Menos que nada é muita coisa

No cinema

23.07.12

Escrevi aqui há algu­mas sema­nas sobre os “fil­mes invi­sí­veis” — aque­les que entram em car­taz nas fres­tas (ou sobras) do cir­cui­to exi­bi­dor e desa­pa­re­cem rapi­da­men­te. Pois bem, eis aqui mais um: Menos que nada, de Carlos Gerbase, que estre­ou no fim de sema­na em vári­as capi­tais bra­si­lei­ras, mas em cada uma delas numa úni­ca sala e numa úni­ca ses­são (sem­pre às 18h30). Quem esti­ver inte­res­sa­do não deve mar­car bobei­ra.

Ao con­trá­rio do que o títu­lo suge­re, tra­ta-se de um fil­me inte­res­san­tís­si­mo. Em linhas gerais, é a his­tó­ria de um psi­có­ti­co (Felipe Kannenberg) inter­na­do num hos­pí­cio de Porto Alegre e do esfor­ço de uma jovem psi­qui­a­tra (Branca Messina) para enten­der seu caso e ali­vi­ar seu sofri­men­to.

O rotei­ro é remo­ta­men­te ins­pi­ra­do no con­to O diá­rio de Redegonda, do extra­or­di­ná­rio escri­tor aus­tría­co Arthur Schnitzler, admi­ra­do por Freud e autor da nove­la que ori­gi­nou o últi­mo tra­ba­lho de Kubrick, De olhos bem fecha­dos, bem como da peça A ron­da, fil­ma­da por Max Ophüls.

No fil­me de Gerbase, menos do que as minú­ci­as téc­ni­cas do caso clí­ni­co e de seu tra­ta­men­to, o que inte­res­sa é a ana­lo­gia, ou simi­li­tu­de, entre três ordens de inves­ti­ga­ção: a psi­ca­na­lí­ti­ca, a arque­o­ló­gi­ca (ati­vi­da­de do pro­ta­go­nis­ta) e a poli­ci­al. Nas três, pro­cu­ra-se desen­ca­var ves­tí­gi­os e pis­tas do pas­sa­do para recons­ti­tuir um even­to, uma his­tó­ria, uma situ­a­ção.

Participação do espec­ta­dor

A ideia con­vém como uma luva ao cine­ma de Carlos Gerbase, que tem o gos­to lúdi­co da cons­tru­ção nar­ra­ti­va em retros­pec­to, a par­tir de vári­os pon­tos de vis­ta, con­tan­do sem­pre com a par­ti­ci­pa­ção ati­va do espec­ta­dor para a mon­ta­gem final do rela­to.

Em cur­tas como O cor­po de Flavia (1990) e Deus ex-machi­na (1995) e em lon­gas como Tolerância (2000), Sal de pra­ta (2005) e 3 efes (2007), o dire­tor sem­pre jogou com a ins­ta­bi­li­da­de da ver­da­de, a sub­je­ti­vi­da­de do olhar, a incon­fi­a­bi­li­da­de do nar­ra­dor. Seus fil­mes, dos mais bem-suce­di­dos aos mais equi­vo­ca­dos, são que­bra-cabe­ças que ape­lam à cum­pli­ci­da­de cri­a­ti­va do públi­co. Aqui, o trai­ler de 3 efes, fil­me igual­men­te notá­vel e pou­co vis­to:

O que há de novo em Menos que nada é uma cer­ta gra­vi­da­de de tom, uma renún­cia qua­se com­ple­ta ao humor e à leve­za que, bem ou mal, pre­va­le­ci­am nas obras ante­ri­o­res. Pudera. Aqui, o tema é o sofri­men­to huma­no, a dor não ape­nas psí­qui­ca, mas moral e afe­ti­va. Um fil­me de matu­ri­da­de e melan­co­lia, que tem num cha­péu bran­co de meni­na o seu “Rosebud”. Quem assis­tir enten­de­rá.

* Na ima­gem que ilus­tra o post: cena do fil­me Menos que nada.

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