Mais forte que os clichês

No cinema

08.04.16

Seria pos­sí­vel rea­li­zar hoje, nos Estados Unidos, den­tro dos parâ­me­tros do cine­ma comer­ci­al, um dra­ma enxu­to, adul­to e inte­li­gen­te, que não res­va­le para o pre­vi­sí­vel e con­ven­ci­o­nal? Mais for­te que bom­bas, do noru­e­guês Joachim Trier, ates­ta que sim.

Uma sinop­se pre­cá­ria, pois inca­paz de dar con­ta das inú­me­ras linhas de for­ça do enre­do, diria o seguin­te: três anos depois da mor­te pre­ma­tu­ra da fotó­gra­fa inter­na­ci­o­nal de guer­ra Isabelle Reed (Isbelle Huppert), seu viú­vo, o pro­fes­sor e ex-ator Gene (Gabriel Byrne) bus­ca um equi­lí­brio pos­sí­vel com seus dois filhos, o jovem adul­to Jonah (Jesse Eisenberg) e o ado­les­cen­te Conrad (Devin Druid).

Trata-se, por­tan­to, da ten­ta­ti­va de recons­ti­tui­ção de laços fami­li­a­res esgar­ça­dos pela dis­tân­cia (Jonah, pai recen­te, é pro­fes­sor uni­ver­si­tá­rio em outra cida­de) e por cir­cuns­tân­ci­as gera­ci­o­nais (Conrad, aos 14 anos, vive a ple­na ebu­li­ção dos hormô­ni­os juve­nis, da satu­ra­ção de infor­ma­ções, das cri­ses de auto­a­fir­ma­ção). Para acir­rar esse qua­dro, have­rá uma expo­si­ção de obras da fotó­gra­fa, e um cole­ga dela escre­ve um arti­go para o New York Times reve­lan­do que sua mor­te não foi aci­den­tal, e sim um sui­cí­dio.

O que impor­ta é o modo como o dire­tor Joachim Trier cos­tu­ra esses pon­tos de ten­são, numa nar­ra­ti­va des­con­tí­nua que dá espa­ço para cada um dos per­so­na­gens reve­lar face­tas insus­pei­ta­das e con­tra­di­tó­ri­as. Ao con­trá­rio do que ocor­re nos melo­dra­mas con­ven­ci­o­nais, nenhum per­so­na­gem é uni­di­men­si­o­nal, nenhum deles pare­ce estar “pron­to”, mas se cons­trói a cada cena.

Afeto oblí­quo

Já o iní­cio do fil­me dá uma pis­ta sobre seu modo de enca­rar as rela­ções huma­nas como um jogo entre ver­da­de e apa­rên­cia. Nos cor­re­do­res do hos­pi­tal em que sua mulher aca­ba de dar à luz, Jonah encon­tra uma anti­ga namo­ra­da e, no diá­lo­go entre­cor­ta­do que os dois esta­be­le­cem, a moça enten­de que ele aca­ba de ficar viú­vo. A cena ter­mi­na sem o escla­re­ci­men­to do mal-enten­di­do, com um abra­ço afe­tu­o­so entre os dois ex-namo­ra­dos.

O afe­to oblí­quo, refra­ta­do, fugi­dio, é a mar­ca de todas as rela­ções entre os per­so­na­gens e deter­mi­na tam­bém o méto­do de cons­tru­ção nar­ra­ti­va e de mise-en-scè­ne. Um exem­plo elo­quen­te é a sequên­cia em que o pai segue à dis­tân­cia o filho mais novo, obser­va-o sozi­nho num par­que, depois entran­do numa lan­cho­ne­te e por fim pros­tran­do-se dian­te de um túmu­lo no cemi­té­rio. A mes­ma cena é mos­tra­da depois do pon­to de vis­ta do pró­prio garo­to, reve­lan­do a con­tra­pe­lo a fal­si­da­de das con­clu­sões a que o pai cer­ta­men­te tinha che­ga­do.

Abismo ado­les­cen­te

O per­so­na­gem “mais cru­ci­al”, se é pos­sí­vel dizer isso, é jus­ta­men­te o de Conrad, o filho ado­les­cen­te. No meio do fil­me, numa con­ver­sa com o irmão mais velho, ele mos­tra que, por trás do esqui­si­ti­nho meio nerd, exis­tem pro­fun­de­zas inson­dá­veis de inte­li­gên­cia e sen­si­bi­li­da­de. Isso não é tan­to expli­ci­ta­do no diá­lo­go, mas dado a ver prin­ci­pal­men­te numa cola­gem “ensaís­ti­ca” em que entram ima­gens de noti­ciá­ri­os, fotos, cli­pes, games, com­pu­ta­ção grá­fi­ca, docu­men­tá­ri­os cien­tí­fi­cos, qua­se como num fil­me de Jorge Furtado.

Tamanha deli­ca­de­za e res­pei­to na abor­da­gem do uni­ver­so ado­les­cen­te só se encon­tra, no cine­ma ame­ri­ca­no recen­te, em cer­tos fil­mes de Gus Van Sant ou, tal­vez, de Paul Thomas Anderson. Mas os per­so­na­gens de meia-ida­de – o pai pro­fes­sor, a mãe fotó­gra­fa (que rea­pa­re­ce em flash­backs) – tam­bém têm zonas de som­bra que só são ilu­mi­na­das aos pou­cos, e nun­ca de modo com­ple­to.

As locu­ções em off, sem­pre na voz de algum per­so­na­gem, jamais são redun­dan­tes: não raro, con­tra­di­zem ou mati­zam aqui­lo que esta­mos ven­do. E a colo­ca­ção e os movi­men­tos de câme­ra nun­ca são gra­tui­tos, estão sem­pre a ser­vi­ço da obser­va­ção de um per­so­na­gem ou de uma atmos­fe­ra. Destaca-se o uso pre­ci­so e come­di­do da câme­ra na mão, que Carlos Reichenbach qua­li­fi­ca­va de “o mais per­tur­ba­dor do cine­ma”.

A sen­sa­ção que per­meia o fil­me e que pre­va­le­ce no final é a da vul­ne­ra­bi­li­da­de de cada indi­ví­duo e do cará­ter pre­ci­o­so, úni­co, de todo rela­ci­o­na­men­to huma­no. Estamos dis­tan­tes, aqui, do uni­ver­so raso de win­ners e losers que infes­ta a pro­du­ção con­ven­ci­o­nal de Hollywood.

Sorrentino entre o esti­lo e a afe­ta­ção

Os fil­mes do ita­li­a­no Paolo Sorrentino (Il divo, Aqui é o meu lugar, A gran­de bele­za) cos­tu­mam sus­ci­tar rea­ções apai­xo­na­das no seio da crí­ti­ca e dos espec­ta­do­res. Uns o con­si­de­ram um gran­de artis­ta, dono de um esti­lo pró­prio e ori­gi­nal, outros o veem como um pom­po­so dilui­dor de Fellini, mais pre­o­cu­pa­do com o efei­to do que com a con­sis­tên­cia de suas ima­gens extra­va­gan­tes, sun­tu­o­sas e bizar­ras.

Digo logo que me sin­to mais pró­xi­mo dos últi­mos, mas pen­so que um crí­ti­co deve ten­tar man­ter sob con­tro­le suas idi­os­sin­cra­si­as e pre­dis­po­si­ções, de modo a con­ce­der a todo fil­me, a qual­quer fil­me, a pos­si­bi­li­da­de de desar­má-lo, de con­ven­cê-lo, de con­quis­tá-lo.

Com esse espí­ri­to fui ver Juventude, a nova obra de Sorrentino. Com gran­de elen­co inter­na­ci­o­nal, ambi­en­ta­do num hotel-estân­cia nos Alpes suí­ços, o fil­me entre­la­ça his­tó­ri­as cômi­co-dra­má­ti­cas de vári­os per­so­na­gens dís­pa­res, entre hós­pe­des e empre­ga­dos, ten­do como fio con­du­tor uma refle­xão sobre a pas­sa­gem do tem­po, os pro­je­tos de vida, a juven­tu­de per­di­da etc.

Fellini está pre­sen­te, cla­ro. Se a matriz óbvia de A gran­de bele­za era A doce vida, des­ta vez a prin­ci­pal refe­rên­cia é Oito e meio, ambi­en­ta­do igual­men­te num hotel-estân­cia de luxo. Aqui tam­bém há um dire­tor de cine­ma famo­so (Harvey Keitel) às vol­tas com os impas­ses de seu pró­xi­mo fil­me, que ele vê como uma espé­cie de tes­ta­men­to esté­ti­co e exis­ten­ci­al.

Mas o pro­ta­go­nis­ta, se há algum, é outro artis­ta vete­ra­no, o com­po­si­tor e regen­te Fred Ballinger (Michael Caine), que medi­ta sobre sua arte e sobre “a vida que pode­ria ter sido”, sus­pi­ran­do pela ener­gia vital da juven­tu­de, um pou­co como o Gustav von Aschenbach de Morte em Veneza.

Fauna hete­ro­gê­nea

Em tor­no des­ses dois velhos ami­gos tra­fe­ga uma fau­na hete­ro­gê­nea, incluin­do um gor­dís­si­mo Diego Maradona (Roly Serrano), um mon­ge ori­en­tal supos­ta­men­te capaz de levi­tar e um ator (Paul Dano) can­sa­do de ser conhe­ci­do ape­nas por ter encar­na­do um robô, mais ou menos como o Michael Keaton de Birdman.

A som­bra fel­li­ni­a­na apa­re­ce em cenas como a da sau­na reple­ta de cor­pos nus na névoa e na con­tra­luz, na per­for­man­ce de uma artis­ta cir­cen­se que mol­da no ar imen­sas e mul­ti­for­mes bolhas de sabão e numa cena belís­si­ma num pra­do em que o velho maes­tro “rege” os ruí­dos ambi­en­tes: mugi­dos de vacas, cin­cer­ros, can­tos de pás­sa­ros, o ven­to nas árvo­res, fei­to um Hermeto Paschoal dos Alpes.

A ceno­gra­fia sun­tu­o­sa, os enqua­dra­men­tos pic­tó­ri­cos, a ilu­mi­na­ção des­lum­bran­te, tudo isso faz de Juventude um espe­tá­cu­lo visu­al que ame­a­ça sufo­car a subs­tân­cia huma­na do dra­ma, situ­an­do-se sem­pre na fron­tei­ra entre o esti­lo e a afe­ta­ção, entre o gran­de cine­ma e um comer­ci­al da M. Officer dos anos 1990. A inten­ção de bele­za é tão osten­si­va que che­ga a pesar. Sorrentino, de cer­ta for­ma, “per­fu­ma a flor”, para usar a expres­são que João Cabral de Melo Neto empre­ga­va para falar dos poe­tas que ten­tam embe­le­zar o que já é belo.

Uma coi­sa, entre­tan­to, é ine­gá­vel: o pra­zer de ver em cena ato­res for­mi­dá­veis como Michael Caine, Harvey Keitel e Jane Fonda. Só eles já valem o ingres­so.

 

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