Millôr: Palavras, palavras

Séries

19.03.13

Já con­tei o coup de théâ­tre do Millôr numa Jornada Literária de Passo Fundo, quan­do ele leu um dis­cur­so em defe­sa da demo­cra­cia e dos direi­tos huma­nos que empol­gou a pla­teia. No fim, o Millôr espe­rou que os aplau­sos (de pé) ter­mi­nas­sem para reve­lar que tinha aca­ba­do de ler o dis­cur­so de pos­se na Presidência da República do gene­ral Garrastazu Médici, que inau­gu­ra­va o perío­do mais repres­si­vo e vio­len­to da dita­du­ra mili­tar.

O epi­só­dio exem­pli­fi­ca vári­os aspec­tos do gênio do Millôr. Em pri­mei­ro lugar, ele demons­trou na prá­ti­ca a dis­po­si­ção da pla­teia — qual­quer pla­teia — a se dei­xar entu­si­as­mar por pala­vras que não são mais que pala­vras, quan­do não são men­ti­ro­sas. Em segun­do lugar, ele des­nu­dou a hipo­cri­sia, bei­ran­do o cinis­mo, não só dos gene­rais do regi­me como de mui­tos dos seus apo­lo­gis­tas de fati­o­ta, que nun­ca admi­ti­ram estar fazen­do outra coi­sa senão defen­den­do a demo­cra­cia. Millôr pro­vou o peri­go e a incon­fi­a­bi­li­da­de da retó­ri­ca em qual­quer situ­a­ção e fez a pla­teia, ludi­bri­a­da pelo seu pró­prio tru­que retó­ri­co, reco­nhe­cer-se ludi­bri­a­da por todos os dis­cur­sos altis­so­nan­tes que defor­mam a rea­li­da­de e dis­far­çam suas ver­da­dei­ras inten­ções.

Não é pre­ci­so dizer que a pla­teia o per­do­ou e o aplau­diu outra vez. De pé.

Luis Fernando Verissimo é escri­tor

O acer­vo de Millôr Fernandes aca­ba de ser incor­po­ra­do ao IMS. Em seu estú­dio, foram inven­ta­ri­a­dos 7.858 itens, sen­do 6.577 obras, mate­ri­al que come­ça a ser cata­lo­ga­do.