Mehmari nazarethiando, Nazareth mehmariando

Música

27.03.13

No dia 19 de mar­ço de 2013 tive­mos o pri­vi­lé­gio de ouvir o pia­nis­ta André Mehmari em um reper­tó­rio pra­ti­ca­men­te iné­di­to em sua car­rei­ra até então: um show exclu­si­va­men­te dedi­ca­do a Ernesto Nazareth. Podemos dizer que o ine­di­tis­mo é de mão dupla, pois pro­va­vel­men­te a obra de Nazareth nun­ca foi tra­ba­lha­da da manei­ra como a ouvi­mos nes­sa noi­te.

A pri­mei­ra coi­sa que fica cla­ra quan­do ouvi­mos o esti­lo pes­so­al de André, antes mes­mo de seu vir­tu­o­sis­mo bri­lhan­te, é a segu­ran­ça que tem sobre cada peça e sobre cada relei­tu­ra. A peça nun­ca o “pega”. Mesmo com ape­nas um mês para se pre­pa­rar, é ele quem está sem­pre no coman­do, tocan­do com a visão de um com­po­si­tor.

Além dis­so, é um mes­tre dos con­tras­tes. Vai do plá­ci­do nos agu­dos ao malan­dro nos gra­ves em uma fra­ção de segun­do. Também ouvi­mos des­de sons mini­ma­lis­tas “cro­can­tes” sem pedal, até um pia­nis­mo mais exu­be­ran­te, com pedal bem dosa­do.

Suas influên­ci­as são múl­ti­plas, indo do jazz ao clás­si­co. Pianisticamente, lem­bra o esti­lo vir­tu­o­sís­ti­co de Leandro Braga, Keith Jarret e Egberto Gismonti, que tam­bém tra­ba­lham com rit­mos que­bra­dos em 7/8, e des­lo­cam o tem­po for­te do acom­pa­nha­men­to, cri­an­do uma enor­me diver­si­da­de de rit­mos impro­vi­sa­da no momen­to.

Com sua vas­ta cul­tu­ra musi­cal, ouvi­mos Nazareth em com­bi­na­ções raras: a Sagração da Primavera de Stravinsky se mes­cla com Reboliço, ambas com­pos­tas em 1913, fazen­do um para­le­lo iné­di­to entre dois mun­dos e con­ti­nen­tes apa­ren­te­men­te tão dis­tan­tes. Depois ouvi­mos o tema de Tristão e Isolda, de Wagner, se trans­fi­gu­ran­do no tan­go Furinga, ten­do como deno­mi­na­dor comum um inter­va­lo de sex­ta que os une. Também ouvi­mos cita­ções de Beethoven, Chopin, Ravel, Gismonti, Luiz Gonzaga e Guinga. Todos esses inter­cru­za­men­tos aca­bam por evi­den­ci­ar novos ângu­los da obra de Nazareth, até então ocul­tos. Depois, fazen­do o cami­nho inver­so, naza­retheia uma ária de As Bodas de Fígaro, de Mozart.

Mehmari pos­sui um méto­do enge­nho­so de des­cons­truir a peça até seus moti­vos mais celu­la­res (como vemos no Famoso) e depois a recons­trói a par­tir de seus con­tra­tem­pos e dis­so­nân­ci­as (como o fez em Fon-Fon). Também brin­ca com as tona­li­da­des sem pre­ci­sar “pedir licen­ça” para modu­lar, fazen­do um ver­da­dei­ro calei­dos­có­pio tem­pe­ra­do, lem­bran­do uma prá­ti­ca que Schubert fazia em cer­ta medi­da, e que hoje vemos tam­bém no pia­nis­ta ita­li­a­no Stefano Bollani. E outra prá­ti­ca que enri­que­ce enor­me­men­te a palhe­ta harmô­ni­ca de seus arran­jos é o uso pro­po­si­tal de “notas erra­das”, emprés­ti­mos de tons dis­tan­tes, sem­pre sur­pre­en­den­do o ouvin­te, assim como Shostakovich fazia.

Em cer­to tre­cho do reci­tal, André apre­sen­tou em estreia mun­di­al a peça De Tarde, cuja segun­da par­te Nazareth dei­xou incom­ple­ta, cons­tan­do ape­nas a melo­dia não-har­mo­ni­za­da. Mehmari a com­ple­tou trans­for­man­do em uma peça pro­fun­da, reple­ta de sig­ni­fi­ca­dos. Brincou que, à manei­ra do IMS, tam­bém tinha cri­a­do um ins­ti­tu­to cul­tu­ral pró­prio, o “Instituto André Memória”, e dis­tri­buiu cópi­as des­te arran­jo para a pla­teia.

Não é pre­ci­so dizer que este show foi his­tó­ri­co. Mehmari mos­tra de uma vez por todas que a obra de Nazareth não é “de um mun­do cadu­co”, mas sim maté­ria pri­ma em ebu­li­ção pron­ta para infi­ni­tas relei­tu­ras con­tem­po­râ­ne­as.

Tudo isso vocês pode­rão assis­tir no vídeo abai­xo, e, espe­re­mos, em um CD con­ten­do todo este reper­tó­rio!

http://www.youtube.com/watch?v=vDS_HGh-bAc