Meu padrinho Nelson

Correspondência

10.07.13

Leia a car­ta ante­ri­or.

Nelson Cavaquinho

 

Nelson Cavaquinho

Dom Reinaldo,

Começo por onde ter­mi­nas. (Ih, de novo essa segun­da pes­soa inter­pos­ta em nos­sa con­ver­sa. Audácia da siri­gai­ta!) Começo por onde você ter­mi­na: sim, que a pró­xi­ma ter­tú­lia seja às caras, em São Paulo ou no Rio. Onde pre­fe­rir. Só peço que, antes, você insis­ta na sau­dá­vel prá­ti­ca do “xuá com­ple­to: cara-pé-cu, e todo o res­to, cabe­lo inclu­si­ve, com bas­tan­te xam­pu”. Prometo fazer o mes­mo, acres­cen­tan­do bar­ba, cabe­lo e bigo­de.

Invejo a chu­vi­nha, o café requen­ta­do, as arau­cá­ri­as, os pija­mas e os chi­ne­lões à la Jacinto de Thormes — o cená­rio, o con­for­to e a ins­pi­ra­ção que você des­fru­ta, meu velho, na labu­ta com as altís­si­mas pala­vras sob o abri­go do cha­lé da Mantiqueira. As minhas, as pala­vras que tenho usa­do ulti­ma­men­te, ao con­trá­rio, são ras­tei­ras, de enco­men­da, sem bri­lho, sem sal, meros caça-níqueis. Minha vidi­nha de escri­ba de alu­guel está de doer. Até o bur­bu­ri­nho das ruas aqui embai­xo, do qual dei notí­cia na car­ta núme­ro 1, ces­sou de repen­te, com a che­ga­da do inver­no cari­o­ca. (Quem bate? É o fri­i­i­i­i­io!) Alta madru­ga­da, ain­da pas­sa um imbe­cil falan­do alto no celu­lar e per­gun­tan­do se ela pode jogar as cha­ves pela jane­la. Quer tro­car a sua meta­fí­si­ca pela minha melan­co­lia?

Quando gen­til­men­te você me rece­beu para jan­tar em seu apar­ta­men­to do Jardim Paulista, lem­bra?, uma noi­te bor­ras­co­sa, se não me falha a memó­ria, logo lobri­guei sua admi­ra­ção pela dupla Alvarenga & Ranchinho pela manei­ra de pro­nun­ci­ar a pala­vra “car­ne”, com o R tri­pli­ca­do e puxa­do. Fingi nada notar. Mas guar­dei a cer­te­za de que, na ten­ra ida­de, o meni­no Rei não per­dia uma apre­sen­ta­ção deles na tele­vi­são e que, de tão fãzo­co, fez com que lhe com­pras­sem na fei­ra livre do Butantã um cha­péu de palha.

O que me traz de vol­ta — pode-se fugir dela? — a onda de pro­tes­tos. Arrefeceram? Um pou­co. Mas o cli­ma inda é de ten­são, tipo bar­ril de pól­vo­ra. Se os mani­fes­tan­tes não sabem bem o que que­rem, e mui­to menos o gover­no tem algo de con­cre­to a pro­por, ao menos que ado­tem a mar­chi­nha Mamãe eu que­ro como hino ofi­ci­al do fur­dun­ço. Os her­dei­ros do Jararaca hão de agra­de­cer. O Jararaca, você sabe, era o cra­que que fazia dupla cômi­co-musi­cal com o Ratinho, este no vio­lão, aque­le no cla­ri­ne­te e sax-alto. Ambos riva­li­za­vam com Alvarenga & Ranchinho, uma con­fu­são dos dia­bos!

Gravada pela pri­mei­ra vez em 1937 por Jararaca, úni­co autor que deu par­ce­ria ao can­tor Vicente Paiva, Mamãe eu que­ro é uma das mar­chi­nhas mais can­ta­das de todos os tem­pos, um “impre­vi­sí­vel suces­so”, na ava­li­a­ção dos pes­qui­sa­do­res Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello, que só foi pos­sí­vel por­que a gra­va­ção naque­les tem­pos era mais ou menos bara­ta. Nasceu como brin­ca­dei­ra de estú­dio, e, na ver­da­de, tudo na músi­ca é brin­ca­dei­ra, comi­ci­da­de, malí­cia, non­sen­se. Desde o pró­lo­go, no qual Almirante — a mai­or paten­te do rádio — dia­lo­ga de impro­vi­so com Jararaca. No coro está o casal Cyro Monteiro — olha o Formigão aí de novo baten­do pon­to na nos­sa cor­res­pon­dên­cia — e Odete Amaral, além de músi­cos extra­or­di­ná­ri­os no acom­pa­nha­men­to: Luís Americano no cla­ri­ne­te, Canhoto no cava­qui­nho, Russo do Pandeiro. Quando Carmen Miranda a lan­çou como I want my mama no fil­me Serenata tro­pi­cal (1940), sobre­veio o estou­ro inter­na­ci­o­nal.

Que Mamãe eu que­ro, nes­te gra­ve momen­to do país, retor­ne, em triun­fo, às ruas!

Mas pas­se­mos para “as boas coi­sas da vida”, expres­são do agra­do de Rubem Braga, tan­to que a fez títu­lo do seu der­ra­dei­ro livro de crô­ni­cas, publi­ca­do em 1988. Sensacional a máxi­ma do Braga — “Certos espe­lhos deve­ri­am refle­tir melhor antes de refle­tir cer­tas mulhe­res” — que você res­ga­ta na car­ti­nha núme­ro 3. De fato, todos nós, como os espe­lhos do Pirandello, deve­mos refle­tir melhor, não só dian­te de espe­lhos, na hora da ver­da­de de lavar o ros­to, como tam­bém dian­te de cer­tas mulhe­res. A fra­se ficou meio con­fu­sa, pois não? Mas é isso mes­mo. Passemos adi­an­te.

O cau­so das cin­zas de Rubem Braga pro­ce­de — e você o nar­rou com esti­lo e pro­pri­e­da­de. Só dis­cor­do de cha­mar a bela cida­de de São Paulo de “for­no cre­ma­tó­rio da crô­ni­ca”, que é um pas­so à fren­te do já con­sa­gra­do “túmu­lo do sam­ba”. É que, à épo­ca, o Rio, sem­pre atra­sa­do e ensi­mes­ma­do, não dis­pu­nha de uma gre­lha mor­tuá­ria. Como é de nos­so enga­no­so cos­tu­me, os cari­o­cas sonhá­va­mos viver para sem­pre, belos e for­mo­sos varões da praia.

Amigo Rei, sin­to-me — creio que já o dis­se — melan­có­li­co nes­ta madru­ga­da de ter­ça-fei­ra, dia 9 de julho, em que escre­vo com um gor­ro alvi­ne­gro enter­ra­do na cabe­ça. Estou dis­pos­to a fazer reve­la­ções, a con­fes­sar víci­os, sai de bai­xo! Chegou o momen­to de, afi­nal, escla­re­cer o meu apa­dri­nha­men­to por Nelson Cavaquinho. Seguinte: até hoje vis­to cami­si­nhas de pagão.

A des­pei­to dos rogos de minha mãe cató­li­ca, meu pai, que não é lá mui­to cató­li­co, achou que, mais tar­de, quan­do o filho tives­se juí­zo para deci­dir, que fizes­se ou não o rito de pas­sa­gem com água (imer­são, efu­são ou asper­são).

Acontece que meu pai suge­riu como padri­nho de men­ti­ra o nome de Nelson Cavaquinho, a quem conhe­ce­ra e de quem fica­ra cama­ra­da nas noi­ta­das do mito­ló­gi­co Zicartola, res­tau­ran­te aber­to em 1963 num sobra­do de três anda­res no núme­ro 53 da Rua da Carioca. Angenor de Oliveira, o Cartola, e Euzébia Silva do Nascimento, a Zica, mora­vam no ter­cei­ro andar. No pri­mei­ro o sam­ba comia, com Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Ismael Silva, Aracy de Almeida. A pla­teia, em sua mai­o­ria, era de esquer­da e clas­se média (pare­ci­da com a que, hoje, fre­quen­ta as are­nas da Copa do Mundo). E detes­ta­va, sem moti­vo apa­ren­te, o Ataulfo Alves. Talvez por­que este fazia suces­so nas rádi­os, ganha­va algum dinhei­ro, anda­va de car­rão, ves­tia-se mui­to bem (foi inclu­si­ve elei­to um dos “mais ele­gan­tes” na colu­na do Ibrahim Sued).

Nascido um ano antes da inau­gu­ra­ção do Zicartola, eu não pude, por razões óbvi­as, acom­pa­nhar a far­ra. Mas cres­ci ouvin­do his­tó­ri­as daque­le lugar e daque­la gen­te, e, logo que cri­ei buço, fui ten­tar recu­pe­rar o tem­po per­di­do. Beirava os 12 anos quan­do assis­ti pela pri­mei­ra vez a um show de Nelson Cavaquinho, ines­que­cí­vel em todos os aspec­tos. Foi em Santa Teresa, no meio de uma pra­ça, a Odylo Costa Neto, sen­ta­do no chão com os outros espec­ta­do­res.

Ao che­gar, avis­tei Nelson Cavaquinho ao lado de Jair do Cavaquinho; os dois iri­am divi­dir ins­tru­men­tos no pal­co de pou­cos metros qua­dra­dos que mal dava para abri­gar um deles. Além do sobre­no­me artís­ti­co em comum, Nelson e Jair foram par­cei­ros num sam­ba cuja letra mis­tu­ra cru­el­da­de e hedo­nis­mo: “Vou partir/ Não sei se voltarei/ Tu não me quei­ras mal/ Hoje é Carnaval”.

Cabelos bran­cos, ócu­los de len­tes gros­sas, cami­sa qua­dri­cu­la­da para fora das cal­ças de ter­gal, sapa­tos vul­ca­brás cam­bai­os, Nelson brin­ca­va com Jair, tiran­do-lhe sar­ro, pas­san­do-lhe a mão na bun­da. Antes da apre­sen­ta­ção, me apro­xi­mei e fiz um pedi­do gague­jan­te: “Dá para can­tar Caridade, por favor?”. A res­pos­ta veio seca, qua­se inau­dí­vel: “Não está no script”. Mas, lá pelas tan­tas do show, reco­nhe­ci os pri­mei­ros acor­des da músi­ca.

Curioso: Nelson Cavaquinho cos­tu­ma­va sem­pre ini­ci­ar os tra­ba­lhos com Caridade, mas daque­la vez os ver­sos sur­gi­ram como que do nada. O autor não escon­dia sua pre­fe­rên­cia por este sam­ba estra­nho que, a rigor, é um retra­to ínti­mo:

Sei que a mai­or heran­ça

que eu tenho na vida

é meu cora­ção ami­go dos afli­tos

Sei que não per­co nada em pen­sar assim

por­que ama­nhã não sei o que será de mim.

Belíssimo e como­ven­te, apre­sen­ta um esti­lo úni­co de com­por: a pala­vra final de cada ver­so que­bra, como se fizes­se par­te do ver­so seguin­te, o enjam­be­ment dos fran­ce­ses. Além dis­so, Caridade, como outros do Nelson, ter­mi­na na segun­da par­te, quan­do geral­men­te os sam­bas vol­tam ao últi­mo ver­so da pri­mei­ra na hora de aca­bar (este recur­so faz com que as com­po­si­ções pos­sam ter o ver­da­dei­ro autor iden­ti­fi­ca­do, e isso, em se tra­tan­do de um ven­de­dor de sam­bas con­su­ma­do como Nelson Cavaquinho, é de uti­li­da­de públi­ca e his­tó­ri­ca).

Em 1938 Carlos Cachaça teve uma ten­di­nha no Chalé, bair­ro do Morro de Mangueira, onde ven­dia de tudo, mas o for­te era cacha­ça e sar­di­nha fri­ta. Lá iam Cartola, Zé da Zilda, o com­po­si­tor Moacir Bernardes, um cama­ra­da conhe­ci­do como Jiló, que era con­du­tor de bon­de, o Barra Mansa, futu­ro pre­si­den­te da Estação Primeira. E Nelson Cavaquinho, que toma­va por­res de jun­tar cri­an­ça e dor­mia em cima do bal­cão ou na por­ta da ten­di­nha.

Depois Carlos e Nelson mora­ram jun­tos, num bar­ra­co nos altos do Pindura Saia, que bati­za­ram com o nome de Fenianos, o mes­mo da gran­de soci­e­da­de car­na­va­les­ca, rival dos Democráticos e dos Tenentes do Diabo nas ruas do Rio. Viviam sob o mes­mo teto de zin­co, mas não coin­ci­di­am nos horá­ri­os. Lembre que Carlos Cachaça, mes­mo hon­ran­do o ape­li­do com vigor, foi fun­ci­o­ná­rio exem­plar da Rede Ferroviária Federal, na qual tra­ba­lhou duran­te qua­ren­ta anos, até a apo­sen­ta­do­ria, sem fal­tar uma vez ao ser­vi­ço. Nelson Cavaquinho, ao con­trá­rio, teve vida des­re­gra­da, não ami­ga do tra­ba­lho.

Pois Carlos só cru­za­va Nelson quan­do saía de manhã cedo para o baten­te, e este esta­va vol­tan­do da far­ra. Trazia o vio­lão embai­xo do bra­ço e um sam­ba com­pos­to. Quando des­cia o mor­ro, no meio da tar­de, depois de curar a res­sa­ca com algum cal­do, já tinha fei­to outro sam­ba, cuja qua­li­da­de ia tes­tar nos bote­quins da Praça Tiradentes com even­tu­ais com­pra­do­res.

Depois do show inau­gu­ral de Santa Teresa, qual minha feli­ci­da­de ao entrar num bote­co da Rua Mem de Sá, tem­pos da Lapa pré-colom­bi­a­na, e encon­trar Nelson encos­ta­do no bal­cão e no vio­lão, pron­to a trans­for­mar, como dizia Albino Pinheiro, qual­quer um que esti­ves­se a sua vol­ta em públi­co. Antes, este­ve no banhei­ro. Na vol­ta, molhou o pen­te Flamengo na bica da pia e o levou aos cabe­los pra­te­a­dos, num ges­to de vai­da­de milon­guei­ra. Antes, ain­da, che­gou para o por­tu­guês e pediu: “Me dá um óleo”, com­bus­tí­vel que con­sis­tia em conha­que ser­vi­do até a bor­da naque­les copos vaga­bun­dos ame­ri­ca­nos.

Como nas letras do padri­nho, “meus olhos estão rasos dágua” ao lem­brar tudo isso. Vejo o vio­lão de cor­das de aço, dedi­lha­das com palhe­ta ner­vo­sa; escu­to a voz enrou­que­ci­da e ras­can­te. É como se a voz fos­se ela pró­pria a melo­dia e os ver­sos, numa sim­bi­o­se per­fei­ta, autô­ma­ta, bêba­da.

Perdão pelo abrup­to da inter­rup­ção. Mas não pos­so mais. Vou ali cho­rar um pou­qui­nho e vol­to quan­do puder.

Do seu mano,

Marechal

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