Meus 80 anos — por Agnès Varda

Cinema

13.11.13

Décimo títu­lo da cole­ção DVD | IMS, As prai­as de Agnès traz um livre­to com o ensaio Autoficções e cine­ma: Varda e a tec­no­lo­gia trans­for­ma­do­ra do eu, em que Claire Boyle, da Universidade de Edimburgo, pro­põe uma aná­li­se des­se fil­me “a par­tir das teo­ri­as lite­rá­ri­as de auto­fic­ção que se desen­vol­ve­ram na França” e do que Michel Foucault cha­ma de tec­no­lo­gia do eu. Esses dois pon­tos de apoio per­mi­tem “a com­pre­en­são de como o cine­ma tra­ta e pro­duz indi­vi­du­a­li­da­de e tam­bém como as trans­for­ma­ções auto­fic­ci­o­nais mol­da­das em Les pla­ges d’Agnès ser­vem a algo mais do que um pro­pó­si­to dire­ta­men­te lúdi­co ou des­cons­tru­ti­vo”.

O pro­ces­so de Varda, nar­ran­do em pri­mei­ra pes­soa a his­tó­ria de sua vida, con­clui Claire,“contribui para melho­ra do bem-estar do eu da dire­to­ra, de for­ma que cor­res­pon­de ao con­cei­to de Foucault de um con­jun­to de prá­ti­cas bené­fi­cas e trans­for­ma­do­ras desen­vol­vi­das para melho­rar a rela­ção do eu com ele mes­mo”. No tex­to a seguir, Varda con­ta como deci­diu fil­mar sua auto­bi­o­gra­fia.

Com 78 anos, qua­se che­gan­do aos 80, eu via os núme­ros 8 e 0 que avan­ça­vam em minha dire­ção como um zoom ou como um trem e come­cei a me dizer: ai, meu Deus! Tenho que fazer qual­quer coi­sa para os meus 80 anos. Lembrei que Montaigne, no fim de sua vida, escre­veu: ?creio que meus pró­xi­mos, que vão me per­der, gos­ta­ri­am de saber um pou­co mais do que eu conhe­ci’. Pensei mais ou menos isso com rela­ção a meus filhos e netos. Não temos o hábi­to de per­gun­tar tais coi­sas aos nos­sos paren­tes. Decidi então con­tar para eles como tudo come­çou, o que eu tinha na cabe­ça quan­do come­cei a fazer fil­mes, falar dos ami­gos, das pes­so­as que encon­trei, falar das coi­sas que fiz e falar tam­bém das pes­so­as que me fize­ram. Só pode­mos falar do que vive­mos, do que exis­te bem per­to de nós. E eu tive mui­tas vidas. Fui fotó­gra­fa. Fui cine­as­ta. E, depois, uma jovem artis­ta con­tem­po­râ­nea aos 72 anos. Gosto mui­to des­sa ter­cei­ra par­te de minha vida, que me per­mi­tiu ten­tar outros encon­tros, nou­tros luga­res, cri­ar outras rela­ções com os espec­ta­do­res. O melhor de tudo é poder expe­ri­men­tar dife­ren­tes for­mas de cri­a­ção.

Mas, então: eu me apro­xi­ma­va dos 80 anos. Achei que deve­ria fazer algo. Nos lem­bra­mos sem­pre de pas­sar por algum zero, mas quan­do era jovem jamais ima­gi­nei pas­sar pelos 80. Oito e zero. Quando jovem eu acha­va que pes­so­as com 40 anos já eram velhas e os que tinham 50 então… Lembro que não me inte­res­sa­va por pes­so­as com mais de 50 anos e ima­gi­na­va: acho que vou viver até os 45. Achava poé­ti­co mor­rer jovem.

Jacques Demy tinha uma for­te liga­ção com sua infân­cia, eu não. Ele me con­tou sua infân­cia, as memó­ri­as de sua infân­cia, até a deci­são de entrar para uma esco­la de cine­ma, e trans­for­mei as memó­ri­as dele em fil­me: Jacquot de Nantes (1991) e L’ Univers de Jacques Demy (1995). Já Les Plages d’Agnès é um espé­cie de pas­seio em tor­no da ideia de fazer um autor­re­tra­to aos 80 anos — com algum humor e com um cer­to dis­tan­ci­a­men­to: aqui e ali eu faço uma palha­ça­da. Há uma cena diver­ti­da no fil­me, aque­la em que reu­ni­mos os tro­féus de Jacques e os meus, a Palma de Ouro de Cannes (por Os guar­da chu­vas do amor / Les Parapluies de Cherbourg , 1964), o Leão de Ouro de Veneza (por Sem teto nem lei / Sans toit ni loi, 1985). São colo­ca­dos sobre a areia, vem uma tem­pes­ta­de e eles desa­pa­re­cem… Existe uma espé­cie de vazio na ideia de vitó­ri­as, recom­pen­sas, prê­mi­os. Ao con­trá­rio, exis­te um valor na esco­lha de viver uma vida de artis­ta, de resis­tir fir­me numa vida de artis­ta. Jamais bai­xar a cabe­ça e cru­zar os bra­ços. Meu tra­ba­lho con­sis­te em bus­car for­mas cine­ma­to­grá­fi­cas, pro­cu­rar cri­ar todo o tem­po um cine­ma que tenha uma escri­ta pró­pria, um pou­qui­nho dife­ren­te, um pou­qui­nho nova. Filmei em digi­tal. Poderia ter usa­do 35mm, mas que­ria fazer uma série de peque­nos tru­ques na ima­gem e se tives­se fil­ma­do com pelí­cu­la de 35mm teria sido mais com­pli­ca­do. Com o digi­tal, quan­do sen­tia fal­ta de algo, ía com minha câme­ra até o jar­dim, até a entra­da de minha casa. Filmava e cin­co minu­tos mais tar­de a ima­gem esta­va no fil­me.

Minha fic­ção se ali­men­ta do docu­men­tá­rio. Trabalho como uma jor­na­lis­ta antes de come­çar um fil­me de fic­ção. E, ao con­trá­rio, como uma fic­ci­o­nis­ta quan­do vou fazer um docu­men­tá­rio. Em Les Glaneurs et la gla­neu­se (2000), fil­mei pes­so­as tão extra­or­di­ná­ri­as que pare­cem per­so­na­gens de fic­ção. Existe uma dimen­são fic­ci­o­nal no que con­se­gui arran­car deles, no que eles que­ri­am con­tar para mim. Les pla­ges d’ Agnès é um docu­men­tá­rio, mas os depoi­men­tos foram escri­tos pre­vi­a­men­te. Muita coi­sa foi pla­ne­ja­da como numa fic­ção. Escrevi a nar­ra­ção antes de come­çar a fil­mar. Na fil­ma­gem mui­tas vezes sur­gia uma ideia nova e eu dizia um novo tex­to para a câme­ra. Como mudei mui­to do que esta­va pla­ne­ja­do, a mon­ta­gem foi um pro­ces­so lon­go — nove meses. Queria usar uma téc­ni­ca de cola­gem, como a da pin­tu­ra — como, por exem­plo, a de Rauschenberg: uma cola­gem que não se limi­ta a cor­tar em peda­ços a ima­gem de uma pes­soa de ver­da­de, ou de uma pai­sa­gem de ver­da­de, para depois recom­por a figu­ra. A cola­gem pen­sa­da não como um que­bra-cabe­ças. Colagem só como uma cola­gem. Não que­ro defi­nir meu Les pla­ges d’Agnès como uma cola­gem. Acho que ele está mais per­to de um dis­co voa­dor, um obje­to não iden­ti­fi­ca­do, por­que per­ten­ce, e ao mes­mo tem­po não per­ten­ce, ao cine­ma docu­men­tá­rio. Porque tem coi­sas ence­na­das, mas não per­ten­ce à fic­ção, pois, afi­nal, fala de gen­te de ver­da­de: é a minha vida. São meus 80 anos.

MAIS

Os anéis da sequoia, por Maria Campaña Ramía — a cura­do­ra da mos­tra Retratos de famí­lia apre­sen­ta os fil­mes sele­ci­o­na­dos, incluin­do As prai­as de Agnès.



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