Millôr: Uma alegria para sempre

Séries

21.03.13

Foto: Cristiano Mascaro

Minha gera­ção teve o pri­vi­lé­gio de ser alfa­be­ti­za­da e, ain­da melhor, anal­fa­be­ti­za­da pelo Pif-Paf, seção assi­na­da por Emmanuel Vão Gogo, na revis­ta sema­nal O Cruzeiro. O ver­da­dei­ro autor do Pif-Paf, Millôr Fernandes, tinha hor­ror a todos os câno­nes. Sempre des­con­fi­a­va das fór­mu­las e des­mon­ta­va, qua­se por com­pul­são, o que há de cli­chê no pen­sa­men­to. Sua inte­li­gên­cia anár­qui­ca nun­ca foi ames­tra­da pela razão e pela semân­ti­ca:

Penicilina puma de casa­po­péi­as
Que vais peni­ça cata­ra­mas­cu­ma
Se par­tes car­mo tu que espe­re­péi­as
Já cri­ma vol­ta pin­da cata­ru­ma.

Estando ins­tin­to cata­lo­mas­co­so
Sem ter mavor­te fide las­ti­mi­na
És toda­via piso de hor­ro­ro­so
E eu recla­mo ? Pina! Pina! Pina!

Casa por fim, mor­re peri­di­ma­co
Martume ezo­le, ezo­le mar­tu­mar
Que tu pára enfim é mes­mo um taco.

E se rabe­la capa de casar
Estrumenente siba post­guer­ra
Enfim irá, enfim irá pra ser­ra.”

Quando conhe­ci o Millôr de per­to, des­co­bri que ele era um fã de poe­sia, e repe­tia de cor diver­sos poe­mas extraí­dos da Antologia de Fausto Barreto e Carlos de Laet. Entre seus favo­ri­tos, um de Machado de Assis, dedi­ca­do à sua ama­da, Carolina: “Querida, aos pés do lei­to der­ra­dei­ro…” Que Millôr paro­di­a­va, dizen­do a estro­fe final como se fos­se papo de bote­quim ou de sur­fis­ta, deto­nan­do a pom­pa fúne­bre do poe­ma: “Que eu, se tenho nos olhos malferidos/ Pensa-men­tos de vida formulados,/ São pen­sa­men­tos idos e vivi­dos.”

Aliás, Machado de Assis era um dos temas favo­ri­tos de nos­sa con­ver­sa, que durou 40 anos. Millôr tinha uma impli­cân­cia ter­rí­vel com Machado, e a cada dois anos des­co­bria nele um defei­to novo. O últi­mo foi que Bentinho, pro­ta­go­nis­ta de Dom Casmurro, era na ver­da­de apai­xo­na­do por seu ami­go Escobar, e não tinha o menor inte­res­se por Capitu. Discutimos o tema por alguns anos. No fim, capi­tu­lei.

Era uma delí­cia dis­cu­tir com o Millôr. Tínhamos con­cep­ções qua­se sem­pre diver­gen­tes sobre qua­se tudo. Política, psi­ca­ná­li­se, antro­po­lo­gia. Era rarís­si­mo haver um fil­me sobre cujas qua­li­da­des con­cor-dás­se­mos. Havia 29 anos de dife­ren­ça entre nós e eu tra­zia os víci­os inte­lec­tu­ais da minha gera­ção. Ele tal­vez me con­si­de­ras­se um ET, mas, a des­pei­to dis­so, sem­pre me tra­tou como se per­ten­ces­se ao mes­mo pla­ne­ta. E se tor­nou um sol, em tor­no do qual sem­pre orbi­tei.

Não me atre­vo a enu­me­rar aqui as con­quis­tas inte­lec­tu­ais e artís­ti­cas do Millôr que tes­te­mu­nhei. Penso nelas todos os dias: não há acon­te­ci­men­to que não me sugi­ra uma lem­bran­ça, um ver­so, um apo­teg­ma — com o per­dão do pala­vrão, que ele ado­ra­va. Imagino que fica­rá dele a ima­gem do pole­mis­ta, capaz de espi­na­frar todos os man­da­tá­ri­os da repú­bli­ca e de refu­tar as auto­ri­da­des filo­só­fi­cas do nos­so tem­po, entre as quais Freud: “Mulher não tem inve­ja do pênis: tem inve­ja é da água enca­na­da.”

Millôr não só era o humo­ris­ta mais bri­lhan­te, mas tam­bém um líri­co, asse­di­a­do pelos fan­tas­mas da fini­tu­de, do amor e da mor­te. Seria uma pena que a pos­te­ri­da­de não guar­das­se a memó­ria de sua deli­ca­de­za. Quando fiz 35 anos, por exem­plo, ida­de que, para Millôr, era o apo­geu de nos­sa zoo­lo­gia, ele me deu de pre­sen­te um livro de arte, cha­ma­do La muta­ti­on d’un pay­sa­ge. Nele, o pin­tor Jörg Müller pin­ta sem­pre a mes­ma pai­sa­gem, que vai sen­do degra­da­da por inter­fe­rên­cia da ocu­pa­ção huma­na. No car­tão que me trou­xe com o pre­sen­te, esta­va escri­to: “Ao com­pa­nhei­ro G, na data de seu nata­lí­cio ani­ver­sa­ri­al, este livro de uma pai­sa­gem, uma via, uma memó­ria, um desas­tre urba­no e huma­no, para que não se esque­ça que todo homem, ao desa­pa­re­cer, leva no cora­ção vári­as cida­des mor­tas.”

Felizmente, boa par­te do seu talen­to foi regis­tra­da em ima­gens e pala­vras. Assim, espe­ro que os lei­to­res do futu­ro tenham a sor­te de adi­vi­nhar que, por trás de sua inte­li­gên­cia incom­pa­rá­vel, havia tam­bém um ser huma­no raro e rare­fei­to, fei­to de som e fúria e de não ser. E que por trás de seu humor e de sua iro­nia havia sem­pre a cele­bra­ção des­sa ale­gria efê­me­ra cha­ma­da vida.

Geraldo Carneiro é poe­ta e escri­tor

O acer­vo de Millôr Fernandes aca­ba de ser incor­po­ra­do ao IMS. Em seu estú­dio, foram inven­ta­ri­a­dos 7.858 itens, sen­do 6.577 obras, mate­ri­al que come­ça a ser cata­lo­ga­do.