Malandros e cornudos à italiana

No cinema

17.08.12

A comé­dia à ita­li­a­na — gêne­ro que teve seu apo­geu entre mea­dos dos anos 50 e mea­dos dos 70 — foi rele­ga­da por mui­to tem­po a um injus­to segun­do pla­no. Ficou à som­bra, de um lado, do gran­de “cine­ma de autor” de Fellini, Visconti, Antonioni etc. e, de outro, do cine­ma dire­ta­men­te polí­ti­co de Francesco Rosi, Elio Petri, Giuliano Montaldo e um punha­do de outros.

Mas numa épo­ca tris­te como a nos­sa, em que, no mun­do todo, o con­cei­to de comé­dia pare­ce ter-se cor­roí­do pelo humor estú­pi­do do bes­tei­rol e das sit­coms tele­vi­si­vas, cabe uma revi­são urgen­te da deli­ci­o­sa fil­mo­gra­fia de mes­tres como Mario Monicelli, Dino Risi, Pietro Germi e Luigi Comencini. Eles deti­nham um segre­do alquí­mi­co que apa­ren­te­men­te se per­deu.

Um bom come­ço para conhe­cer ou relem­brar as obras-pri­mas do gêne­ro é a recém-lan­ça­da cai­xa de DVDs “Clássicos da Comédia Italiana”, da Versátil. São três fil­mes: um de Monicelli (Os eter­nos des­co­nhe­ci­dos, 1958) e dois de Germi (Divórcio à ita­li­a­na, 1961;Seduzida e aban­do­na­da, 1964).

Há no mer­ca­do outros clás­si­cos dis­po­ní­veis em DVDAquele que sabe viver (Risi, 1962), O incrí­vel exér­ci­to de Brancaleone (Monicelli, 1966), Meus caros ami­gos I e II (Monicelli, 1975 e 1982) e os fil­mes de epi­só­di­os tão carac­te­rís­ti­cos daque­la fase ita­li­a­na:Amores na cida­deAs bone­casBoccaccio 70Casanova 70 etc.

Poesia do fra­cas­so

Mas fique­mos, por enquan­to, nos três títu­los que aca­bam de ser lan­ça­dos. Eles sin­te­ti­zam gran­de par­te do espec­tro temá­ti­co e dos trun­fos nar­ra­ti­vos da cha­ma­da “comé­dia à ita­li­a­na”. As duas linhas mais fre­quen­tes na fil­mo­gra­fia do gêne­ro — a comé­dia pica­res­ca e a far­sa de adul­té­rio — estão pre­sen­tes com for­ça: a pri­mei­ra no fil­me de Monicelli, a segun­da nos dois de Germi. O malan­dro e o cor­nu­do são, por exce­lên­cia, os per­so­na­gens cen­trais des­se tipo de cine­ma.

Em Os eter­nos des­co­nhe­ci­dos, uma tru­pe de peque­nos viga­ris­tas da peri­fe­ria de Roma pla­ne­ja um gran­de gol­pe: o rou­bo de uma casa de penho­res, fazen­do um bura­co na pare­de do apar­ta­men­to vizi­nho. O pla­no é per­fei­to — “cien­tí­fi­co”, como diz um per­so­na­gem -, mas seus exe­cu­to­res estão lon­ge de sê-lo. Aqui, uma sequên­cia cru­ci­al:

http://www.youtube.com/watch?v=y2rMI7MyVms

Sem pre­juí­zo da gra­ça impa­gá­vel das cenas, situ­a­ções e diá­lo­gos, há uma cer­ta melan­co­lia na ina­de­qua­ção soci­al dos per­so­na­gens, uma autên­ti­ca poe­sia do fra­cas­so que reen­con­tra­re­mos em BrancaleoneMeus caros ami­gosRomance popu­larParente é ser­pen­te, entre tan­tos tra­ba­lhos memo­rá­veis do dire­tor.

O elen­co extra­or­di­ná­rio inclui o vete­ra­no come­di­an­te Totó e os então jovens Marcello Mastroianni, Vittorio Gassman e Renato Salvatori, além de uma Claudia Cardinale pou­co mais que ado­les­cen­te.

Tragicomédias morais

Já os dois fil­mes de Pietro Germi, ambos ambi­en­ta­dos em aldei­as remo­tas da Sicília, são tra­gi­co­mé­di­as morais em tor­no do adul­té­rio. Com seu humor cor­ro­si­vo, sua obser­va­ção impla­cá­vel da cul­tu­ra e da moral sici­li­a­nas, eles são a pro­va con­tun­den­te de que a comé­dia ita­li­a­na de cos­tu­mes não tinha nada de frí­vo­la, incon­se­quen­te ou “ali­e­na­da”.

Divórcio à ita­li­a­na é irô­ni­co des­de o títu­lo. Como não exis­tia na Itália o divór­cio (que só seria apro­va­do em 1970), o pro­ta­go­nis­ta, um barão fali­do (Mastroianni), pre­ci­sa dar um jei­to de se livrar da espo­sa (Daniela Rocca) para poder se casar com a pri­ma (Stefania Sandrelli). A solu­ção seria matá-la, mas para se livrar da cadeia ele pre­ci­sa dar ao cri­me ares de “repa­ra­ção da hon­ra”. Com esse intui­to, empur­ra a mulher para o adul­té­rio. O barão fali­do, no caso, é um cor­nu­do por ini­ci­a­ti­va pró­pria, como com­pro­va esta sequên­cia, que se ini­cia com uma reu­nião polí­ti­ca em que um envi­a­do do Partido Comunista per­gun­ta aos pro­le­tá­ri­os locais o que pen­sam da mulher que tem um caso fora do casa­men­to: 

http://www.youtube.com/watch?v=TYYV6_gFkxQ

Há uma pia­da inter­tex­tu­al irre­sis­tí­vel: a cer­ta altu­ra, entra em car­taz no cine­ma da aldeia A doce vida, rea­li­za­do um ano antes do Divórcio e estre­la­do pelo mes­mo Mastroianni. A Igreja exe­cra o fil­me e exco­mun­ga o dire­tor, mas toda a popu­la­ção do luga­re­jo, em espe­ci­al a mas­cu­li­na, vai assis­ti-lo. Vemos na tela ima­gens de Anita Ekberg e che­ga­mos a ouvir a voz de Mastroianni no fil­me den­tro do fil­me.

Reparação da hon­ra

A “repa­ra­ção da hon­ra” tam­bém é o móvel dra­má­ti­co de Seduzida e aban­do­na­da, comé­dia ain­da mais cru­el que a ante­ri­or. Aqui, uma ado­les­cen­te, Angese (Stefania Sandrelli), é des­vir­gi­na­da pelo noi­vo (Aldo Puglisi) da irmã. O pai da moça (o fabu­lo­so Saro Urzì), ao saber do fato, ten­ta evi­tar o vexa­me das manei­ras mais esta­pa­fúr­di­as, ampli­an­do cada vez mais o desas­tre. Estamos num ter­re­no mui­to pró­xi­mo das tra­gé­di­as morais de Nelson Rodrigues.

Dois gran­des acer­tos fazem des­se fil­me um clás­si­co: o retra­to sem nenhu­ma con­des­cen­dên­cia da boça­li­da­de agres­si­va das mas­sas e o modo como extrai todo o seu humor de uma exa­cer­ba­ção do melo­dra­ma. Há cenas — em par­ti­cu­lar as con­fron­ta­ções entre a famí­lia e a popu­la­ção do vila­re­jo — que esca­pam do rea­lis­mo e aden­tram a dimen­são do delí­rio e do pesa­de­lo. Nesta sequên­cia, vemos o seques­tro de Agnese por seu vio­la­dor, pla­ne­ja­do pelo pai da moça para ser ence­na­do dian­te de toda a popu­la­ção da aldeia duran­te uma pro­cis­são. Uma curi­o­si­da­de: Lando Buzzanca, que seria astro de por­no­chan­cha­das ita­li­a­nas nos anos 70, aqui apa­re­ce como irmão de Agnese: 

http://www.youtube.com/watch?v=sXdx6icfzuQ

Resta espe­rar que outros títu­los impor­tan­tes des­sa rica fil­mo­gra­fia che­guem o quan­to antes até nós, para con­tra­ba­lan­çar um pou­co o humor his­té­ri­co e vazio das pro­du­ções glo­bais.

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