Millôr: Retrato 3×4

Séries

18.03.13

Millôr, duas síla­bas for­tes, des­con­cer­tan­tes e gen­tis, cuja rima pode ser flor e tam­bém dor. Os olhos eram de águia, mas, tam­bém de pin­tas­sil­go, coli­bri, sabiá.

A expres­são ver­bal adqui­ria nele a for­ça do subs­tan­ti­vo. Por isso a pala­vra lhe vinha sem­pre mul­ti­di­vi­di­da em punhais.

Desgarrado de toda e qual­quer gera­ção, flu­tu­a­va aci­ma daque­la em que vivia, nes­sa ter­ra-de-nin­guém, onde é peri­go­so estar só e, mais peri­go­so ain­da, acom­pa­nha­do.

Seu ato de viver tinha todas as dúvi­das cer­tas. E era um ser míti­co para nós que difi­cil­men­te e apa­ren­te­men­te lhe conhe­cía­mos a essên­cia. A quem o fre­quen­ta­va rega­te­a­va o aplau­so fácil por­que sem­pre bus­cou, nos des­vãos des­sa não-tro­ca, a ver­da­de do ges­to, da pala­vra e da fini­tu­de.

Esmiuçava os con­tras­tes e acei­ta­va com­ba­ti­va­men­te as vaci­la­ções dos que abdi­cam.

Estoico dian­te da gló­ria, “que não fica, não ele­va, não hon­ra nem con­so­la”, resis­tiu sem­pre a toda e qual­quer apo­te­o­se, embo­ra, com toda jus­ti­ça, a ambi­ci­o­nas­se.

Como lem­bran­ça de uma dura infân­cia de meni­no órfão, no seu medo, jamais se aco­var­dou. Seu ros­to guar­da­va recor­da­ções que a memó­ria luta­va para não esque­cer. Acreditava no peri­go da ausên­cia, por isso, sem­pre esta­va e nun­ca fica­va. Sua opção era ain­da estar vivo quan­do o ulti­mo res­pi­ras­se. Não acre­di­ta­va em Deus, mas, tinha com ele exces­si­va inti­mi­da­de e nes­sa não-fé, trans­cen­den­do, con­se­guiu che­gar aos con­clu­si­vos 88 ou 89 anos em pouquís­si­mos segun­dos, o que lamen­ta­mos, lamen­ta­mos, lamen­ta­mos.

Era visí­vel que Millôr este­ve sem­pre pre­pa­ra­do para o Grande Dia. Algumas deci­sões toma­das: a de mor­rer, olhan­do o sol no hori­zon­te. A de sem­pre brin­car de Deus como uma cri­an­ça. A de abso­lu­ta­men­te só crer no des­ti­no. E no final, como um ciga­no ou um poe­ta, escu­tar para sem­pre o silen­cio na luz abso­lu­ta.

*Texto escri­to em 2012 para ser lido na inau­gu­ra­ção do Largo do Millôr, entre o Arpoador e a praia do Diabo, no Rio.

No site da revis­ta Piauí, há uma gra­va­ção de Fernanda len­do o tex­to.

Fernanda Montenegro é atriz

O acer­vo de Millôr Fernandes aca­ba de ser incor­po­ra­do ao IMS. Em seu estú­dio, foram inven­ta­ri­a­dos 7.858 itens, sen­do 6.577 obras, mate­ri­al que come­ça a ser cata­lo­ga­do.