Meu amigo Sérgio Porto

Por dentro do acervo

24.01.13

No Brasil, depois dos sen­sa­ci­o­nais bilhe­ti­nhos, Jânio Quadros cria a con­fu­são com a renún­cia. A Copa do Mundo, que Mané Garrincha trou­xe do Chile, não pode ser­vir de antí­do­to con­tra o esfa­re­la­men­to do valor do dinhei­ro. Os mili­ta­res fazem uma revo­lu­ção e pou­co depois o impos­sí­vel acon­te­cia: Lacerda e Goulart ten­ta­vam uma “fren­te ampla”.

Combates no Oriente Médio, agi­ta­ções estu­dan­tis em todo o mun­do, vio­lên­ci­as poli­ci­ais, ter­ro­ris­mo, fome.

Foi nes­sa cul­tu­ra que flo­riu o humo­ris­mo de Stanislaw Ponte Preta. Ele mor­reu na pri­mei­ra hora de 30 de setem­bro de 1968, no mes­mo ano em que eram assas­si­na­dos Robert Kennedy e Martin Luther King. Ao sen­tir-se mal, dis­se para a empre­ga­da: “Estou apa­gan­do. Vira o ros­to pra lá que eu não que­ro ver mulher cho­ran­do per­to de mim.”

Por que do estru­me mor­tal daque­la épo­ca deu flor a gra­ça de Sérgio Porto? Possivelmente por­que nos peri­gos his­tó­ri­cos mais bru­tais é que a fri­vo­li­da­de huma­na mais se assa­nha, cho­can­do-se sofri­men­to e bes­tei­ra. A cham­pa­nho­ta do café-soci­ety fazia um con­tras­te gro­tes­co com os esque­le­tos de Biafra; a efer­ves­cên­cia eró­ti­ca tor­na­va mais paté­ti­ca a car­ne huma­na incen­di­a­da no Vietnã; a arre­gi­men­ta­ção de milhões de chi­ne­ses toma­va mais ridí­cu­los os tra­sei­ros que se retor­ci­am no pra­zer soli­tá­rio do twist; a minis­saia era mais dis­cu­ti­da que Marcuse; os desa­ba­men­tos das encos­tas do Rio eram esque­ci­dos com a pri­mei­ra onda musi­cal apa­lha­ça­da.

O for­te de Stanislaw Ponte Preta era jus­ta­men­te extrair humo­ris­mo dos fatos, das noti­ci­as da impren­sa. Leitores envi­a­vam-lhe recor­tes de jor­nais, cola­bo­ran­do mais ou menos com a meta­de das his­tó­ri­as con­ta­das no Festival de bes­tei­ras que asso­la o país. Pouco antes de mor­rer ele lan­ça­va um jor­nal­zi­nho humo­rís­ti­co, cha­ma­do A Carapuça: era ele mais uma vez à pro­cu­ra de pia­das con­cre­tas.

O nome todo era Sérgio Marcos Rangel Porto. Nasceu numa casa de Copacabana, na Rua Leopoldo Miguez, e lá con­ti­nu­ou moran­do depois que a casa foi subs­ti­tuí­da por um edi­fí­cio. Menino de pela­das na praia, pega­va no gol e tinha o ape­li­do de Bolão. Por chu­tar bola den­tro da sala de aula, foi expul­so do Colégio Mallet Soares, onde fez o pri­má­rio. Mais talu­do, sem­pre no gol, foi vári­as vezes cam­peão da areia, ao lado de Heleno de Freitas, o cra­que, Sandro Moreira, João Saldanha, três bota­fo­guen­ses de tem­pe­ra­men­to. Mas Sérgio sem­pre foi do Fluminense, onde jogou bas­que­te e volei­bol. Nos últi­mos anos pra­ti­ca­men­te só com­pa­re­cia ao Maracanã nos jogos do tri­co­lor. Só duran­te os 90 minu­tos do jogo do seu time (ou do sele­ci­o­na­do bra­si­lei­ro) ele per­dia total­men­te a gra­ça, de ros­to afo­gue­a­do e unha do indi­ca­dor entre os den­tes.

O estu­dan­te de Arquitetura não pas­sou do ter­cei­ro ano, depois do giná­sio no Ottati e pré-ves­ti­bu­lar no Juruena. Entrou para o Banco do Brasil e come­çou a belis­car no jor­na­lis­mo, escre­ven­do crí­ti­ca de cine­ma no Jornal do Povo, onde fica­va de ouvi­do aten­to às pia­das do Barão de Itararé.

Eu o conhe­ci mui­to mais ban­cá­rio do que jor­na­lis­ta, quan­do ele escre­via crô­ni­cas sobre jazz na revis­ta Sombra, um men­sá­rio grã-fino no qual Lúcio Rangel fazia mila­gres para inje­tar inte­li­gên­cia.

Era no tem­po da gra­va­ta, dos sapa­tos lus­tro­sos, dos cabe­los bem-apa­ra­dos. Sérgio era impe­cá­vel na sua apa­rên­cia e só os ínti­mos o conhe­ci­am por den­tro, e o por den­tro dele era bem sim­ples: uma ágil comi­ci­da­de de raci­o­cí­nio e uma pron­ta sen­si­bi­li­da­de dian­te de todas as coi­sas que mere­cem o des­gas­te do afe­to. Anos mais tar­de, ele me diria, quei­xo­so: “O dia­bo é que pen­sam que eu sou um cíni­co e nin­guém acre­di­ta que eu sou um sen­ti­men­ta­lão.”

Éramos um ban­do de pedes­tres, for­ça­dos a ficar na cida­de sem con­du­ção depois do tra­ba­lho. Sentávamos pra­ça num bar da Esplanada do Castelo até que o uís­que do mes­mo de hones­to pas­sa­va a duvi­do­so e do duvi­do­so pas­sa­va a into­le­rá­vel. Mudávamos de bar. Foi assim que per­cor­re­mos o Pardellas, o Grande Ponto, o Vilariño, o Serrador e o Juca’s Bar. Com o pri­mei­ro desa­fo­go do trans­por­te, ain­da podía­mos che­gar, depois de uma pas­sa­da pelo Recreio velho, aos bares mais cômo­dos de Copacabana, o Maxim’s, o Michel, o Farolito. Ninguém pen­sa­va em apar­ta­men­to pró­prio e as noi­tes aca­ba­vam no Vogue, onde as moças e as jovens senho­ras eram lin­dís­si­mas, lim­pís­si­mas e ali­e­na­dís­si­mas.

Esse rotei­ro foi cur­sa­do pra­ti­ca­men­te por toda uma gera­ção conhe­ci­da: Lúcio Rangel, Ari Barroso, Antônio Maria, Araci de Almeida, Sílvio Caldas, Dolores Duran, José Lins do Rego, Rubem Braga, Rosário Fusco, Simeão Leal, João Condé, Vinicius de Moraes, Flávio de Aquino, Santa Rosa, Augusto Rodrigues, Di Cavalcanti…

Não se fala­va de arte ou de lite­ra­tu­ra, mas de músi­ca popu­lar, prin­ci­pal­men­te do jazz negro de New Orleans. Jelly Roll Morton, Bechet e Armstrong expri­mi­am tudo o que dese­já­va­mos. As pro­di­gi­o­sas memó­ri­as de Sérgio e Lúcio nos for­ne­ci­am todos os sub­sí­di­os his­tó­ri­cos de que pre­ci­sás­se­mos, pois a tur­ma can­ta­va mais do que fala­va.

Uma vez Vinicius de Moraes che­gou depois de lon­ga tem­po­ra­da diplo­má­ti­ca nos Estados Unidos. Havia bati­do um lon­go papo com Louis Armstrong. No bar Michel, nas pri­mei­ras horas da noi­te, ain­da por­tan­to com pou­co com­bus­tí­vel na cuca, a ilus­tre orques­tra não demo­rou a for­mar-se. Instrumentos invi­sí­veis foram sen­do dis­tri­buí­dos entre Sérgio, Vinicius, Fernando Sabino, José Sanz, Lúcio Rangel, Sílvio Túlio Cardoso. Eram o saxo­fo­ne, o pia­no, o con­tra­bai­xo, o trom­pe­te, o trom­bo­ne, a bate­ria.

Não me deram nada e tive que ficar de espec­ta­dor. Mas valeu a pena. A orques­tra tocou por mais de duas horas, alhe­a­da das mulhe­res boni­tas que entra­vam e até esque­ci­da de reno­var os copos. A cer­ta altu­ra Sérgio pediu a Vinicius que tro­cas­sem de ins­tru­men­tos, ele que­ria o pia­no, ficas­se o poe­ta com o saxo­fo­ne. Feito. Só que os dois, com­pe­ne­tra­dos e des­li­ga­dos, tro­ca­ram de lugar efe­ti­va­men­te, como se dian­te da cadei­ra de Vinicius esti­ves­sem de fato as teclas de um pia­no. Foi a jam ses­si­on mais sur­re­a­lis­ta da his­tó­ria do jazz.

O humo­ris­ta come­çou a sur­gir no Comício, um sema­ná­rio boê­mio e des­con­traí­do, onde tam­bém apa­re­ce­ram as pri­mei­ras crô­ni­cas de Antônio Maria. Mas foi no Diário Carioca, tam­bém boê­mio e impa­gá­vel, que nas­ceu Stanislaw Ponte Preta, que tem raí­zes no Serafim Ponte Grande, de Oswald Andrade, e em suges­tões de Lúcio Rangel e do pin­tor Santa Rosa. Convidado por Haroldo Barbosa, pre­ci­san­do melho­rar o orça­men­to, Sérgio foi fazer gra­ça no rádio, depois de pas­sar um mês a apren­der na cozi­nha dos pro­gra­mas humo­rís­ti­cos da Rádio Mayrink Veiga. Em 1955 Stanislaw Ponte Preta está na Última Hora, onde cri­ou suas per­so­na­gens e ficou famo­so de um mês para o outro. Ali ins­ti­tuiu, con­tra­ce­nan­do com as ele­gan­tes mais bem ves­ti­das de Jacinto de Thormes, as 10 mais bem des­pi­das do ano. Eram as cer­ti­nhas da foto­te­ca Lalau. Teve a ideia quan­do ouviu de seu pai na rua este comen­tá­rio: “Olhe ali que moça mais cer­ta!” E quem conhe­ce Américo Porto sabe que um cer­to tem­pe­ro do humo­ris­mo do filho sem­pre exis­tiu nas obser­va­ções espon­tâ­ne­as do pai.

Foi numa pri­ma de sua mãe que ele bus­cou os pri­mei­ros tra­ços de sua mais céle­bre per­so­na­gem, a macró­bia e sapi­en­te Tia Zulmira, sem­pre a dizer coi­sas engra­ça­das. Sérgio uma vez mor­reu de rir ao ouvir daque­la sua paren­ta este comen­tá­rio: “Por uma pere­re­ca o man­gue não põe luto.”

Tia Zulmira é uma des­sas cri­a­tu­ras que acon­te­cem: saiu de Vila Isabel, onde nas­ceu, por não achar nada boni­to o monu­men­to a Noel Rosa. Passou anos e anos em Paris, divi­din­do qua­se o seu tem­po entre o Follies Bergère, onde era vede­te, e a Sorbonne, onde era um crâ­nio. Casou-se vári­as vezes, des­lum­brou a Europa, foi cor­res­pon­den­te do Times na Jamaica, cola­bo­rou com Madame Curie, bri­gou nos áure­os tem­pos com Darwin, por cau­sa de um maca­co, ensi­nou dan­ça a Nijinski, rela­ti­vi­da­de a Einstein, psi­ca­ná­li­se a Freud, auto­mo­bi­lis­mo ao argen­ti­no Fangio, tou­re­ar a Dominguín, cine­ma a Chaplin, e deu algu­mas dicas para o dou­tor Salk. Vivia, já velha mas sem­pre sapi­en­te, num casa­rão da Boca do Mato, fazen­do pas­téis que um sobri­nho ven­dia na esta­ção do Méier. Não tinha papas na lín­gua e, entre mui­tas outras coi­sas, detes­ta­va mulher gor­da em garu­pa de lam­bre­ta.

Primo Altamirando tam­bém ficou logo famo­so em todo o Brasil. O nefan­do nas­ceu num ano tão dife­ren­te que nele o São Cristóvão foi cam­peão cari­o­ca (1926). Ainda de fral­das pra­ti­cou todas as mal­da­des que as cri­an­ças cos­tu­mam fazer dos 10 aos 15 anos, como, por exem­plo, botar o cana­ri­nho bel­ga no liqui­di­fi­ca­dor: Foi expul­so da esco­la pri­má­ria ao ser apa­nha­do falan­do mui­to mal de São Francisco de Assis. Pioneiro de plan­ta­ção de maco­nha do Rio. Vivendo do dinhei­ro de algu­mas velho­tas, ini­mi­go de todos os códi­gos, con­si­de­ra­va-se um homem rea­li­za­do. E, ao saber de pes­qui­sas no cam­po da fecun­da­ção em labo­ra­tó­rio, dizia: “Por mais efi­caz que seja o méto­do novo de fazer cri­an­ça, a tur­ma jamais aban­do­na­rá o anti­go.”

Raras vezes Stanislaw dei­xa­va a sáti­ra dos fatos e par­tia para uma cari­ca­tu­ra cole­ti­va:

“O negó­cio acon­te­ceu num café. Tinha uma por­ção de sujei­tos sen­ta­dos nes­se café. Havia bra­si­lei­ros, por­tu­gue­ses, fran­ce­ses, arge­li­nos, ale­mães, o dia­bo.

De repen­te, um ale­mão, for­te pra cachor­ro, levan­tou e gri­tou que não havia homem pra ele ali den­tro. Houve a sur­pre­sa ini­ci­al, li moti­va­da pela pro­vo­ca­ção, e logo um tur­co, tão for­te como o ale­mão, levan­tou-se de lá e per­gun­tou: ‘Isso é comi­go?’ ‘Pode ser com você tam­bém’, res­pon­deu o ale­mão.

Aí então o tur­co avan­çou para o ale­mão e levou uma trau­li­ta­da tão segu­ra que caiu no chão. Vai daí o ale­mão repe­tiu que não havia homem ali den­tro pra ele. Queimou-se então o por­tu­guês, que era mai­or que o tur­co. Queimou-se e não con­ver­sou. Partiu pra cima do ale­mão e não teve outra sor­te. Levou um mur­ro debai­xo dos quei­xos e caiu sem sen­ti­dos.

O ale­mão lim­pou as mãos, deu mais um gole no cho­pe e fez ver aos pre­sen­tes que o que dizia era cer­to. Não havia homem para ele ali naque­le café. Levantou-se tam­bém um inglês tron­cu­do pra cachor­ro e tam­bém entrou bem. E depois do inglês foi a vez de um fran­cês, depois um noru­e­guês etc. etc. Até que, lá do can­to do café, levan­tou-se um bra­si­lei­ro magri­nho, cheio de picar­dia para per­gun­tar, como os outros: ‘Isso é comi­go?’

O ale­mão vol­tou a dizer que podia ser. Então o bra­si­lei­ro deu um sor­ri­so cheio de bos­sa e veio gin­gan­do assim pro lado do ale­mão. Parou per­to, balan­çou o cor­po e… PIMBA! O ale­mão deu-lhe uma pan­ca­da na cabe­ça com tan­ta for­ça que qua­se des­mon­ta o bra­si­lei­ro.

Como, minha senho­ra? Qual é o final da his­tó­ria? Pois a his­tó­ria ter­mi­na aí, mada­ma. Termina aí que é pros bra­si­lei­ros per­de­rem essa mania de pisar macio e pen­sar que são mais malan­dros do que os outros.”.

De que mor­reu Sérgio Porto? Todos os seus ami­gos dizem a mes­ma coi­sa: do cora­ção e do tra­ba­lho.

Era um mons­tro para tra­ba­lhar esse homem de trân­si­to livre entre todas as coi­sas gra­tui­tas da vida e que pou­cos meses antes de mor­rer gemia de pesar ao ter de dei­xar um quar­to de hotel: gos­ta­ria de ficar des­can­san­do pelo menos um mês.

Lembro-me dele quan­do che­ga­mos a Buenos Aires, em 1959, no dia do jogo dra­má­ti­co entre o Brasil e o Uruguai (aque­le três a um, que teve bri­ga duran­te e depois). Vi Sérgio em vári­as ati­tu­des dife­ren­tes naque­le mes­mo dia: fazen­do uma pia­da para o médi­co argen­ti­no que lhe pediu o ates­ta­do de vaci­na (ele aper­tou a mão do dou­tor, mui­to serio. dizen­do: “Vacunacíón para usted tam­bién.”); duran­te o jogo ele deu um empur­rão nos pei­tos dum argen­ti­no que cha­ma­va os bra­si­lei­ros de covar­des (por cau­sa do joga­dor Chinesinho, que saiu cor­ren­do na hora do pau); cho­rou quan­do Paulo Valentim fez o ter­cei­ro gol; riu-se às gar­ga­lha­das quan­do Garrincha pas­sou indi­fe­ren­te entre os uru­guai­os furi­o­sos e entrou no ôni­bus com um san­duí­che enor­me na boca e outro na mão; con­ver­sou lon­ga­men­te comi­go sobre suas afli­ções sen­ti­men­tais; e ceou com gran­de entu­si­as­mo.

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