Minúsculas imitações da morte

Correspondência

25.02.11

Oi, André,

Eu tam­bém fiz essa tra­ves­sia da Lagoa da Conceição em Florianópolis. Foi a pri­mei­ra tra­ves­sia que nadei na vida, eu tinha uns dezes­seis anos, acho. Na épo­ca o per­cur­so era de 2300m. Falei bre­ve­men­te des­sa pro­va num tex­to sobre a Travessia dos Fortes que publi­quei na Piauí uns anos atrás. Comentei a vio­lên­cia da lar­ga­da e a visão de sofás, cue­cas e detri­tos diver­sos no fun­do da lagoa, era algo assim. Existe uma foto hor­ro­ro­sa que meu pai tirou na che­ga­da, estou com uma gar­ra­fa d´água na mão, de sun­ga e ócu­los na tes­ta, incha­do e depro­vi­do de pêlos cor­po­rais, com uma expres­são paté­ti­ca no ros­to, pare­cen­do alguém que aca­ba de acor­dar de uma anes­te­sia geral após um gra­ve aci­den­te de car­ro. Está num mural de fotos fami­li­a­res na casa dos meus pais e faz par­te das Fotos Que Finjo Que Não Vejo, como outra em que estou de ter­no e gra­va­ta, mule­tas e pé enfai­xa­do.

Com rela­ção a ati­vi­da­des físi­cas, tam­bém não gos­to da “papa­gai­a­da” que tu men­ci­o­nou: a glo­ri­fi­ca­ção da fadi­ga extre­ma, a com­pe­ti­ção, as sei­tas de atle­tas e essas coi­sas. Nunca fui um espor­tis­ta dedi­ca­do, jamais tive pre­ten­sões pro­fis­si­o­nais nes­se sen­ti­do e meu sen­so de com­pe­ti­ti­vi­da­de é nulo, tan­to que me man­te­nho lon­ge de espor­tes cole­ti­vos, que envol­vam bolas ou que sejam foca­dos demais na ideia boba de ven­cer. (Abro exce­ção pro tênis, espor­te que ido­la­tro, mas tive aulas aos doze anos e des­co­bri que era des­co­or­de­na­do demais pra coi­sa.)

Desde a ado­les­cên­cia, minha rela­ção com exer­cí­ci­os é de cer­ta for­ma aná­lo­ga à minha rela­ção com os livros ou com o inte­lec­to em geral: há um apren­di­za­do infi­ni­to no enfren­ta­men­to de cada um des­ses mun­dos e, embo­ra sejam dife­ren­tes a pon­to de pare­ce­rem con­tra­di­tó­ri­os para mui­ta gen­te, eles são na ver­da­de mani­fes­ta­ções com­ple­men­ta­res, e igual­men­te impor­tan­tes, do nos­so orga­nis­mo. Nunca achei que a men­te — ou a alma — habi­tas­se o cor­po. Mente e cor­po são a mes­ma coi­sa, e a sen­sa­ção de que uma habi­ta o outro é ape­nas uma pia­da não-inten­ci­o­nal da cons­ci­ên­cia.

Talvez por isso eu tenha me impres­si­o­na­do tan­to com a lei­tu­ra de um livro do Yukio Mishima cha­ma­do Sol e Aço, é um livri­nho da Brasiliense tra­du­zi­do pelo Leminksi, e creio que é a últi­ma coi­sa que o Mishima escre­veu antes de come­ter hara­ki­ri dian­te do coman­dan­te das for­ças arma­das em pro­tes­to à deca­dên­cia dos valo­res mili­ta­res e tra­di­ci­o­nais do Japão etc. Nesse ensaio poé­ti­co, ele defen­de que é pre­ci­so inves­ti­gar o sig­ni­fi­ca­do da mor­te ao mes­mo tem­po com o espí­ri­to — a inves­ti­ga­ção inte­lec­tu­al — e com a car­ne — a inves­ti­ga­ção físi­ca. Em pri­mei­ro lugar, o exer­cí­cio talha o cor­po para exer­cer um con­tras­te com a mor­te e, assim, res­sal­tá-la como obje­to da bus­ca inte­lec­tu­al. Ou, ao esti­lo do Mishima (tive que ir pro­cu­rar o livro nas minhas cai­xas, sor­te que tava na de cima): “O que sal­va a car­ne de ser ridí­cu­la é a pre­sen­ça da mor­te que resi­de num cor­po vigo­ro­so e sau­dá­vel”.

A par­tir daí, sua ambi­ção é alcan­çar uma com­bi­na­ção entre a arte e a ação, o que não pode­ria ser fei­to sem “a assun­ção de uma pola­ri­da­de den­tro do eu e a acei­ta­ção da con­tra­di­ção e do cho­que”. Mais pra fren­te, ele diz:

Agora enten­do que o tipo de tare­fa de polir a ima­gi­na­ção para a mor­te e o peri­go aca­ba ten­do o mes­mo sig­ni­fi­ca­do de afi­ar a espa­da, tare­fa que há mui­to tem­po vinha me cha­man­do de lon­ge; só a fra­que­za e a covar­dia me fize­ram evi­tá-la. Manter a mor­te na alma dia a dia, foca­li­zar cada momen­to à luz da mor­te ine­vi­tá­vel, colo­car em um mes­mo lugar nos­sos mais sinis­tros pres­sá­gi­os e nos­sos sonhos de gló­ria… se isso era tudo, então era sufi­ci­en­te trans­fe­rir ao mun­do da car­ne o que há mui­to tem­po eu vinha fazen­do no mun­do do espí­ri­to.

Como homem e artis­ta radi­cal que era, o Mishima levou a ideia a um pata­mar de ação que pou­cos ousa­ri­am e que está evi­den­te em aspec­tos conhe­ci­dos da sua bio­gra­fia: a roti­na insa­na de exer­cí­ci­os físi­cos, lutas mar­ci­ais, glo­ri­fi­ca­ção do mili­ta­ris­mo e da cora­gem físi­ca etc. E ape­sar de eu me sen­tir atraí­do por esse tipo de coi­sa somen­te num pla­no mais ide­a­li­za­do ou esté­ti­co, enten­do bem do que ele fala nes­se outro tre­cho:

Minha paz esta­va mais do que em qual­quer lugar — só ali, aliás — nos peque­nos renas­ci­men­tos que ocor­ri­am ime­di­a­ta­men­te após o exer­cí­cio. Agitação con­tí­nua, mor­tes con­tí­nu­as sem parar, fuga inces­san­te da fria obje­ti­vi­da­de — nes­se momen­to, eu não podia mais viver sem esses mis­té­ri­os. Nem é pre­ci­so dizer: den­tro de cada mis­té­rio, uma minús­cu­la imi­ta­ção da mor­te.

O que eu bus­co ao nadar ou cor­rer ou pra­ti­car algum outro exer­cí­cio é algo seme­lhan­te a isso, embo­ra cer­ta­men­te num grau mais come­di­do. O tran­se dos movi­men­tos repe­ti­dos da nata­ção, a con­cen­tra­ção na res­pi­ra­ção e no dese­nho das bra­ça­das duran­te lon­gos perío­dos, sem enxer­gar qua­se nada, ouvin­do ape­nas o ruí­do da água agi­ta­da, sen­tin­do o des­li­za­men­to efi­ci­en­te de um nado vigo­ro­so e bem coor­de­na­do, podem levar a um auto-aban­do­no que nos põe em con­ta­to com os mes­mos mis­té­ri­os que se pode inves­ti­gar inte­lec­tu­al­men­te, mas numa expe­ri­ên­cia físi­ca, ao mes­mo tem­po antagô­ni­ca e com­ple­men­tar ao espí­ri­to. A face antagô­ni­ca é bas­tan­te cla­ra, como ele exem­pli­fi­ca: “Suponha que eu agi­te os bra­ços. Ao fazê-lo, per­co par­te do san­gue inte­lec­tu­al. Suponha que eu me per­mi­ta, mes­mo que por um ins­tan­te, a pen­sar antes de dar um gol­pe. Nesse momen­to, meu movi­men­to está con­de­na­do ao fra­cas­so.”

A face com­ple­men­tar é que pare­ce mais inson­dá­vel. O Mishima sonha com o lugar onde as duas coi­sas devem se encon­trar, “um ter­ri­tó­rio afim àque­le rei­no supre­mo onde movi­men­to tor­na-se repou­so e repou­so, movi­men­to.” Ele con­clui que esse prin­cí­pio mai­or onde as duas coi­sas se encon­tram só pode ser a pró­pria mor­te.

Uma par­te do per­fil do Hermano, o pro­ta­go­nis­ta do Mãos de Cavalo, é dire­ta­men­te ins­pi­ra­da na lei­tu­ra de Sol e Aço. Aquela coi­sa da rela­ção meio maso­quis­ta dele com os exer­cí­ci­os físi­cos, a ten­ta­ti­va de supe­rar inte­lec­tu­al­men­te sua obses­são com o san­gue e sua covar­dia essen­ci­al. São temas que me encan­tam.

Não te assus­ta, não há a menor pos­si­bi­li­da­de de que eu come­ta sui­cí­dio ritu­al aos pés do Nelson Jobim nem nada do tipo. Mas por mais extre­mo que seja o pen­sa­men­to do Mishima, assim como extre­ma foi a manei­ra com que ele trans­for­mou o pen­sa­men­to em ação, encon­trei nes­se livro, pela pri­mei­ra vez, uma expres­são cla­ra de algu­mas coi­sas que eu já intuía, uma liga­ção sub­ter­râ­nea entre os esfor­ços de ler toda a obra de um Proust ou Melville e o de enca­rar a nado os rede­moi­nhos do estrei­to de Dardanelos.

Mas eu não sou um homem de extre­mos inte­lec­tu­ais, tam­pou­co físi­cos. Me con­ten­to com — ou estou limi­ta­do a — uma fai­xa média de pen­sa­men­to e expe­ri­ên­cia. Tenho cer­te­za de que isso está cla­ro no meu com­por­ta­men­to e tam­bém no que escre­vo, e já pas­sei do pon­to em que pode­ria ter ver­go­nha dis­so. Tem aque­la fra­se do Iberê Camargo, “eu não toco a vida com a pon­ta dos dedos”. Pois é jus­ta­men­te o que eu faço. É o que está ao meu alcan­ce fazer. Tateio um pou­co e depois ima­gi­no, embo­ra não seja cego e pos­sa enxer­gar mui­to bem toda a exten­são da expe­ri­ên­cia em que me abs­te­nho de enfi­ar a mão (não creio que se tra­te de uma esco­lha). E a ver­da­de é que nadar uns 2 ou 3km na Pinheira ou dar qua­tro vol­tas cor­ren­do no Parque da Redenção não ape­nas me bas­ta, como sobra.

A men­sa­gem final tal­vez seja essa: não se encon­tra o mis­té­rio somen­te nos extre­mos. Ninguém pre­ci­sa entrar numas de com­pe­tir ou se matar de can­sa­ço pra dia­lo­gar fisi­ca­men­te com o mun­do por meio de um exer­cí­cio. Sei lá, se eu fos­se tu eu vol­ta­va pro boxe. Te ima­gi­no fazen­do kung fu tam­bém. Nossa, ima­gi­no mui­to.

E fica aqui em casa em mar­ço, óbvio.

Um abra­ço,

D. Galera

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