Meio de campo

Correspondência

12.09.11

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Caro Zé Geraldo,

 

Sua car­ta, que toma como pon­to de par­ti­da Borges, tem uma per­fei­ta con­ci­são, como se con­ta­mi­na­da pela escri­ta do gran­de mes­tre. Mas, curi­o­sa­men­te, o que mais me cha­mou a aten­ção foi Ademir da Guia vis­to por Rivellino. E me veio à cabe­ça o tra­to na bola dado por Ademir. A bola pare­cia atraí­da por seu cor­po todo e depois era pas­sa­da com a mai­or pre­ci­são e bele­za pos­sí­veis. Mas é pou­co o que digo, embo­ra tenha aqui den­tro de mim, jogan­do em minha memó­ria, o cra­que pal­mei­ren­se, que virou até poe­ma de João Cabral de Melo Neto. Que aí vai: “Ademir impõe com o seu jogo/ o rit­mo do chum­bo (e o peso),/ da les­ma, da câma­ra lenta,/ do homem den­tro do pesa­de­lo… Ritmo líqui­do se infiltrando/ no adver­sá­rio, gros­so, de dentro,/impondo-lhe o que ele deseja,/mandando nele, apo­dre­cen­do-o. … Ritmo mor­no, de andar na areia,/da água doen­te de alagados,/entorpecendo, e então atando/ o mais irre­qui­e­to adver­sá­rio”.

Fiquei emo­ci­o­na­do, Zé, ao saber que Rivellino, outro gran­de esti­lis­ta da posi­ção, se des­con­cen­tra­va ven­do o adver­sá­rio jogar. E vou diag­nos­ti­car a cri­se do fute­bol bra­si­lei­ro como a cri­se do meio de cam­po. Com esses caras mes­mo que estão jogan­do, como Leandro Damião, o que não muda­ria se fos­sem ser­vi­dos por um Ademir da Guia, um Rivellino?

Outro que nun­ca me sai da memó­ria — e faz tem­po que não joga, faz tem­po até que já mor­reu — é Didi. Esse tam­bém tinha um jogo de sedu­ção com a bola e bem que mere­ce­ria um poe­ma de um cra­que como João Cabral. Há uns três, qua­tro anos, fui ver um fil­me meio pre­cá­rio sobre a Copa de 58. Timaço, o de 58, e eu ali na pla­teia pro­cu­ran­do repa­rar em cada deta­lhe dos joga­do­res e repro­du­zo aqui o tipo de jogo de mes­tre Didi. Ereto, ele­gan­te, mata­va a bola no pei­to, a domi­na­va no espa­ço entre os dois pés, sem pre­ci­sar olhar para ela, pois seus olhos já pla­ne­ja­vam o melhor pas­se, dado com a par­te inter­na do pé direi­to, como no pas­se dado a Mazola, no pri­mei­ro gol daque­la sele­ção na Copa, mar­ca­do pelo cen­tro-avan­te con­tra a Áustria. E as fal­tas que cobra­va com suas famo­sas folhas-secas, defi­ni­ção que já diz tudo, mas não cus­ta acres­cen­tar que a bola vinha alta, sem mui­ta for­ça, para des­cair no ângu­lo da bali­za. Onde está a está­tua que deve­ria haver ali na rua General Severiano, com um escul­tor que fos­se tam­bém mes­tre, dig­no de Didi?

E o Gerson? O que dizer de seus pas­ses lon­gos, como aque­le pas­se para Pelé matar a bola no pei­to, dei­xar cair e ful­mi­nar o golei­ro da Tchecoslováquia no segun­do gol do Brasil na Copa de 70?

Poderia falar de tan­tos outros, até nos que só vi jogar quan­do cri­an­ça, como Zizinho e Jair da Rosa Pinto. Enfim, os artis­tas da bola, hoje tão difí­ceis de se ver e vou incluir tam­bém um estran­gei­ro que me encan­ta­va, Zinedine Zidane. E con­fes­so que sem­pre me orgu­lhei de ser ami­go de um deles, meio-cam­pis­ta, Afonsinho, irre­to­cá­vel na sua cate­go­ria, nos seus pas­ses e tam­bém no car­re­gar a bola, e ain­da como pes­soa huma­na.

Dito isso, pas­so um pou­co à lite­ra­tu­ra, mas sem valo­ri­zá-la mais do que a arte dos cida­dãos aci­ma cita­dos. A pri­mei­ra vez que li Borges foi o livro Fictions, em fran­cês, e o meu sen­ti­men­to foi de abso­lu­ta estra­nhe­za. “Mas então é isso?” Entendo, pois, a sua ex-namo­ra­da, pois Borges entra aos pou­cos na gen­te, a sua pala­vra míni­ma abrin­do espa­ço para a trans­cen­dên­cia. O que aliás acon­te­ce tam­bém com João Cabral, com sua secu­ra, e dizem que Drummond dis­se que João Cabral ia aca­bar escre­ven­do poe­mas sem poe­sia. Cortázar, que li pela pri­mei­ra vez tam­bém em Paris, como Borges, seduz o lei­tor mais facil­men­te com seus con­tos, mas há livros seus que são abso­lu­ta­men­te expe­ri­men­tais, qua­se impe­ne­trá­veis, como Prosa de obser­va­tó­rio, um livro pra­ti­ca­men­te abs­tra­to.

Mas o fute­bol não me saiu ain­da da cabe­ça e ima­gi­no que Borges devia detes­tá-lo, Cortázar tal­vez não, e é sabi­do que gos­ta­va de jazz. Puig é mui­to bom, entre outras coi­sas por­que mer­gu­lha­va fun­do numa lite­ra­tu­ra qua­se de foto­no­ve­la, de letra de tan­go e de fil­mes clas­se B. No mun­do de seus per­so­na­gens cabe­ria o fute­bol, mas não me lem­bro de tê-lo vis­to tra­tan­do do tema. É pena, por­que o fute­bol argen­ti­no bem mere­ce­ria ser retra­ta­do por um escri­tor de pri­mei­ra, como Piglia, de quem estou ado­ran­do Alvo notur­no.

De Arlt e Macedonio já falei em car­ta ante­ri­or, assim como antes fala­ra em César Aira. E devo con­fes­sar que nun­ca li Bioy Casares e Saer. Agora, falar sobre minhas influên­ci­as, como você pediu, não seria fácil, pois sem­pre li de tudo e um escri­tor pro­cu­ra encon­trar sua pró­pria voz e é pos­sí­vel que eu tenha con­se­gui­do, embo­ra, em meus prin­cí­pi­os, apon­tas­sem que eu tinha influên­cia de Rubem Fonseca. Pode ser que sim, mas ape­nas em um ou outro con­to e acho que a influên­cia de Fonseca, curi­o­sa que per­ce­bi­da mais em escri­to­ras, se tor­na facil­men­te cli­chê, como a de Hemingway, que nem mes­mo cur­to mui­to.

Mas con­ti­nuo aqui fas­ci­na­do por Rivellino obser­van­do Ademir da Guia den­tro de cam­po. Isso engran­de­ce os dois e daí pas­so para um outro joga­dor que atu­al­men­te escre­ve sobre fute­bol e faz isso mui­to bem: Tostão. Você, Zé Geraldo, é um óti­mo jor­na­lis­ta espor­ti­vo (não espor­ti­vo tam­bém) e ago­ra me lem­brei de uma crô­ni­ca sua sobre aque­la ban­dei­ri­nha, Ana Paula, que errou num jogo impor­tan­te e foi mui­to mal­tra­ta­da e você apon­tou com mui­ta pro­pri­e­da­de que ela esta­va sen­do víti­ma do machis­mo no fute­bol. E Ana Paula aca­bou posan­do para a Playboy, com todos os méri­tos.

 

Um gran­de abra­ço.

 

Sérgio

 

* Na ima­gem da home que ilus­tra este post: Jogo entre Brasil e Tchecoslováquia na Copa do Mundo de 1970

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