Manuel Bandeira: poema e oração

Literatura

10.10.12

Desde que li o ensaio sobre Edson Nery da Fonseca em piauí 72, pen­so em con­tar a esse ban­dei­ri­a­no essen­ci­al, per­nam­bu­ca­no como o poe­ta de Pasárgada, sobre o acha­do que fize­mos há alguns meses no arqui­vo de Paulo Mendes Campos, sob a guar­da do Instituto Moreira Salles des­de 2011. Trata-se de um manus­cri­to do poe­ma “Ubiquidade”, de Bandeira, em papel já bem ama­re­le­ci­do, data­do de Petrópolis, 11 de mar­ço de 1943, a mes­ma data que apa­re­ce no livro.

Diferentemente da ver­são com qua­tro estro­fes publi­ca­da em Lira dos cinquent’anos, a que se encon­tra no IMS tem nove, sob o títu­lo de “Estás”, e não de “Ubiquidade”. Pela data, vê-se que ela é pos­te­ri­or à pri­mei­ra edi­ção do Lira, que foi lan­ça­do em 1940, ori­gi­nal­men­te com 23 poe­mas. Não cons­ti­tuiu um livro inde­pen­den­te e sim acrés­ci­mo à pri­mei­ra edi­ção das Poesias com­ple­tas. Na segun­da edi­ção des­se livro, em 1944, o Lira apa­re­ce com mais 18 com­po­si­ções, entre as quais “Ubiquidade”, com suas qua­tro estro­fes, como já foi dito aqui.

Muitos admi­ra­do­res e estu­di­o­sos do poe­ta cer­ta­men­te gos­ta­ri­am de conhe­cer a ver­são ori­gi­nal, antes dos cor­tes — pen­so eu. Quase pos­so apos­tar que Edson Nery da Fonseca seria o pri­mei­ro, tal­vez por­que, como li em piauí, ele faz des­se poe­ma sua ora­ção diá­ria. Escreve Carol Pires, auto­ra do tex­to, que quan­do o reló­gio da Basílica de São Bento, em Olinda, bate seis vezes ao fim da tar­de, Edson Nery pede licen­ça, reza o Angelus e logo em segui­da o “Ubiquidade”.

Não espan­ta que o reci­te de cor. Se o cor­po de 1,89 de altu­ra lhe difi­cul­ta o andar, sua len­dá­ria memó­ria não se dei­xa tur­var pelos 90 anos, fei­tos em dezem­bro de 2011, dedi­ca­dos à bibli­o­te­co­no­mia e à lite­ra­tu­ra. Entre os poe­tas de sua pre­di­le­ção, o con­ter­râ­neo Manuel Bandeira, de quem foi ami­go — é o que se vê nas sabo­ro­sas his­tó­ri­as que publi­cou em Alumbramentos e per­ple­xi­da­des; vivên­ci­as ban­dei­ri­a­nas.

Menos ain­da espan­ta, como ele decla­ra a piauí, que pen­sa em Deus quan­do reci­ta os ver­sos que se ini­ci­am sem­pre com o ver­bo estar na segun­da pes­soa do sin­gu­lar: estás. Quem, como ele, diz, sem titu­be­ar, poe­mas lon­gos de Bandeira como “Evocação do Recife”, não se inco­mo­da­ria de encom­pri­dar (não é assim, Edson, que dize­mos no Nordeste?) a reza diá­ria com mais cin­co estro­fes, entre as quais esta que repro­du­zo a seguir:

Estás em tudo que eu dis­se.

Estás nas minhas sau­da­des.

Estás na minha velhi­ce

E estás em outras ida­des.

Autor da sele­ção e do pos­fá­cio da anto­lo­gia Poemas reli­gi­o­sos e alguns liber­ti­nos, publi­ca­da pela Cosac Naify em 2007, Nery colo­ca “Ubiquidade” em pri­mei­rís­si­mo lugar: é o poe­ma de aber­tu­ra do livro. Sabe-se ago­ra o porquê da pre­fe­rên­cia.

A dedi­ca­tó­ria a Paulo Mendes que Bandeira escre­veu no manus­cri­to de “Estás” é data­da de 30 de outu­bro de 1945, o que sig­ni­fi­ca que Paulo não per­deu tem­po: che­gou ao Rio, vin­do de Belo Horizonte, em agos­to des­se mes­mo ano, e três meses depois já esta­va em con­ta­to com o rei­no de Pasárgada. A dife­ren­ça de ida­de não exis­tia, nem podia exis­tir entre dois poe­tas de alta enver­ga­du­ra. Pouco impor­ta­va que o per­nam­bu­ca­no já fos­se um cin­quen­tão. Ele mes­mo dizia que todo sujei­to inte­li­gen­te aca­ba­va gos­tan­do dele, e inte­li­gên­cia e talen­to não fal­ta­vam ao minei­ro de 23 anos de ida­de naque­le ano de 1945.

As con­ver­sas entre os dois dei­xa­ram pelo menos um resul­ta­do não só con­cre­to mas pre­ci­o­so: a publi­ca­ção da auto­bi­o­gra­fia lite­rá­ria de Bandeira, o Itinerário de Pasárgada, livro que não devia sair da bol­sa de todo estu­dan­te de Letras. Em par­te, Paulo Mendes Campos é res­pon­sá­vel por essa obra-pri­ma da memo­ri­a­lís­ti­ca bra­si­lei­ra, escri­ta em pro­sa sua­ve, aque­la pro­sa ban­dei­ri­a­na rica que jamais osten­ta. É só ler o que escre­ve o autor no segun­do capí­tu­lo: “Confesso que já me vou sen­tin­do bas­tan­te arre­pen­di­do de ter come­ça­do estas memó­ri­as. Fi-lo a ins­tân­ci­as de Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos”.

Mas vol­te­mos a Olinda:

Edson que­ri­do, pri­mei­ra­men­te que­ro expli­car que, em res­pei­to à lei do direi­to auto­ral, só pos­so te man­dar uma estro­fe do “Estás”. Mas rezar bai­xi­nho, só pra Deus, a gen­te pode. Eu tam­bém já con­ver­ti poe­mas de Bandeira em ora­ção. Já rezei mui­to, não o seu ?Ubiquidade’, mas o sone­to ?Renúncia’, do nos­so que­ri­do poe­ta. E não às seis da tar­de, como você, mas mais tar­de, per­to da meia-noi­te, ora­ção de antes de dor­mir. Ao pri­mei­ro ver­so, ?Chora de man­so…’, eu já come­ça­va a me for­ta­le­cer, e, ao dizer o últi­mo, me sobre­vi­nha um sono tão gene­ro­so, tão bom… Dormia inte­gral­men­te paci­fi­ca­da. Mas lhe con­fes­so uma coi­sa: na minha reza, eu omi­tia o últi­mo ter­ce­to, aque­le que diz:

Encerra em ti tua tris­te­za intei­ra.

E pede humil­de­men­te a Deus que a faça

Tua doce e cons­tan­te com­pa­nhei­ra.

É que os dois pri­mei­ros quar­te­tos e o pri­mei­ro ter­ce­to me enchi­am de cora­gem e paz. Bastavam. Com eles eu acei­ta­va a minha tris­te­za. Mas, pedir que ela ficas­se para sem­pre? Não, eu não a que­ria doce e cons­tan­te na minha vida.

Mas Bandeira não terá se ofen­di­do, não, tenho cer­te­za. Rezado ou não reza­do, o ter­ce­to é lin­do e come­çou por con­for­tar o pró­prio poe­ta, que, ao compô-lo, encon­trou uma for­ma de acei­tar a tuber­cu­lo­se com que con­vi­ve­ria tan­tos anos mui­tís­si­mo bem vivi­dos.

* Elvia Bezerra é coor­de­na­do­ra de Literatura do Instituto Moreira Salles.

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