­ção já fei­ta pelo homem, com 980 mil metros qua­dra­dos, 3 mil quar­tos e não sei quan­tos canais chei­ran­do a clo­ro com gon­do­lei­ros fili­pi­nos can­tan­do “o sole mio” sob um céu arti­fi­ci­al em per­pé­tuo cre­pús­cu­lo. A Europa tam­bém está no MGM, onde há uma mini-Lisboa com uma Estação do Rossio intei­ra den­tro. E no faju­to cais de pes­ca­do­res, onde vemos um anfi­te­a­tro roma­no, uma vila mexi­ca­na, pré­di­os art-déco de Miami e mais uma imi­ta­ção de Portugal e outra da pró­pria China.

Chico, em quan­tos sécu­los ou déca­das as pes­so­as vão parar de con­se­guir dife­ren­ci­ar essas cópi­as dos pré­di­os his­tó­ri­cos da cida­de? Até que pon­to uma igre­ja em esti­lo colo­ni­al por­tu­guês na Ásia, como a Igreja da Sé, onde entrei e ouvi Roberto Carlos e sua can­ti­le­na reli­gi­o­sa pelas cai­xas de som, é mais autên­ti­ca do que qual­quer um des­ses monu­men­tos ao kits­ch? E ain­da: dá pra rela­ci­o­nar a sen­sa­ção que um por­tu­guês recém-che­ga­do a Macau no sécu­lo 18 tinha ao encon­trar o cal­ça­men­to copi­a­do das ruas de Lisboa com a nos­sa olhan­do essas novas cópi­as no sécu­lo 21? O que faz da cópia coi­sa orgâ­ni­ca, autên­ti­ca e “real” (insi­ra uma cata­ra­ta de aspas aqui)?

Que mais? Outro dia acon­te­ceu algo extra­or­di­ná­rio.

Era qua­se manhã, esta­va eu sozi­nho na por­ta de um bar espe­ran­do um novo ami­go, cine­as­ta por­tu­guês, sair. Na mes­ma cal­ça­da havia uma meni­na que come­çou a ser pro­vo­ca­da por dois sujei­tos de for­ma bas­tan­te estú­pi­da. Eu, com a pure­za dos bra­vos e sui­ci­das, pedi pro pes­so­al take it easy que não era assim que se fala­va com uma mulher, seja­mos edu­ca­dos etc. Rapidamente o even­to trans­for­mou-se num emba­te diplo­má­ti­co em pelo menos qua­tro lín­guas, com empur­rões e pro­mes­sas de socos e pon­ta­pés sen­do dis­tri­buí­das. Com mui­ta difi­cul­da­de, con­se­gui­mos colo­car a meni­na em segu­ran­ça em um des­ses hotéis com bar­ras de ouro e dia­man­tes no chão envi­dra­ça­do. Mas con­ti­nuá­va­mos do lado de fora, e os refor­ços da hor­da ini­mi­ga che­ga­vam com san­gue nos olhos. A saí­da foi hon­ro­sa. No meio da con­fu­são, meu ami­go con­ver­sou em chi­nês com o moto­ris­ta de uma limou­si­ne, que nos tirou dali num arran­car de pneus. Comemoramos nos­sa fuga matan­do o res­to da gar­ra­fa de cham­pa­nhe ain­da gela­da no bal­de. Depois, toma­mos o café da manhã dos cam­peões numa rue­la meio decré­pi­ta ao lado dos mui­to velhos que acor­dam mui­to cedo, na esqui­na onde está a pen­são capen­ga onde Wong Kar-wai fil­mou Amor à Flor da Pele. Sopinha, lamen, car­ne pican­te, café com lei­te.

Preciso de água, Chico.

Abrazos,

JP

P.S.: Um vídeo cur­ti­nho com ima­gens que con­se­gui fazer nes­ses dias:

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